Jornal Mundo Espírita

Junho de 2020 Número 1631 Ano 88

O espírita desnecessário

janeiro/2016 - Por Cezar Braga Said

Há alguns dias uma amiga me enviou uma interessante mensagem cujo conteúdo versava sobre A mãe desnecessária. Referia-se a uma série de atitudes e posturas que uma mãe deveria ter se quisesse ver seus filhos crescendo de modo autônomo, tornando-se pessoas mais independentes e, ao mesmo tempo, maduras e conscientes diante das responsabilidades e exigências da vida.

Desnecessária ela seria na medida em que não criasse dependências dos filhos em relação a si e lhes permitisse viver e sobreviver em sua ausência. Este tipo de mãe teria uma visão de futuro e entenderia que os filhos são criados para o mundo, para a vida.

Não me furtei a fazer uma relação com o comportamento do espírita, com o nosso comportamento, dentro e fora do centro espírita, pensando em como seria um espírita desnecessário, o que lhe caracterizaria, de modo geral, as ações em sua relação consigo e com os companheiros de Ideal.

Sabemos que Allan Kardec nos apresenta no capítulo dezessete, item quatro de O Evangelho Segundo o Espiritismo (Os bons espíritas), a informação de que se reconhece o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas inclinações más.

O mesmo Codificador nos oferece uma singela e muito lúcida classificação dos vários tipos de espíritas no capítulo três, itens 27 e 28 de O Livro dos Médiuns, ressaltando ainda, no item 30, desse mesmo capítulo, que o verdadeiro espírita jamais deixará de fazer o bem. Lenir corações aflitos; consolar, acalmar desesperos, operar  reformas morais. Essa a sua missão. É nisso que encontrará satisfação real.

Assim, pensando em toda esta fundamentação oferecida pelo bom senso de Allan Kardec e desejando seguir a Doutrina dos Espíritos e não a doutrina dos espíritas, que seria uma espécie de subdoutrina, um desvio, pois estaríamos adaptando o Espiritismo às nossas conveniências, ao invés de nos amoldarmos à sua proposta, à proposta de Jesus, podemos, em linhas gerais, dizer que o espírita desnecessário é aquele que:

1. Não coisifica os médiuns e sendo médium ostensivo não se deixa coisificar, isto é, não idolatra, incensa médium algum nem se compraz com elogios rasgados a si mesmo. Sabe o quanto isso é prejudicial, porém, nunca deixa de estimular tais companheiros, pois deseja ser também estimulado.

2. Não faz da mediunidade um fim em si mesma. Sabe que ela é um meio para comprovar a imortalidade e, ao mesmo tempo, uma ferramenta de autoburilamento.

3. Prepara substitutos, pois não se vê insubstituível. Trabalha em equipe e não em euquipe. Sabe que Jesus convocou doze, setenta e depois quinhentos para auxiliá-lO. Kardec era integrante da equipe do Consolador e não dispensou o auxílio de médiuns devotados e, também, aquele oferecido por sua própria esposa.

4. Não se apega a cargos, valoriza os encargos. Aceita e abraça os primeiros, mas reconhece que não são eles que nos elevam os nos fazem estagnar, mas a maneira como lidamos com os mesmos. Quer mais ser útil que estar à frente desse ou daquele setor.

5. Não exige perfeição de si nem de ninguém, mas se esforça para ser uma pessoa melhor a cada dia. E o faz sem ficar fiscalizando a vida alheia, sem ficar corrigindo nos outros o que carece de correção em si próprio.

6. Não reproduz no centro e no movimento espírita comportamentos  característicos dos cenários político-partidários, embora reconheça a necessidade da política como ciência e como prática indispensável ao exercício consciente da cidadania no lar, no centro espírita e na sociedade como um todo.

7. Reconhece o caráter progressivo e progressista do Espiritismo. É aberto para o novo, mas tem cautela com as novas revelações e os modismos passageiros que nos levam a trocar o essencial (estudo) pelo acessório (práticas estranhas).

8. É crítico, autocrítico e aceita a crítica sincera e equilibrada sem se melindrar. O que não é muito fácil nem muito comum, pois somos, invariavelmente, muito suscetíveis a elogios e críticas.

9. Nunca deixa de estudar a Codificação (à sós e em grupo), procurando aplicar em si mesmo o fruto das suas reflexões. Por isso não se isola, passando suas reflexões e conclusões pelo crivo da universalidade dos ensinos, ouvindo e aprendendo com os demais companheiros.

Esse tipo de espírita desnecessário é, na verdade, muito necessário, é o espírita cristão a que alude Kardec nas páginas da Codificação.

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