Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O Espiritismo na atualidade brasileira.

maio/2013 - Por Clayton Reis

Desde o lançamento de O livro dos Espíritos, por Allan Kardec, em 1857, a Doutrina Espírita despertou a curiosidade da sociedade, a rejeição de diversos segmentos religiosos, a intolerância daqueles que não conhecem seus fundamentos e a descrença por parte significativa das pessoas. A proposta do seu instituidor teve como premissa uma nova concepção religiosa alicerçada em princípios filosóficos, científicos e religiosos – uma reação ao dogmatismo das instituições religiosas então vigentes. Os novos horizontes iluminados pelas ideias de René Descartes, Immanuel Kant, Voltaire, pelos avanços da ciência que desmistificou conceitos estratificados pela ausência do saber e, atualmente, adquiriu expressão em face da liberdade de manifestação do pensamento proclamado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU de 1948, possibilitou ao pensamento humano alçar voos na direção do desconhecido.

Sabendo que a morte é um fenômeno natural no processo vital de todos os seres vivos, por que não investigar as consequências do post-mortem e romper com as fronteira do desconhecido? Nessa linha de intelecção Kardec,  notável pedagogo educado na escola de Pestalozzi, passou a investigar, através do método cartesiano, fenômenos paranormais, descobrindo neles a existência de entidades invisíveis inteligentes. Iniciou suas pesquisas utilizando o método Socrático maiêutico. Encontrou respostas precisas, coerentes e inteligentes.

Elaborou O livro dos Espíritos, uma das obras básicas do Espiritismo que alicerçam a doutrina, constituído por 1.019 perguntas seguidas de respostas dos Espíritos. As respostas ditadas pelas entidades invisíveis demonstraram, inelutavelmente, que vivemos em um universo onde coexistem diversas dimensões, muitas delas em planos além da matéria – afinal, não podemos afirmar que tudo que é invisível e imperceptível aos nossos sentidos é inexistente! Nessa lógica obtusa, como explicar as ondas eletromagnéticas, a radioatividade, as ondas ultravioletas e tantas outras não visíveis? Assim, pelo método cartesiano, onde predomina o pensamento fundado na razão, concluiu pela sobrevivência do Espírito-pensante, entidade imaterial que sobrevive após a falência múltipla do sistema corporal e, que se mantém íntegra com seus pensamentos, sentimentos, ideologias e formas de ser presente no corpo humano físico, em dimensão diversa da nossa. A manipulação e o controle dos bilhões de neurônios presentes no cérebro humano – que comandam o corpo físico através de múltiplas formas – é coordenada pelo Espírito. O corpo material é o escafandro em ambiente hostil. O que se encontra em seu interior é o ser humano imaterial, vivo e pensante com sua personalidade individual. Para o neurocientista americano David Eagleman[1], em seu livro O Incógnito – As Vidas Secretas Do Cérebro, o pensamento, porém, ainda era considerado por muitos algo diferente. Não parecia surgir de processos materiais, mas recaía na categoria especial do mental (ou frequentemente, o espiritual)’. 

Nessa linha de ideias, o conceituado médico e professor da Universidade Federal do Paraná Edson Gomes Tristão[2], em livro sob sua coordenação, A dança das Energias – Uma abordagem da energia mental, na introdução proclama: A natureza física do universo é ondulatória e nesse espectro coabita-se com realidades em frequência paralelas, sendo percebidas de forma limitada pelo ser humano, pois este tem a visão do mundo apenas pela estreita janela das radiações luminosas visíveis aos olhos. Na dimensão psíquica tem-se também o espectro ondulatório onde  há identificação pela sintonia mental entre os semelhantes – vivos ou mortos. Quem não procura desvendar ou estudar essa realidade, se encontra desconectado em relação ao ambiente em que vive ou apenas possui olhos para os fenômenos puramente materiais.

O misticismo desse assunto, mantido por milênios em volta do fenômeno da morte, sofreu um impacto porque Kardec teve a ousadia de investigar o investigável e penetrar nos planos de Deus, que somente os doutores da Lei tinham acesso. A ideia de fatos insondáveis sempre foi obra do puro obscurantismo!  Na pós-modernidade, o saber não tem fronteiras e, muito menos regras que estabeleçam limites no processo investigatório.   Não basta apenas refletir sobre as questões formuladas pela Antiguidade: De onde viemos, o que somos e para onde vamos? Kardec aceitou o desafio e procurou justificá-las, apelando para a lógica e a cientificidade presentes nestas questões.

Todavia, o doutrinador já sabia que o Espiritismo, como fato novo e antidogmático, seria rejeitado. Afinal, como provar a existência do Espírito? O mesmo desafio enfrentou Madame Curie, ao provar a existência da radioatividade. Todavia, aos poucos, o fenômeno da materialização foi sendo demonstrado e comprovado através da teoria da relatividade de Einstein e da física quântica, desenvolvida por Heisenberg e Schroedinger, ao comprovar que a matéria pode converter-se em energia e essa em matéria – E = M.C2.

Assim, nessa ótica, pior cego é aquele que tem olhos e não vê ou não quer ver por comodismo ou por dogmatismo. A lógica e a ciência, a serviço do Espiritismo, chamaram a atenção da comunidade científica mundial. Renomados cientistas e pensadores abonaram as teses de Kardec, dentre eles, Léon Denis, Alexandre Aksakof, Camille Flammarion, Arthur Conan Doyle, Victor Hugo, dentre outros.

Para explicar o Espiritismo, o jornalista, pesquisador e professor de sociologia da USP, Reginaldo Prandi[3], lançou em setembro de 2012 o livro Os Mortos e os Vivos, através da Editora Três Estrelas. O autor analisou criticamente o Espiritismo, sem ser espírita, declarando inclusive ser agnóstico. Em sua obra, perpassou por vários períodos históricos, a partir de fenômenos paranormais ocorridos em Hydesville, atual Arcádia, no Estado de Nova York, onde as Irmãs Margareth, Katherine e Leah Fox observaram vários fenômenos, aparentemente desconhecidos, em sua residência. Essas manifestações extra-normais foram posteriormente narradas por Conan Doyle em seu livro. Reginaldo Prandi aponta que: Segundo Kardec, a comunicação com os espíritos dos mortos ou desencarnados, não somente é possível, mas desejável.

É natural que o leigo, que não conhece as obras básicas do Espiritismo – O livro dos Espíritos, O livro dos médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O céu e o inferno e A gênese – confunda a doutrina com o misticismo. Quando o Espiritismo aportou ao Brasil deparou com uma cultura religiosa assimilada das religiões indígenas e africanas. O autor concluiu que há uma diferença cultural e intelectual significativa entre os espíritas e outras religiões. Na página 109, Prandi assinala, elevada escolaridade é a marca dos espíritas kardecistas. Eles pertencem a uma religião que valoriza a escola e o progresso intelectual, que às vezes se confunde com progresso espiritual. Ao mencionar estatísticas, levantou dados que confirmam a segura e extraordinária expansão da Doutrina entre pessoas de segmentos de elevado nível cultural e intelectual da sociedade, pessoas que se encontram dispostas ao estudo, reflexão e investigação dos fenômenos paranormais.

A imensa produção literário-científica é uma constante no Espiritismo. Francisco Candido Xavier – o Chico – editou mais de 450 obras psicografadas, todos  voltadas para o ensinamento dos preceitos ditados pelo Evangelho do Cristo. Divaldo Pereira Franco, já editou mais de 200 obras psicografadas. Atualmente, há uma imensa produção literária de inúmeros autores, que escrevem sobre temas filosóficos, religiosos e científicos. É importante ressaltar que os lucros editoriais dessas obras são destinados para benemerências mantidas por esses doutrinadores. A fraternidade é  lema da Doutrina – fora da caridade não há salvação. Isso porque na caridade exercitamos nossa compreensão a respeito do sofrimento do próximo e, dessa forma, tornamo-nos solidários com as pessoas. E, o amor é a energia universal que expressa a linguagem da comunicação e do entendimento entre os seres inteligentes que habitam o universo.

O Espiritismo não se preocupa com crescimento estatístico, mas com a consciência de cada ser humano. Conhecer-se a si mesmo já era uma prática apregoada por Sócrates e representa a culminância de uma atividade eminentemente integrativa no ambiente social em que vivemos, que pauta por discriminar e qualificar a pessoa pelo ter, sem valorizar o ser. Nessa linha, Kardec, na pergunta 631 de O livro dos Espíritos indagou ao Espírito da Verdade: Onde está a lei de Deus? A resposta foi pronta e imediata: Na consciência! Assim, para a Doutrina Espírita o que conta é o estado consciencial de cada um. No dizer de Leon Tolstoi[4], em seu livro O Reino de Deus está em vós, ele proclama: O único sentido da vida é servir a humanidade, colaborando para o estabelecimento do reino de Deus, o que não poderá ser feito se cada um dos homens não reconhecer e não professar a verdade. E, conclui: A vinda do reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! pois eis que o reino de Deus está em vós (Lucas, 17: 20/21).  Afinal, no mundo da natureza física, que rege os fenômenos presentes em nosso ambiente material, cada qual colhe exatamente o produto da sua semeadura – é a lógica da ciência.

Reginaldo Prandi, na página 111 proclama que, … buscam nos espíritos, através dos médiuns, consolo, cura para as doenças, solução para todo tipo de problema, inspiração, especialmente o que mais nos atormenta – o significado da existência! Assim, o Espiritismo consolida sua doutrina entre as pessoas que resolvem estudar e aprofundar o questionamento das questões inexplicáveis pelas doutrinas dogmáticas, libertando seus adeptos de conceitos paradigmáticos, tornando-os conscientes de seus deveres e direitos, de acordo com a ordem que rege os fenômenos universais.

O espiritismo é um convite à reflexão, ao processo investigativo, ao pensamento analítico e científico onde a pessoa procura descobrir o Deus que se encontra presente na intimidade das pessoas e, dessa forma, cumprir os compromissos que assumimos no plano da Espiritualidade, por ocasião do nosso processo pré-encarnatório. Um procedimento que nos libertará das âncoras que nos mantêm estacionados no processo de crescimento espiritual, durante nossa breve jornada terrena. Por isso, Reginaldo Prandi na página 105 assinala: O comportamento esperado é fundado na razão.

Dessa forma, caberá a cada pessoa, individualmente, descobrir os caminhos que deverá trilhar, mediante a análise das alternativas que a Providência nos disponibilizou, devassando escuridões, procurando estradas seguras, iluminando os trilhos da existência para que possamos chegar ao nosso destino com segurança e a certeza de que fizemos o melhor para conseguir vencer essa etapa no curso da vida.  Finalmente, o importante é ter conhecimento que cada pessoa é livre para fazer suas escolhas, mas será prisioneiro das suas consequências. E, nessa jornada, pautada por acidentes de percurso, será importante assinalar que a ideia do salve-se quem souber é mais importante do que a do salve-se quem puder. Finalmente, aquele que fizer escolha mais acertada, de acordo com a Ordem Universal e em face da sua consciência, será mais feliz no curso da sua vida.

 

Bibliografia:

[1] EAGLEMAN, David, O Incógnito – As vidas Secretas do Cérebro, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2012.

2 TRISTÃO, Edson Gomes, A Dança das Energias – Uma abordagem da Energia Mental, Curitiba, Centro Espírita Luz da Caridade, 2011.

3 PRANDI, Reginaldo, Os Vivos e Os Mortos, São Paulo, Editora Três Estrelas, 2012.

4 TOLSTOI, Liev, O Reino de Deus está em vós, Rio de Janeiro, Editora Best Bolso, 2011.

KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, São Paulo, Gráfica e Editora Edigraf S.A., 1966.

 

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