Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89
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O anjo do campo de batalha

março/2021 - Por Mary Ishiyama

Clarissa Harlowe Barton, chamada Clara, foi uma dessas perseverantes criaturas que precisou lutar muito contra a má vontade de pessoas menos sensíveis ou indiferentes para beneficiar o próximo.

Nascida em 25 de dezembro de 1821, em Oxford, Massachusetts, era a mais nova de quatro irmãos. Seu pai, o capitão Stephen Barton, foi seu grande inspirador no patriotismo e no serviço humanitário.

Com apenas 11 anos de idade cuidou de seu irmão David, ferido gravemente em uma queda do telhado do celeiro. Foram dois anos de intensos cuidados, mesmo depois que os médicos o abandonaram por não acreditar se pudesse restabelecer. David se recuperou completamente.

Tímida, Clara teve problemas inicialmente na escola, chegando a entrar em depressão. No entanto, ao saber da morte de seu tio, deixando esposa e quatro filhos em uma casa em ruínas, ela arrecadou dinheiro, materiais e ajudou na reconstrução da casa.

Em 1838, formou-se no magistério. Lecionando por 12 anos, em escolas no Canadá e na Geórgia, demonstrou sua indignação com a diferença salarial entre homens e mulheres:  Posso estar disposta a ensinar de graça, mas se for pago, nunca farei o trabalho de um homem por menos do que o salário de um homem.

Em 1852, abriu a primeira escola mista em Bordentown, Nova Jersey. O município, vendo o sucesso da escola, construiu um grande prédio, assumiu os seiscentos alunos e substituiu Clara, na direção, por um homem, com a desculpa de que uma mulher não teria competência para administrar tão grande colégio.

Triste, ela abandonou o magistério e foi trabalhar no Escritório de Patentes, na capital americana. Foi uma das primeiras mulheres a trabalhar para o governo federal. Padeceu o assédio de colegas que não admitiam mulheres ganhando como eles. Com a transferência de sua chefia, que a apoiava, ela foi rebaixada a copista, ganhando apenas dez centavos a cada cem palavras copiadas.

Em 1857, o presidente eleito, James Buchanan, demitiu os partidários de seu oponente, incluindo Clara, que somente voltou ao Escritório de Patentes, quando Abraham Lincoln assumiu o cargo, em 1861. Mesmo assim, não conseguiu o cargo ou salário que igualasse ao que já desfrutara.

Em abril de 1861, a Batalha de Fort Sumter marcou o início da Guerra Civil Americana.

Num movimento de tropas, a 6ª Infantaria de Massachusetts, em uma troca de trens, em Baltimore, foi atacada por uma multidão de simpatizantes confederados, com um saldo de doze mortos e vinte e quatro soldados feridos.

A notícia chegou na estação onde Clara e outras mulheres aguardavam o trem. Quando os sobreviventes chegaram, ela descobriu que eram amigos, colegas de escola e alunos de Massachusetts. Diligenciou o envio de cada um para local de tratamento.

Nos dias seguintes, mais e mais soldados chegaram a Washington. Clara notou que, além das tropas não terem onde acampar, estavam quase sem suprimentos. Começou uma grande coleta, em sua vizinhança, depois com amigos em Massachusetts e Nova Jersey. Logo, tinha três depósitos cheios de suprimentos.

Foi preciso persistência, para conseguir autorização para entregá-los às tropas nos hospitais de campanha montados fora da Batalha de Cedar Mountain. Ela chegou ao acampamento e se pôs a trabalhar: cozinhava, limpava e medicava feridas, auxiliava nas cirurgias. Ao longo da guerra, Clara continuou a coletar suprimentos, visitar hospitais de campanha, auxiliar pacientes. Foi aos campos de batalha.

Finalizando a guerra, ela criou o Escritório dos Soldados Desaparecidos. Com uma pequena equipe, recebeu mais de 63.000 pedidos, conseguindo localizar mais de 22.000 homens, alguns ainda vivos.

Louve-se a coragem do soldado Dorence Atwater, encarregado de sepultar os mortos e manter uma lista de seus nomes e locais das sepulturas, para o governo confederado. Secretamente, manteve uma lista para si mesmo. Quando a guerra acabou, ele procurou Barton e publicaram a lista, nomeando 13.000 homens que morreram em Andersonville, bem como seus túmulos.

Em 1868, exausta, ela vai para a Europa descansar, oportunidade em que conhece representantes da Cruz Vermelha Internacional. Nesse período, Clara prestou assistência humanitária e de enfermagem durante a Guerra Franco-Prussiana.

De volta à América, fundou a Cruz Vermelha Americana, responsável, inclusive, pelo socorro nos desastres naturais. Ela esteve presente no Dilúvio de Johnstown, ocorrido em 1889, com o rompimento da barragem de South Fork, no Lago Conemaugh. Duas mil, duzentas e nove pessoas morreram, incluindo noventa e nove famílias inteiras.

Ajudou no Furacão Galveston, na Armênia e em Cuba. Foi presidente da Cruz Vermelha Americana até 1904, quando, aos 82 anos se aposentou e fundou a National First Aid Association of America.

Publicou uma autobiografia, em 1907, intitulada The story of my childhood (A história de minha infância).

Aos 90 anos, Clara Barton morreu em sua casa em Glen Echo, Maryland, em 1912.

Sem sombra de dúvida Clara Barton foi uma mulher excepcional: Não sei quanto tempo se passou desde que meu ouvido ficou livre do rufar de um tambor. É a música com a qual durmo, e eu adoro isso. Devo permanecer aqui enquanto alguém permanece e farei o que vier às minhas mãos. Posso ser compelida a enfrentar o perigo, mas não o tempo, e enquanto nossos soldados podem ficar de pé e lutar, posso ficar de pé, alimentar e cuidar deles.

 

Referências:

1 https://www.clarabartonmuseum.org/firstaid/

2 https://www.nps.gov/clba/learn/kidsyouth/index.htm

3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_Barton

 

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