Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2020 Número 1633 Ano 88

O Espiritismo felicita os que o compreendem

abril/2020

Um sábio transmitia seus conhecimentos aos inúmeros interessados que se reuniam regularmente com ele para estudar.

Com o passar do tempo, o número de aprendizes decaiu, até restar somente um.

Foi quando o mestre disse a esse último que prosseguiria com as aulas, desde que para um número maior de interessados.

O atento aprendiz, desejoso que o ensino continuasse, foi em busca dos que haviam abandonado o estudo, e insistiu que voltassem. Sem sucesso.

Firme em seu propósito, emprestou vários manequins de uma loja de roupas, distribuindo-os na sala de reunião e foi pedir ao sábio que retomasse os ensinos.

Animado, o mestre foi e se deparou com a surpresa. Não se conteve e exclamou: São bonecos! Como você quer que eu ensine bonecos?

Sim, são apenas bonecos – respondeu o dedicado jovem. E acrescentou: São como os outros alunos que não passavam de bonecos inanimados, alheios, distantes, “mortos”, sem interesse. As suas aulas iam muito além do que queriam e podiam acompanhar. Sérias e úteis demais para quem se embriaga com futilidades e se ocupa em nada fazer. Mas, eu estou interessado nelas, apenas eu. Para que eu cresça, não posso depender de quem faz questão de permanecer em seus acanhados limites.

Vencido, convencido e profundamente sensibilizado, o mestre fez dele o aprendiz ideal, vindo se tornar o seu continuador e divulgador da sabedoria vivencial, portador que era das melhores experiências que a persistência, dedicação, zelo, responsabilidade, assertividade, leniência e sentimento de pertencimento ao bem e ao belo, oferecem a quem os adote por intenção e comportamento existencial.

*

18 de abril, data máxima do Espiritismo. Em 1857, em Paris, França, se deu o lançamento de O Livro dos Espíritos, que demarca o nascimento da Doutrina Espírita.

Hoje contamos com um Movimento Espírita pujante, presente em muitos lugares do mundo, com milhares de adeptos.

Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, comenta1: O Espiritismo progrediu principalmente depois que foi sendo mais bem compreendido na sua essência íntima, depois que lhe perceberam o alcance, porque tange a corda mais sensível do homem: a da sua felicidade, mesmo neste mundo. Aí a causa da sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar. Enquanto a sua influência não atinge as massas, ele vai felicitando os que o compreendem. Mesmo os que nenhum fenômeno têm testemunhado, dizem: à parte esses fenômenos, há a filosofia, que me explica o que nenhuma outra me havia explicado. Nela encontro, por meio unicamente do raciocínio, uma solução “racional” para os problemas que no mais alto grau interessam ao meu futuro. Ela me dá calma, firmeza, confiança; livra-me do tormento da incerteza. Ao lado de tudo isto, secundária se torna a questão dos fatos materiais.

Destaque-se que a condição do progresso apontada foi o Espiritismo mais bem compreendido.

Não é preciso muito esforço intelectual para aquilatar a razão do estímulo ao progresso. Basta entender que compreensão vem do latim comprehendere – com, que quer dizer completamente, e prehendere, significando agarrar, tomar, pegar, que completa o sentido por inteiro, que é apreender com a mente.

Para se apreender com a mente, é preciso ir mais a fundo do que simplesmente ler algum texto ou livro, quanto mais uma Doutrina que sintetiza a religião da ciência, como ciência da filosofia, e é, ao mesmo tempo, a filosofia da religião e sua ética não se estratifica na moralidade das convenções transitórias, nem se resume a dogmas atentatórios à razão, no dizer de Vianna de Carvalho2.

Felicita os que o compreendem, os que se dedicam ao estudo de seu conteúdo, com afinco, dedicação, zelo e continuidade.

Por sua vez, o que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá. (…) Quem deseje tornar-se versado numa ciência tem que a estudar metodicamente, começando pelo princípio e acompanhando o encadeamento e o desenvolvimento das ideias, como esclarece Allan Kardec3.

O filósofo, cientista, ensaísta inglês, Francis Bacon, citou: Ler sem refletir é igual a comer sem digerir.

Entendermos a proposta espírita, pelo estudo e reflexão amadurecida, que nos leva ao discernimento, faculta-nos ser um consciente criador de escolhas, o que gera ações que são evolucionárias para nós, alarga a mente, desperta a nossa consciência.

George Bernard Shaw, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês, escreveu: É impossível progredir sem mudança, e aqueles que não mudam suas mentes não podem mudar nada.

Estudado, o Espiritismo revela hoje a antemanhã luminosa da Humanidade do futuro, promove mudanças morais para melhor, felicita desde agora os que o compreendem e o vivenciam.

Com a recomendação do estudo aprofundado de seu conteúdo revelador, desnecessário dizer que devemos nos empenhar em ocupar o lugar de aprendiz ideal das lições de luz, colhidas em O Livro dos Espíritos e nas demais obras espíritas, longe da sintonia com a figura do manequim de nossa metáfora, passivo, estacionário, alheio a tudo e todos.

A melhor homenagem que podemos prestar nessa significativa data é aprofundar o nosso conhecimento de seus ensinos e vivenciarmos suas máximas em todos os momentos de nossas vidas.

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. Conclusão, item V.

2 FRANCO, Divaldo Pereira. Sementeira da fraternidade. Por Diversos Espíritos. Salvador: LEAL, 2008. cap. 18.

3 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. Introdução, item VIII.

 

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