Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O fenômeno mediúnico na Boa Nova

fevereiro/2012 - Por Maria Helena Marcon

O Codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, ao publicar o opúsculo Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas, em 1858, apresentou um vocabulário espírita. São palavras cunhadas por ele ou pelos Espíritos, cento e onze ao todo. Dentre elas, figura o vocábulo Médium, com o conceito de intermediário, pessoa acessível à influência dos Espíritos e mais ou menos dotada da faculdade de receber e transmitir suas comunicações.

E, em O Livro dos Médiuns, no item de número 159, especifica que médium é todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos, uma faculdade inerente ao homem.

Isso nos diz que a mediunidade, desde todos os tempos, é fato inconteste. O homem, através das épocas, sempre manteve estreito contato com os seres espirituais, deles haurindo o que pedia: orientação, consolo, ânimo.

Ao compulsarmos os livros de o Novo Testamento, encantamo-nos com as manifestações mediúnicas ali descritas, ao demais por nos falarem em linguagem poética, que parecem o próprio canto dos céus.

É assim que o Evangelista Lucas registra que  o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, à uma virgem da casa de Davi. O nome da virgem era Maria. Dirigindo-se a ela, disse: Alegra-te, agraciada, o Senhor está contigo. Eis que encontraste graça junto de Deus e assim conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus.

A jovem, pouco mais que adolescente, recorda as promessas ao povo de Israel, acalentadas pelas palavras proféticas, ao longo dos séculos.

Mas, num primeiro momento, se permite invadir por um certo espanto. Afinal, quem era aquele homem que assim se lhe apresentava e dirigia a palavra?Como adentrara sua casa?

Por isso, continua o mensageiro celeste: Não temas, eu sou Gabriel, que sirvo ao Senhor. O filho que de ti nascerá será grande e será chamado Filho do Altíssimo.

Terá Maria visto o Anjo através a faculdade da vidência? Ou terá ele se materializado? Um ou outro configuram fenômenos mediúnicos, sendo o primeiro apresentado em O Livro dos Médiuns, a partir do item 167, como a faculdade de ver os Espíritos. A faculdade consiste na possibilidade, senão permanente, pelo menos, muito frequente de ver qualquer Espírito que se apresente, ainda que seja absolutamente estranho ao vidente.

Se o fenômeno for de materialização, Kardec não chegou a estudá-lo e a ele se refere o Espírito Erasto, no item 98 de O Livro dos Médiuns, nos seguintes termos: Antes que uma existência de homem se tenha esgotado, a explicação destas leis e destes fenômenos vos será revelada e vereis surgir e produzir-se uma variedade nova de médiuns, que agirão num estado cataléptico especial, desde que sejam mediunizados.

Conforme as anotações de Lucas, há um diálogo entre Maria e o mensageiro, o que diz que ela o ouviu, configurando fenômeno de audiência. E é ainda em O Livro dos Médiuns, item 165, que colhemos que os médiuns audientes ouvem a  voz dos Espíritos e podem, assim, travar conversação com os Espíritos.

O encontro nos revela algo sublime e nos fala de nostalgia ao coração. Como apreciaríamos que as vozes celestes tornassem a se manifestar com tal intensidade e com frequência! Como apreciaríamos ter, de novo, as vozes celestes a nos contatarem de forma tão particular! O que perdemos, ao longo dos séculos, que nos distanciaram tanto dessa possibilidade alentadora para as nossas vidas?

Na passagem evangélica que analisamos, de relevância recordar que o Anjo, demonstrando ser um ser Superior, preocupa-se em logo se identificar, ante o temor inicial de Maria. Veja-se que isso não está escrito mas subentendido, pois, como saberia o Evangelista Lucas tratar-se do anjo Gabriel, a não ser que Maria, a mãe de Jesus, lho tivesse dito, eis que os seus apontamentos reproduzem as memórias que ele colheu, em entrevistas com personagens que haviam convivido com Jesus?

E, então, nos reportamos aos ensinos contidos em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXIV, que trata Da identidade dos Espíritos, que nos diz que a bondade e a afabilidade são atributos essenciais dos Espíritos depurados. Que se utilizam de uma linguagem nobre, elevada, tudo dizem com simplicidade e modéstia, sem prolixidade.

Observe-se como em poucas frases, o mensageiro a saúda, informa que ela conceberá, terá um menino, como deverá chamá-lO e, ainda lhe diz a respeito da gravidez de sua prima Elisabet, já no sexto mês da sua gravidez: Vê Elisabet, tua parenta. Ela também concebeu um filho na sua velhice, e este é o sexto mês para a chamada estéril.

E Maria vai ao encontro de sua prima, em região montanhosa, a uma cidade da Judeia. Aqui, a narrativa toma pinceladas de pura emotividade, demonstrando-nos que ambas as mulheres estavam conectadas ao clima espiritual.

Quando Elisabet ouve a saudação de Maria, ao entrar em sua casa, exclama: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre! Pois, assim que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, saltou de alegria o nascituro no meu ventre.

E perguntamos: Como Elisabet soube que Maria estava grávida e quem era o Espírito que habitava aquele corpo em formação? Encontraremos a explicação, novamente, no precioso O Livro dos Médiuns, a partir do item 182, onde lemos a respeito dos médiuns inspirados, uma variedade dos médiuns intuitivos, caracterizada pela espontaneidade, em que a pessoa recebe, pelo pensamento, informações estranhas às suas ideias, que vão desde revelações de grandes coisas até àquilo que tenha relação às mais comuns circunstâncias da vida.

E, quando o Rei chega ao planeta, o anúncio se faz da forma mais extraordinária que se poderia imaginar.

É ainda o Evangelista Lucas que nos conta que, em certa noite havia, na região da Judeia, alguns pastores que pernoitavam no campo, realizando a vigília noturna do seu rebanho.

E se aproximou um anjo e tudo ficou iluminado ao redor deles, pela glória do Senhor, o que os encheu de grande temor.

O anjo, possivelmente o mesmo Gabriel, assim lhes falou: Não tenhais medo! Eis que vos trago boas-novas de grande alegria, que será para todo o povo. Nasceu para vós, hoje, um Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi.

Este é o sinal para vós: encontrareis um recém-nascido enfaixado e deitado numa manjedoura.

Logo, juntou-se ao anjo uma multidão do exército do céu, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas, paz sobre a Terra, boa vontade para com os homens.

Que momento extraordinário! O Senhor das estrelas nasce entre os homens e o Pai Celestial envia um coro celeste para lhe anunciar a chegada.

Novamente, registram-se os fenômenos de audiência, vidência ou materialização luminosa.

E isso tudo nos remete a dizer: Jesus, como temos saudades de você. Como desejamos reprisar momentos evangélicos, como sentimos Sua falta.

E oramos: Venha, Jesus, venha amenizar nossa saudade. Permita-nos ouvir de novo as vozes imortais, embale-nos na Sua paz.

Desejamos estar com você e nos sentimos tão distantes. Venha, Jesus, venha até nós.

Como os discípulos, na entrada da cidade de Emaús, observamos o entardecer das nossas vidas e dizemos: “Permaneça conosco, porque está para anoitecer e o dia já declinou.”

Dê-nos a alegria da Sua presença em nossas vidas.

 

Bibliografia:

1.KARDEC, Allan. Das manifestações físicas espontâneas. In:___. O livro dos médiuns. 66. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2000. pt. 2, cap. V, item 98.

2.______. Dos médiuns. Op. cit. pt. 2, cap. XIV, itens 159, 167 a 171.

3.______. Dos médiuns escreventes ou psicógrafos. Op. cit. cap. XV, itens 182 e 183.

4.______. Da identidade dos Espíritos. Op. cit. cap. XXIV.

5.BÍBLIA, N.T. Lucas. Português. O novo testamento. (Tradução de Haroldo Dutra Dias). Brasília: CEI, 2010. cap. 1 e 2.

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