Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O aprendiz da Doutrina Espírita ao longo do tempo

agosto/2010 - Por Coordenadoria de Estudos da Doutrina Espírita

Nesta ocasião, gostaríamos de trazer, para a reflexão de quem trabalha com grupos de estudo, uma abordagem a respeito das mudanças observadas nos aprendizes da Doutrina Espírita ao longo do tempo.

Às vezes não nos damos conta, entretanto, nossas necessidades, assim como as dos participantes, são mutáveis.

Assim que nos integramos a uma Instituição Espírita, o que ocorre novamente, ainda que com menor intensidade, a cada vez em que passamos a um novo grupo, temos o que se pode chamar “necessidades de inclusão”.

A inclusão é o nome dado à primeira etapa que vivenciamos em qualquer grupo do qual venhamos a fazer parte. O primeiro autor a sistematizar o assunto foi Will Schutz, em um texto de 1958, cujo título pode ser traduzido como “O submundo do grupo”.

Nesse texto, o autor destaca os fatores de bastidor (por isso o termo submundo) que podem ser tão importantes, ou até mais importantes que as questões visíveis dentro do grupo.

Observou Schutz, e creio que isso possa ser facilmente constatado em uma rápida reflexão autocrítica, que a primeira questão que um indivíduo precisa responder ao entrar em um grupo é: Eu quero fazer parte deste grupo?

Para responder a esta questão, mesmo que não percebamos (no bastidor, no submundo), utilizamos diferentes questões subsidiárias, das quais destacaríamos: Os objetivos do grupo têm a ver com as minhas necessidades? A maneira como as pessoas se relacionam e interpretam acontecimentos importantes da vida têm a ver com a minha? A forma de comunicação de que o grupo se utiliza é a mesma que eu habitualmente emprego? Eu consigo me identificar, me sentir parte deste grupo? Dá-me orgulho ser um membro deste grupo? Eu terei espaço para fazer o que acho correto? O grupo se interessa por mim?

Para alguns será uma, ou umas poucas, a pergunta que definirá se eles seguirão com este grupo e as pessoas podem dar diferentes pesos a cada uma das questões, mas o que é certo é que, se a maioria das respostas for não, não se seguirá com o grupo.

Do ponto de vista da necessidade de conhecimento, a pessoa que está na fase de inclusão precisa ter sanadas as suas dúvidas básicas; precisa expor o que acha correto e ouvir a opinião dos outros a respeito de suas ideias e pensamentos. Outra necessidade premente nesta fase é a de se familiarizar com os termos, expressões e construções de pensamento para aprender a decodificar as informações que lhe sejam passadas.

A partir do momento que a pessoa decida que quer fazer parte do grupo, que quer estar dentro, ela quererá desempenhar um determinado papel dentro desse grupo, precisará de orientações sobre o que quer fazer e desejará fluir em um determinado ritmo. Surgem então as “necessidades estruturais e de influência”.

Alguns vão preferir uma conduta de dominação, autônoma e autodirigida; outros gostarão de ser conduzidos, de se submeterem a uma autoridade. Há ainda os que gostam de compartilhar as descobertas, trabalhando juntos na construção do conhecimento.

Do ponto de vista da relação com o conhecimento, nesta fase, o indivíduo mostrará a necessidade de conhecer as bases gerais, os princípios. Precisa sistematizar seu conhecimento, adquirir informações que permitam a ele mesmo raciocinar sobre situações novas.

Vencida essa etapa, o indivíduo entrará em uma fase em que precisará de um clima que favoreça a intimidade e a cooperação, a abertura e proximidade. Ficam evidentes, aqui, as “necessidades de abertura”.

A respeito dos conhecimentos, este é o momento de refletir sobre o que sabemos; de refletir sobre quais são as nossas lacunas; o que nos falta conhecer; se nossos comportamentos são congruentes com as crenças que esposamos e como estamos na execução prática das ideias que já estão nutridas.

É bastante comum que se faça a passagem pelas diferentes etapas várias vezes, formando ciclos em uma espiral, quando, a partir de cada volta, chega-se a um nível diferente de profundidade.

Após a conquista de certa dose de abertura, o indivíduo escolherá se quer aprofundar seu processo de inclusão, sua identificação e afiliação com o grupo, dando margem a novas questões e patamares de influência e abertura.

Os indivíduos também demonstrarão diferentes ritmos para passar pelos diferentes estágios, mas parece razoável dizer que, no que tange ao conhecimento, a fase de dominar a linguagem e apropriar-se dos princípios básicos é finita, enquanto as possibilidades de reflexões e aprofundamentos nunca terminam.

Estas ideias apresentam, sumariamente, alguns dos princípios de uma ciência conhecida como dinâmica dos grupos.

A partir da exposição destas ideias, convidamos os que trabalham com grupos de estudo a refletir sobre em que patamar se encontram os participantes de seu grupo, e quais devem ser as atitudes que o coordenador deve ter para facilitar o processo de cada um.

Na próxima edição, comentaremos algumas atitudes e características estruturais que podem ser facilitadoras ou dificultar o desenvolvimento dos indivíduos no grupo.

Assine a versão impressa
Leia também