Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O livro dos espíritos – 150 anos de convite ao amor e à instrução

A revolução silenciosa

janeiro/2007

Já de há muito tempo, Paris, em particular, onde os efeitos eram mais imediatos, e a França, no seu todo, sofria com a instabilidade política e econômica gerada pelas revoluções e perturbações internas graves, além dos problemas europeus que ali refletiam. O período napoleônico e também as Revoluções de 1830 e a de 1848, exigiram longo período posterior para que a França tomasse um ritmo mais tranqüilo.

Outubro já apresentava o dourado-avermelhado das folhas outonais dos plátanos às margens dos rios Saône e Rhône, que, como o entrelaçar de dois braços num permanente e carinhoso amplexo, cortam Lyon, França.

O dia 3 desse mês, em 1804, viu o nascimento de Hippolyte Léon Denizard Rivail, para alegria de Jean-Baptiste Antoine Rivail e Jeanne Louise Duahamel, seus pais.

O pequeno Hippolyte tinha 10 anos, quando, em 1815, seus pais o matricularam no renomado Instituto do Prof. Pestalozzi, em Yverdon-le-Bains, extremo sul do Lago Neuchâtel, a cerca de 200 km de Lyon, na vizinha Suíça, a fim de que seguisse com primor seus estudos, por ser escola à altura do seu talento precoce e de sua avantajada inteligência.

Passados os anos, a partir de 1823 encontramos Hippolyte residindo em Paris.

Já em 1824 publicava seu primeiro livro de cunho pedagógico: Cours Pratique et Théorique  D´Arithmétique, d´aprés la méthode de Pestalozzi.

Seguiu sua jornada. Em 1832 casou-se com Amélie-Gabrielle Boudet. Tornou-se reconhecido e aplaudido autor de livros didáticos, poliglota, tradutor, professor fundador de escolas, largamente integrado no meio acadêmico e cultural da “Cidade Luz”.

Em maio de 1855, veio a conhecer mais detidamente os ditos fenômenos das mesas girantes, assistindo reunião na casa da Sra. Plainemaison, à rua Grange-Batelière, 18, por insistência de seu particular amigo Carlotti. Ali presenciou, por primeira vez, o fenômeno das mesas que giravam, que saltavam e corriam, “em condições tais” – diz ele mesmo – “que não deixavam margem a qualquer dúvida”.

Os fatos posteriormente observados, em outras ocasiões, com os olhos argutos e a mente brilhante de um notável pesquisador, causaram também fortes e positivas impressões no Prof. Rivail, a ponto de levá-lo a dedicar, a partir de então, intensa pesquisa sobre o fenômeno, cuja extensão e profundidade levou-o a contatos e trocas de informações e experiências em variados pontos do mundo.

Mesmo o rigor dos invernos parisienses não impediu a constância do trabalho de organizar aquele revelador conjunto de informações do mais alto interesse da Humanidade, por configurarem a revelação de uma nova lei.

Os resultados foram sendo reunidos, tabulados, analisados, e à medida que avançava, observando que tudo aquilo constituía um todo pela universalidade dos ensinos e ganhava proporções de uma doutrina, decidiu-se por publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente.

Aproximava-se o momento de apresentar ao mundo as conclusões da primeira fase do trabalho, que contou com inúmeros colaboradores, especialmente as senhoritas Baudin e Japhet.

O Prof. Rivail, com o concurso dos Espíritos, que desde o início apresentavam-se orientando o trabalho, arrematava o conteúdo do livro que demarcaria o início de outra grande revolução aos franceses e ao mundo, só que agora uma revolução permanente, contínua e silenciosa, por acontecer na intimidade de cada pessoa. Estava sendo apresentada à Humanidade a primeira edição de O Livro dos Espíritos, contendo os princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade segundo os ensinos dados por espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns. Era a manhã ensolarada de sábado primaveril parisiense, aos 18 de abril de 1857, no Palais Royal, Rua de Rivoli, Galeria d´Orléans, 13, na Livraria E. Dentu.

Nascia o Espiritismo. Nascia, juntamente com a obra, Allan Kardec, o codinome que Prof. Rivail adotara, segundo o seu peculiar bom senso e sua humildade orientavam, a fim de que, sendo o livro da autoria dos Espíritos, e sendo ele o organizador, o Codificador da obra, porém não o autor, não devesse ser confundido com o notável Prof. Rivail, que o mundo acadêmico e cultural da época conhecia, respeitava e admirava. O conteúdo do livro é que deveria falar por si próprio, é que deveria triunfar, e não o nome do autor que assinasse a obra.

E triunfou. Em 150 anos de convite ao amor e à instrução, são milhões, nos variados pontos do Globo, aqueles que aceitamos o convite, adentramos o conhecimento da Vida em sua real amplitude e grandeza, e estamos trabalhando sua intimidade para a grande reforma moral, numa revolução silenciosa, porém constante.

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