Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O desbravador do Continente da Alma

março/2013

Ele foi o grande desbravador do Continente da Alma, fazendo com que as sombras da morte batessem em retirada, e vencendo-as com as luzes da imortalidade da alma, trouxe de volta todos os sonhos que o túmulo prometia encerrar, reacendendo as luzes do ideal.

Ao demonstrar a existência e a Imortalidade do Espírito, pela elementar comunicação desses com os homens, e descortinar a lei da reencarnação, qual prólogo majestoso do grande livro da vida, reapresenta-nos Deus, a Inteligência Suprema do Universo que, em Sua criação, brindou-nos com muitas moradas em Sua Casa.

Com uma lógica de bronze, estudou meticulosamente o Espírito, desde sua origem e natureza até as crendices e superstições, concepções e ideias sobre esse princípio essencial da vida inteligente na Terra e em toda parte. Logo depois, mergulhando a mente nas fontes do Pensamento Divino, elucida o conturbado panorama das leis divinas, catalogando todas as obrigações da criatura em relação ao seu Criador, ao próximo e a si mesma, concluindo com uma feliz apresentação sócio-filosófica em torno das esperanças e consolações reservadas aos que se demorarem nas lutas nobilitantes.[1]

E assim fez-se a luz definitiva sobre o Século das Luzes, cujos resultados não tinham instrumentalizado a sociedade para poder se desvencilhar do materialismo e do pessimismo, apesar das teorias grandiosas, entusiasmadas umas, esdrúxulas outras, bem fundamentadas algumas.

Paris era a capital cultural do mundo, mas ali ainda pairava a conduta religiosa que se debatia nos estertores da obstinação medieval, mesmo com os avançados passos do conhecimento existente.

Os prenunciados tempos da volta do Consolador, proposta por Jesus antes de despedir-se dos amigos, tinham chegado, enfim.

Allan Kardec, o ínclito Codificador, apresentava à França e ao mundo, O Livro dos Espíritos, publicado pela sua coragem moral e cultural, em 18 de abril de 1857, em Paris, ensejando a impostergável revisão e reestudo da doutrina de Jesus sob a ótica da Razão e da Ciência, confirmando a indestrutibilidade do Espírito, a sua comunicabilidade com os seres humanos, a reencarnação, e apresentando a ética-moral que ressuma do Seu Evangelho, e que se encontrava mergulhada no abismo da ignorância e dos interesses subalternos.[2]

Vanguardeiro do progresso, pensador e cientista, Allan Kardec não parou seu trabalho e sua produção de luzes para as consciências, apesar das múltiplas armas que se levantaram contra o livro monumental, pois ele estava preparado para a reação. O Livro dos Espíritos veio e ficou. E logo vieram os outros livros que deram forma e conteúdo final à Doutrina Espírita: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese.

Outros trabalhos também foram elaborados por ele, como, por exemplo: a Revista Espírita, com seus doze volumes; O que é o Espiritismo; Viagem espírita em 1862.

São ensinamentos insuperáveis que atravessam os tempos.

Leem-no mentes humildes e cérebros cultivados. Estudam-no corações simples e espíritos lúcidos. Acessível a todas as mentes, responde às questões básicas do pensamento, dirigindo todos para Aquele que é a vida da Vida.

Com ele renasce o Cristianismo simples e puro, incorruptível e nobre dos primeiros tempos, convocando os homens para as fontes eternas da paz e da alegria, transformando-se em roteiro insuperável dos tempos.[3]

Chegava o ano de 1869, as lutas haviam sido árduas e prosseguiam severas. Calúnias, ciladas armadas pela astúcia e a desonestidade.

Nada o envolveu nessas ruinosas teias.

Allan Kardec, portador de caráter indômito e de sentimentos diamantinos, soube enfrentar todas as situações perversas, que sempre surgem pela senda dos missionários, suportando as refregas, sem qualquer desalento ou dúvida.

Como um nauta seguro, contemplou os pélagos vorazes do mar tumultuado, e, na barca da fé raciocinada avançou sem receio da tormenta, ancorando no porto de segurança inabalável.[4]

A Doutrina Espírita encontrava-se concluída, e viera ao mundo, para não mais sair dele.

As tarefas eram muitas e o Codificador, atento e infatigável, desempenhava o ministério com esforço quase sobre-humano.

Vianna de Carvalho, Espírito, pela luminosa mediunidade de Divaldo Franco, nos fala a respeito:

O esforço a que se submeteu, as noites indormidas, as realizações exaustivas combaliram-no, mas ele prosseguiu.

O Espírito Dr. Demeure, seu médico e amigo, chamou-o ao justo repouso, conclamando-o à diminuiçãode tarefas, mas o navegador sentiu que não disporia de muito tempo e não deveria postergar ou deixar de executar o trabalho que lhe fora confiado.

O Espiritismo, por fim, esplendia no solo grandioso da França e chegava a diferentes países do mundo anunciando os Novos Tempos.

Após uma noite de reflexões, quando foi visitado pelo Espírito de Verdade, que lhe comandava o trabalho missionário, despertou eufórico e recompensado interiormente.

Pela manhã, entre 10h e 11h, após atender a um jovem que veio adquirir um exemplar da Revista Espírita, sentiu-se enlevado. Emoções complexas assomaram-lhe do coração ao cérebro, e ele rodopiou nos calcanhares, tombando fulminado no solo…

Era o dia 31 de março de 1869.

O Codificador do Espiritismo havia terminado a tarefa na Terra.

A Codificação ficaria para enfrentar os desafios do futuro.

Começo e fim, as duas datas se confundem: 18 de abril e 31 de março, como a formar a aliança da eterna continuidade, em cujo círculo contínuo não se tem ponto final na vida, mas apenas vírgula ou reticências.

E Vianna conclui:

Evocando o dia da desencarnação do insigne mestre, nós, os Espíritos-espíritas que o amamos, exclamamos comovidos:

– Deus te abençoe, Allan Kardec, incorruptível servidor da Verdade! Vela por nós e ajuda-nos a servir ao Bem, conforme o fizeste, bandeirante da luz![5]



[1] FRANCO, Divaldo P. À luz do Espiritismo. Vianna de Carvalho, 1a.ed. Leal. Cap. 4.

[2] __________. Espiritismo e vida. Vianna de Carvalho, 1a.ed. Leal. Cap. 2.

[3] __________. À luz do Espiritismo. Vianna de Carvalho, 1a.ed. Leal. Cap. 4.

[4] __________. Espiritismo e vida. Vianna de Carvalho, 1a.ed. Leal. Cap. 5.

[5] __________. Idem.

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