Jornal Mundo Espírita

Junho de 2020 Número 1631 Ano 88

O homem, a consciência e Deus

maio/2020 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

Desde o início de sua evolução, o ser humano começou a se questionar a respeito da Criação. De onde teria surgido tudo o que se podia ver? A lua, o sol, as estrelas, a água, a natureza, o planeta, o próprio ser humano etc.

Naturalmente, diante do primitivismo humano, surgiram pensamentos equivocados, limitados, como a crença em vários deuses, cada um sendo responsável pela criação de algo, havendo, nessa linha de raciocínio, o deus do sol, o deus da chuva, o deus do oceano etc.

O pensamento humano foi se incrementando, a princípio, na direção errada, surgindo ideias como o Olimpo grego e seus deuses, os deuses romanos, que necessitavam serem bajulados e agradados pelos seres humanos, dando início aos sacrifícios de pessoas, de animais, e até oferendas vegetais, com o escopo de agradá-los.

O Judaísmo inaugurou a crença num Deus único, Criador de tudo e de todos, o que representou um grande avanço no pensamento religioso. Depois, surgiram outras crenças religiosas sustentadas na ideia monoteísta.

Em paralelo com a ideia de um Criador, havia também aqueles que sustentavam a tese da força do acaso, sendo possível para eles que as coisas e a vida tenham surgido através da ação do tempo conjugada com os efeitos das leis universais, como a gravidade, o eletromagnetismo, a quântica fraca e a quântica forte, tudo a partir do Big Bang.

Na atualidade, essas linhas de pensamento ganharam complexidades, surgindo um duelo intelectual entre as escolas criacionistas (teístas) e evolucionistas (ateístas).

Entretanto, não podemos deixar de reconhecer que Jesus representou o grande marco divisor, apresentando-nos a exata ideia de Deus, isto é, de um Pai, Criador de tudo e de todos, que nos ama profundamente, liberto das discussões fanáticas de algumas religiões e dos pensamentos limitados dos materialistas.

No Evangelho de João1, encontramos a extraordinária passagem de Jesus com a mulher samaritana, sendo que os samaritanos tinham o hábito de orar a Deus no Monte Gerizim, ao passo que os judeus oravam no Templo de Jerusalém, no Monte Sião.

A referida mulher indaga a Jesus acerca de qual dos locais era correto para se adorar a Deus, tendo o Mestre dado uma resposta que até hoje nos impressiona, ensinando que chegaria a hora em que a adoração não se daria em nenhum dos montes, porque deveremos adorar a Deus em espírito e verdade.

Percebe-se claramente que Jesus estava ensinando que Deus está em todos os lugares, inclusive dentro de nós, de tal sorte que podemos orar ao Pai em qualquer lugar e circunstância, procurando, através desse ato de adoração, uma conexão espiritual e direta com Ele, sem intermediários, revelando a real sinceridade e a grandeza da fé através da nossa transformação moral, atendendo, por consequência, aos dizeres de Jesus: em Espírito e Verdade.

 Com a vinda do Espiritismo, o pensamento de Jesus acerca de Deus foi complementado e tornado mais claro, não por falha do Autor (Jesus), mas por imperfeição do ser humano, que distorceria ou limitaria a grandeza do Seu ensino.

Em O Livro dos Espíritos2, a primeira obra do pentateuco de Allan Kardec, os benfeitores espirituais trouxeram conceitos mais diretos e objetivos para que pudéssemos entender Deus como sendo a Inteligência suprema e a causa primária de todas as coisas, apresentando-nos Seus atributos, revelando, ainda, que o ser humano não poderia compreender a natureza íntima de Deus, que é soberanamente justo e bom.

O ser humano vai amadurecendo seu entendimento acerca de Deus e a forma de adorá-lO e, para nos ajudar nesse desiderato, temos as orientações da Espiritualidade maior. Por exemplo, as lúcidas lições do Espírito José Lopes Neto, que foi um grande trabalhador da seara espírita paranaense, e, através da mediunidade de José Raul Teixeira, trouxe-nos a excelente obra Em Nome de Deus, lançada pela Editora Fráter.

O referido Espírito3 adverte que há pessoas, cuja crença em Deus ainda se sustenta na tradição (familiar, social etc.), ou na mera conveniência (busca de outros interesses), ou somente nos períodos de ausência de problemas e sofrimento.

Vê-se, portanto, a imperiosa necessidade de nos libertarmos dessas crenças infantis ou interesseiras, para realmente criarmos uma conexão madura e espiritual com Deus.

Na Terra, por vezes, também repetimos frases populares que revelam nossa crença em Deus, mas não paramos para refletir no real sentido de suas expressões, ou nos erros que elas contêm.

O Espírito José Lopes Neto identificou algumas dessas frases e nos fez perceber quais devem ser as suas reais implicações, a fim de que possamos aprimorar nosso entendimento acerca de Deus.

Cita, por exemplo, a frase4 Deus é Pai e não padrasto.

Em termos materiais, já se nota o equívoco da expressão, porque, em diversas famílias, vemos padrastos e madrastas que são verdadeiros anjos nas vidas dos enteados, não medindo esforços para ofertar o melhor nas esferas educacional e emocional.

Em relação a Deus, a única forma de entender a expressão sem falhas é de enxergá-lO como Pai, Aquele que nos gerou, de forma que não fomos criados por outro ser e entregues ao Seu cuidado, bem como sabemos que Deus jamais vai nos abandonar ou condenar eternamente. Portanto, jamais precisaremos de um genitor ou tutor substituto.

A expressão5 Deus nos livre também é largamente utilizada com o escopo de nos afastar de algo ruim ou indesejado.

O Espírito José Lopes Neto assevera que a usamos para ficarmos livres das doenças, todavia, mantemos os vícios que serão responsáveis por desajustar a saúde. Repetimos a expressão para que a loucura nunca se apodere de nós, mas proferimos calúnias, fazemos intrigas, mentimos e ainda guardamos ressentimentos, tudo isso a gerar vibrações de má qualidade que desestruturam a saúde mental. Desejamos que Deus nos livre da culpa, que gera tanto sofrimento emocional, entretanto, continuamos a cultivar falcatruas e erros que pesam em nossa consciência.

Em suma, exigimos que Deus faça a parte dEle sem falhas, mas não somos capazes de modificar nossa conduta para colhermos efeitos saudáveis na própria vida.

O amadurecimento da relação com Deus faz com que a fé se potencialize e se reflita nobremente em nossas atitudes e aspirações, a ponto do Pai Celestial poder contar conosco na grande obra do amor e da regeneração da Humanidade.

Nesse sentido, José Lopes Neto relembra a frase do Espírito de Verdade6, isto é, que Deus, neste momento, procede ao censo dos seus servidores fiéis, justamente para poder contar com nossa colaboração no ato de servir ao próximo e à vida, demonstrando que a grande mensagem que vem do Alto, portanto de Deus, é de que somente o amor, que revela a nossa verdadeira transformação moral, será capaz de mostrar a legítima adoração a Ele.

Encerro este artigo com um notável pensamento de Gibran Khalil Gibran, que, em resumo, diz7:

Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza suas dádivas.

 E há os que têm pouco e dão-no inteiramente.

 Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se esvaziam.

 E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.

 E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na virtude.

 Dão como, no vale, a flor espalha sua fragrância no espaço.

Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através de seus olhos, Ele sorri para o mundo.

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 4, vers. 4 a 30.

2 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 1, cap. 1, q. 1.

3 TEIXEIRA, Raul. Em nome de Deus. Pelo Espírito José Lopes Neto. Niterói: Fráter, 2007. cap. A respeito da crença em Deus.

4 Op. cit. cap. Sobre a paternidade de Deus.

5 Op  cit. cap. Que Deus nos livre.

6 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XX, item 5.

7 GIBRAN, Gibran Khalil. O profeta. Rio de Janeiro: ACIGI. cap. A dádiva.

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