Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O arquivo e as fichas

agosto/2016 - Por Rogério Coelho

Conhece bem pouco os homens quem imagine que uma causa qualquer os possa transformar como que por encanto.  Allan Kardec [1]

A evolução não dá saltos e a sedimentação do bem é cediça naqueles que sempre estiveram nas leiras dos equívocos.

Um Espírito que ainda se encontra em aflitiva situação de atraso espiritual, revoltado com a culpa que, normalmente, os encarnados debitam aos desencarnados pelas defecções e equívocos que cometem, transformando-os em verdadeiros bodes expiatórios, em que pese o disposto na pergunta nº 459, de O Livro dos Espíritos, que aborda o tema da interação parapsíquica entre o Mundo Maior e o mundo corporal, enviou a seguinte mensagem psicografada, no dia 22 de dezembro de 2000, na Casa Espírita que frequentamos: (…) você acha que uma pessoa que sempre fez o mal, vai mudar de repente e passar a fazer só o bem? Ora, a fronteira que liga as nossas encarnações umas às outras é muito próxima, é tênue como as cores do arco-íris: elas se misturam e nunca se sabe onde uma cor começa e onde a outra termina. Mas tudo está nos arquivos localizados nos subterrâneos do subconsciente, no “lado sombra”, como diriam os entendidos em psicologia profunda. Basta, pois, abrir a gaveta, puxar a ficha e começar a trabalhar naquilo que tem que ser mudado.

O grave que acontece é que, não poucas vezes, nós não queremos que essa mudança ocorra, porque desconhecemos o que pode vir ao nosso encontro.  A acomodação, a indiferença e a negligência tornam-se, então, as opções mais convenientes, visto não ser fácil sair de nossa zona de conforto.

Por isso é que nos ocorre, no dia a dia, esses altos e baixos nas nossas atitudes, no nosso humor, no nosso sentimento de uns para com os outros, na nossa impaciência…

Não podemos olvidar que nem tudo que nos acontece é por culpa dos “amigos e inimigos” espirituais.

(…) Se eu sou o que sou, é porque eu quero assim: para o bem ou para o mal, para me melhorar ou para me acomodar, por prazer, por simbiose, por comodismo, por covardia, por sintonia, por necessidade, por compreensão ou por incompreensão…

Não se esqueça: impedido de ir para cima ou indo para baixo, não nos culpe.

Allan Kardec, sempre atento a todas as questões envolvidas nos trâmites evolutivos, formulou a seguinte pergunta aos Maiores da Espiritualidade1:Não será de temer que o Espiritismo não consiga triunfar da negligência dos homens e do seu apego às coisas materiais?

– Resposta: Conhece bem pouco os homens quem imagine que uma causa qualquer os possa transformar como que por encanto. As ideias só pouco a pouco se modificam, conforme os indivíduos, e preciso é que algumas gerações passem, para que se apaguem totalmente os vestígios dos velhos hábitos. A transformação, pois, somente com o tempo, gradual e progressivamente, se pode operar. Para cada geração uma parte do véu se dissipa. O Espiritismo vem rasgá-lo de alto a baixo. Entretanto, conseguisse ele unicamente corrigir num homem um único defeito que fosse e já o haveria forçado a dar um passo. Ter-lhe-ia feito, só com isso, grande bem, pois esse primeiro passo lhe facilitará os outros.

Pela notável psicografia de Divaldo Pereira Franco, aconselha Joanna de Ângelis[2]: Elaborado um plano de bem proceder, se tropeças e te comprometes, não transfiras a responsabilidade para os Espíritos maus que te impulsionaram ao erro. Assume os efeitos do ato infeliz e, mesmo que tenhas tombado em uma cilada, aceita que assim ocorreu em razão da tua sintonia com esses adversários do Bem. 

Retornando aos atos viciosos, quando encetavas atividades dignificadoras, retempera as forças e volta ao tentame sadio.

Não te entristeçam as defecções morais.

Levanta-te do erro quantas vezes se te façam necessárias, e não desistas de trabalhar o mundo íntimo, nele instalando as balizas de luz que definirão as tuas fronteiras espirituais.

Lutador que desiste, não se torna, sequer, candidato, por comodidade e covardia.

Sê tu quem reconheça as próprias debilidades e se esforça por vencê-las, insistindo e agindo sem cessar, até que o bem se torne atitude e estado comuns, naturais, em tua existência, que não mais sofrerá defecções morais.

Com sabedoria conquistada a duras penas Joana Angélica completa[3]: Muitos encontram luta amarga onde procuram as doçuras da paz, porque a serenidade legítima provém das obrigações bem cumpridas no quadro de trabalhos que a realidade nos designa.

Conflitos e atritos vibram em toda parte, porque, em todos os recantos, o Espírito suspira por ascensão.

Aceitemos os desafios do mundo sem temer o pecado, as trevas, o lodo, a morte.

Como sustentar a beleza e a ternura do lume, se não desculparmos a dureza e a fealdade do carvão?

A vanguarda do trabalho é uma arena de que nos não cabe fugir. Defendamos em suas linhas a nossa posição de serviço, amando e agindo, imaginando e elaborando para o bem, e o Senhor, por certo, nos fará a Divina Mercê.

Bibliografia:

1 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006. q. 800.

2 – FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de harmonia. Salvador: LEAL, 1992. cap. 8.

3 – XAVIER, Francisco Cândido. Falando à terra. 2. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1974. cap. Paz e Luta.



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