Jornal Mundo Espírita

Abril de 2020 Número 1629 Ano 88
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O guarda-chuva amarelo

outubro/2014

Amélie está de mau humor. Isso é raro. Raro como quatro dias de sol seguidos em minha cidade.

Amélie é sempre sol, mas hoje enxergo uma pequena nuvem, dessas de desenho animado, sobre sua cabeça.

Amélie está indo para a escola. Chove. Chuva fina e gelada.

Paro o carro. Agora vem a hora mais difícil. Acho que a despedida não vai ser fácil dessa vez – na maioria das vezes é. Fico torcendo para que venha alguém bem sorridente para buscá-la.

As professoras e assistentes que vêm apanhá-la são sempre muito simpáticas. Lá vem uma. E, além do sorriso, ela carrega em sua mão direita algo que vai mudar nossas vidas, minha e de Amélie, para sempre: um guarda-chuva amarelo.

Sim, é isso mesmo, um simples guarda-chuva de cor amarela.

Não é um amarelo qualquer, apagado. Não é amarelo-ouro. Não é amarelo-canário. Não é amarelo-limão. Não sei descrever. Procuro palavras, adjetivos, dicionário. Quem sabe: amarelo-sol. Inventei.

Olho Amélie pelo espelho e a mudança de semblante é espantosa. Emocionou-me. Ela se apaixonou por ele. Tudo ao redor parece ter perdido significado, apagando-se. O centro das atenções agora é o guarda-chuva amarelo.

Enquanto a moça se aproxima com aquele objeto amarelo reluzente maravilhoso, Amélie abre um sorriso lindo, sorriso de quem vai ganhar algo que sempre quis e nunca soube que quisesse. Sorriso de realização!

A moça está me oferecendo esta coisa linda e amarela! – deve ter pensado ela.

Preciso dizer que Amélie esqueceu que tinha pai naquele instante?

Pois é… Lá foi ela no colo da professora, radiante, sorriso aberto, segurando com firmeza a haste prateada, desfilando, encantada, entre todas as pessoas e crianças com seu guarda-chuva amarelo-sol.

Seu dia não foi o mesmo depois daquele encontro. Ela soube curtir o momento de forma intensa, deixando de lado o mau humor, o sono, e seja lá o que fosse que a estivesse chateando. Foi como se o presente a tivesse lembrado de algo bom, algo que ela tivesse, momentaneamente esquecido.

Contudo, ainda vi algo mais, que me fez pensar que talvez aquele não fosse um guarda-chuva qualquer, fosse, quem, sabe, uma sombrinha com poderes mágicos.

A claridade do dia – que era pouca, mas resistia – passava pela transparência da cúpula do guarda-chuva e iluminava minha filha com uma luz dourada tão intensa que não pude deixar de notar e admirar.

Confesso que não sei ao certo se foi Amélie que fez sol debaixo do guarda-chuva, ou se foi a luz que se fez amarela ao passar pelo tecido dessa cor. A verdade é que ali, onde ela estava, o sol brilhava.

E lá foi ela, fazendo sol debaixo do guarda-chuva num dia feio de inverno…

*   *   *

Nossa vida não é apenas repleta de aflições, mas também cheia de guarda-chuvas amarelos. Há sempre um braço nos estendendo um por aí… Salvam nosso dia quase sem querer.

Falta-nos, quem sabe, a sensibilidade para percebê-los. Para nós um guarda-chuva é apenas um guarda-chuva.

A vida é tão cheia de imaginação! É tão cheia de opções, de possibilidades… De pequenas felicidades certas!

Enxergar beleza nessas pequenas coisas é uma arte… A arte de ser feliz.

Sei que um dia vamos deixar de dizer que essas coisas são pequenas

Amélie é pequena. Tem dois anos.

Amélie é um dos meus guarda-chuvas amarelos.

Faça sol ou tempestade, não saio mais de casa sem ele.

Redação do Momento Espírita.

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