Jornal Mundo Espírita

Abril de 2021 Número 1641 Ano 89

O Livro dos Médiuns, sob a ótica da Revista Espírita

março/2021 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

No dia 15 de janeiro de 1861, surgiu o livro mais completo sobre a mediunidade, trazendo lúcidas orientações sobre o intercâmbio e a relação entre os Espíritos e os encarnados.

Allan Kardec noticia o surgimento dessa obra, O Livro dos Médiuns, na Revista Espírita de janeiro de 18611, anotando que ela constitui o complemento do Livro dos Espíritos e encerra a parte experimental do Espiritismo, (…)

Nesse trabalho, fruto de longa experiência e de estudos laboriosos, procuramos esclarecer todas as questões que se ligam à prática das manifestações. De acordo com os Espíritos, contém a explicação teórica dos diversos fenômenos e das condições em que os mesmos se podem reproduzir. Mas a seção concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi de nossa parte objeto de particular atenção.

O Espiritismo experimental é cercado de muito mais dificuldades do que geralmente se pensa; e os escolhos aí encontrados são numerosos.

Desde que o homem está na Terra, há o intercâmbio com o mundo espiritual, de forma que esse tema e as suas variadas nuances sempre foram objetos da curiosidade e povoaram o imaginário popular, surgindo mitos, fantasias e equívocos.

O Espiritismo dissipou a ignorância e as falhas conceituais e metodológicas que havia na mediunidade, portanto, era natural que houvesse uma grande procura pelas informações trazidas à baila pela 1ª edição de O Livro dos Médiuns.

Nesse sentido, convém registrar que Allan Kardec, em 1858, havia lançado uma brochura denominada Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas, que se esgotou rapidamente.

Na Revista Espírita de março de 18612, Kardec divulga que estava pensando em nova edição de O Livro dos Médiuns, inclusive por haver pedidos de outros países como Rússia, Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra, México, Estados Unidos e Brasil.

Em novembro de 18613, na Revista Espírita, o nobre Codificador informa que a 1ª edição esgotou, em poucos meses, aduzindo que Nós mesmos constatamos, em nossas excursões, a influência salutar que esta obra exerceu sobre a direção dos estudos espíritas práticos; assim, as decepções e mistificações são muito menos numerosas do que outrora, porque ela ensinou os meios de descobrir as astúcias dos Espíritos enganadores. Esta segunda edição é muito mais completa que a precedente; encerra numerosas instruções novas muito importantes e vários capítulos novos. (…)

Devemos acrescentar que os Espíritos reviram a obra inteiramente e trouxeram numerosas observações do mais alto interesse, de sorte que se pode dizer que a obra é deles, tanto quanto nossa.

Recomendamos com instância esta nova edição, como o guia mais completo, quer para os médiuns, quer para os simples observadores.

Dessa forma, Allan Kardec divulga o surgimento da 2ª edição de O Livro dos Médiuns, ampliada e revisada, que se tornaria a edição definitiva, permitindo aos homens a mantença da relação com os Espíritos dentro de padrões ético-morais e com profunda disciplina e educação.

Anote-se que a Revista Espírita foi o grande laboratório dessas informações coletadas por Kardec, assim como nela encontramos dezenas de lições complementares que nos ajudam no exercício saudável da mediunidade, que foram publicadas antes e depois de O Livro dos Médiuns.

Nessa linha de raciocínio, impende destacar alguns assuntos vitais tratados em O Livro dos Médiuns, que foram reforçados na referida Revista, a saber: a existência de Espíritos e a sua ação no mundo corpóreo; tipos de manifestações espirituais (físicas e inteligentes) e de mediunidades; desenvolvimento da mediunidade; influência dos médiuns nas comunicações;  inconvenientes e escolhos da mediunidade; análise das comunicações e como aferir aquelas que são provenientes dos bons Espíritos.

Aliás, gostaria de destacar três textos que foram publicados originariamente na Revista Espírita e depois fizeram parte de O Livro dos Médiuns: o capítulo VIII (Laboratório do Mundo Invisível), que Kardec publicou na Revista de agosto de 1859 (Mobiliário de Além-Túmulo); o item 230 do capítulo XX (Influência Moral do Médium) que encontramos na revista de agosto de 1861 (Mensagem de Erasto – Da Influência Moral dos Médiuns nas Comunicações), e a introdução do capítulo XVI que constou da revista de fevereiro de 1860 (Médiuns Especiais).

Outro ponto digno de nota é que havia muitos questionamentos acerca de como ocorriam as manifestações espirituais, qual era o papel dos Espíritos e como os médiuns colaboravam nesses fenômenos, tanto que na primeira Revista Espírita publicada em janeiro de 1858 há cinco textos relacionados com essa temática.

Nos três primeiros anos da Revista Espírita, de 1858 a 1860, portanto antes da publicação de O Livro dos Médiuns, há, aproximadamente, setenta textos relacionados com o assunto (manifestações espirituais, mediunidade e médiuns), o que revela a importância da matéria e a grande procura que havia por esclarecimentos nessa área.

Na Revista Espírita encontraremos ainda assuntos sobre a utilidade das comunicações espirituais (há em torno de 150 a 200 comunicações, cujos conteúdos são extraordinários), meios de se prevenir das fraudes e das mistificações (p. ex.: julho/1858 – Espíritos impostores: O falso Padre Ambrósio e agosto/1863 – Perguntas e problemas; Mistificações), critérios para analisar as comunicações (p. ex.: agosto/1858 – Contradições  na linguagem dos Espíritos; maio/1863 – Exame das comunicações mediúnicas que nos enviam e julho/1863 – Sobre comunicações espíritas), as obsessões na mediunidade (p. ex.: dezembro/1863 – Um caso de possessão – Senhora Júlia),  afinidade fluídica entre o médium e o Espírito (p. ex.: abril/1865 – Resposta do irmão morto ao irmão vivo e julho/1866 – Morte de Joseph Méry), mediunidade na infância (p. ex.: janeiro/1865 – Evocação de um surdo-mudo encarnado; fevereiro/1865 – Mediunidade da infância e setembro/1866 – Variedades: Mediunidade de vidência nas crianças), importância dos grupos mediúnicos sérios e unidos (p. ex.: maio/1865 – Da seriedade nas reuniões e junho/1865 – O Espiritismo de alto a baixo da escala) etc.

Diante do exposto, coube ao Espiritismo, através da segunda obra do pentateuco de Kardec, O Livro dos Médiuns, com as lições complementares da Revista Espírita, trazer luz, conhecimento, ética, disciplina  e direcionamento moral para o exercício da mediunidade, que nos sintoniza com os benfeitores espirituais, sempre com alicerce nas lições de Jesus, sobretudo na passagem do Monte Tabor, onde Ele dialogou com dois Espíritos materializados (Elias e Moisés), e na forma amorosa como agia diante das obsessões (influência perniciosa dos Espíritos em nossas vidas).

Cabe-nos, portanto, exaltar O Livro dos Médiuns,  sem esquecer o complemento da Revista Espírita, pois Com Allan Kardec, o nobre Codificador do Espiritismo, a mediunidade abandonou as paisagens do mito e da acusação, deixando de ser graça especial concedida a alguns ou psicopatologia lamentável, para assumir o papel real de ponte entre as dimensões física e espiritual, facilitando o intercâmbio entre os seres, ao tempo em que dignificou a conduta moral terrestre.4

Referências:

1 KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1861, v. I. São Paulo: EDICEL, 1999. O livro dos médiuns.

2 Op. cit. Ano 1861, v. 3. O homenzinho ainda vive – A propósito do artigo do Sr. Deschanel, no Journal des Débats.

3 Op. cit. Ano 1861, v. 11. Bibliografia. O livro dos médiuns. Segunda edição.

4FRANCO, Divaldo Pereira. Espiritismo e Vida. Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Salvador: LEAL, 2009. cap. 3.

*A Biblioteca Espírita Virtual da FEP disponibiliza, aos interessados, O livro dos médiuns, em sua primeira edição francesa, em http://www.bibliotecaespirita.com.br/obras/detalhamento/?material=482

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