Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2018 Número 1609 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

O Brasil e o Prêmio Nobel

agosto/2018 - Por Mary Ishiyama

Possivelmente, poucos de nós saibamos que dois brasileiros receberam, em anos distintos, o Prêmio instituído por Alfred Nobel, em 1895.

O primeiro foi Peter Brian Medawar, que nasceu em 28 de fevereiro de 1915, em Petrópolis, Rio de Janeiro, de mãe britânica, Edith Muriel Dowling e pai brasileiro, Nicholas Medawar.

Com dupla cidadania, brasileira e britânica, aos treze anos foi estudar na Inglaterra, no Marlborough College e graduou-se com louvor em Zoologia na Universidade de Oxford.

As notícias da época relatam que Peter perdeu sua cidadania brasileira por não ter cumprido o serviço militar obrigatório. Seu pai, no Rio de Janeiro, teria apelado até ao Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, sem sucesso.

Atualmente, busca-se resgatar sua memória. A cidade onde nasceu e viveu até os treze anos, criou um memorial e um pequeno museu em sua homenagem.

Peter trabalhou na School of  Pathology com Sir Howard Walter Florey, ganhador do Prêmio Nobel de 1945, por seus estudos sobre a penicilina.

Aos vinte e quatro anos, obteve o primeiro lugar em concurso para a cadeira de Microbiologia em Oxford. Em 1947, foi professor titular da cadeira de Zoologia na Birmingham University. Em 1949, foi eleito membro da Royal Society. Em 1951, foi professor de Zoologia e Anatomia Comparativa na University College of London.

Durante a Segunda Guerra prestou serviço na Unidade de Queimados da Glasgow Royal Infirmary. Havia graves problemas quanto à rejeição dos enxertos de pele e acreditava-se que o problema era a habilidade cirúrgica. Medawar demonstrou que se tratava de um problema biológico, verificando a invasão do enxerto por linfócitos.

Com seus estudos, auxiliou no combate à rejeição de transplantes de órgãos, preparando terreno para a descoberta de drogas imunossupressoras.

Em 1960, junto com Frank Burnet, ganhou o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, exatamente por estabelecer as bases da tolerância imunológica para a criação do soro antilinfocitário, que modificou decisivamente a história da rejeição pós-transplante de órgãos.

Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi fundador e primeiro presidente da Sociedade Internacional de Transplantes; chefe do National Institute for Medical Research, no Reino Unido. Recebeu, pela Unesco, o Prêmio Kalinga pela popularização da ciência.

A Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro criou a Medalha Peter Medawar em sua homenagem e para perpetuar seu nome nos meios acadêmicos.

Possui vários livros não traduzidos para nosso idioma: The Uniqueness of the Individual (1957), The Future of Man (1960), The Art of the Soluble (1967), The Hope of Progress (1972).

Em 1969, sofreu um Acidente Vascular Cerebral, do qual não se recuperou de todo. Escreveu uma autobiografia que, em tradução livre seria Memórias de um Rabanete Pensante – Memoir of a Thinking Radish, mostrando a dificuldade de uma mente brilhante em um corpo que já não correspondia a ela.

Desencarnou em Londres em 1987, aos setenta e dois anos.

O segundo laureado foi o comandante Edmundo Manzini de Souza, residente em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Ele liderou o 1º Grupo de Combate do 3º Pelotão, Pelotão Paraná, da 7ª Companhia de Fuzileiros do 13º Contingente do Batalhão Suez, os Boinas Azuis, no Oriente Médio.

Devido aos conflitos envolvendo o Canal de Suez, a Organização das Nações Unidas – ONU criou a Força de Emergência, integrada por dez países, entre eles, o Brasil. A função era pacificar a região, e evitar novos confrontos entre os envolvidos.

Edmundo e seu pelotão integraram a tarefa entre 1963 e 1964. Relembra ele: Eu tinha vinte e seis anos, era sargento, e comandava vinte e dois  homens, no deserto.

Todo dia tinha tempestade de areia. Sob o sol, a temperatura era de 52 graus. À noite, caía para 4 graus. Nosso acampamento, com barracas de lona, ficava no deserto do Sinai, na Faixa de Gaza. A valeta tinha que ser limpa todo dia, para marcar a divisa. Era um trabalho insano. A tempestade cobria de areia, e tínhamos que cavar de novo. A nossa missão era evitar o confronto entre judeus e árabes. Os grupos nômades, como o  Al Fatah e o Fedayin, estavam armados para pegar judeus. Era complicado.

Recorda também que, pegos de surpresa por forte tempestade de areia, certa vez, ele e seu pelotão caminharam às cegas pelo deserto e invadiram, sem querer, um acampamento da Al Fatah. Ficaram detidos toda a noite. Quando o dia clareou, os nômades os revistaram, conferiram a nacionalidade, na etiqueta dos uniformes, e os liberaram.

Recordando toda a dificuldade da época, ele diz que somente os bravos vencem a solidão do deserto.

Em 1988, o Prêmio Nobel da Paz foi destinado às Forças de Paz da ONU. O Batalhão Suez, dos brasileiros que atuaram durante dez anos (1957-1967) na Faixa de Gaza, estava incluído.

Edmundo guarda sua medalha e seu diploma de Nobel da Paz junto com outras medalhas, como a do Exército Brasileiro e do Pacificador.

 

Referências:

1.YOUNES-IBRAHIM, Maurício. Homenagem da Nefrologia Brasileira a Peter Brian Medawar. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto, Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, jul./set. 2014.

2.www.batalhaosuez.com.br/13contingenteSgtEdmundoManziniSouzaPremioNobel.htm

3.www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/06/mais!/24.html

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