Jornal Mundo Espírita

Junho de 2017 Número 1595 Ano 85

O anjo de Hamburgo

julho/2014 - Por Maria Helena Marcon

Ela é paranaense, nascida em Rio Negro, em 5 de dezembro de 1908, filha de pai português e mãe alemã. Criança ainda, foi morar com os pais em São Paulo. Aos vinte e dois anos, casou-se com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess. O casamento durou somente cinco anos. Separando-se, e com o filho Eduardo, ela foi morar na Alemanha, com uma irmã de sua mãe.

Foi ali, longe de sua pátria, que haveria de revelar um dos traços mais extraordinários de sua personalidade: o amor ao próximo.

Poucos lhe conhecem a saga de heroína, dada sua discrição.  Mas seu nome está escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto, em Israel, junto a uma relação de dezoito diplomatas que ajudaram a salvar judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é a única mulher. Também homenageada no Museu do Holocausto de Washington, Estados Unidos.

Poliglota, dominando o português, inglês, francês e alemão, ela conseguiu uma nomeação no Consulado Brasileiro, em Hamburgo. No ano de 1938, entrou em vigor, no Brasil, a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país.

Aracy, com risco da própria vida, resolveu ignorar a Circular e preparava vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Ao despachar com o Cônsul Geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas, tomando o cuidado de não apor a letra J, nos vistos, a fim de não identificar que se tratava de judeu.

Por sua vez, um outro brasileiro, João Guimarães Rosa, que, como menino pobre, viu na carreira diplomática uma maneira de conhecer o mundo, prestou concurso para o Itamaraty, em 1934, e foi ser cônsul adjunto na Alemanha.

Dessa forma, ele conheceu Aracy, apaixonaram-se e viveram juntos por trinta anos, até a morte dele, em 1967. Quando ele soube do que ela fazia, apoiou sua atitude, com o que Aracy ainda mais intensificou esse trabalho, livrando muitos judeus da prisão e da morte. Ajudou a escondê-los, a lhes levar alimentos e a transportá-los, secretamente. Alguns ela salvou levando-os escondidos no porta-malas do seu Opel Olympia azul até a fronteira da Dinamarca. Refugiados relataram que, ao escapar de navio, eram escoltados a bordo pela funcionária Aracy, que ainda levava joias e dinheiro dos viajantes em sua bolsa, para evitar que os bens fossem confiscados pelos nazistas.

O casal viajou pela Alemanha, comparecia à Ópera, conhecendo uma das culturas mais ricas do mundo. Ele, escritor meticuloso, anotava tudo que via e todas as ideias que lhe vinham à mente. Por isso mesmo, ante a sombra de uma Alemanha nazista, era visto com desconfiança pelo governo alemão. Em ficha encontrada por jornalistas brasileiras, durante pesquisa para um documentário da vida do grande escritor, estava anotado: É um admirador da cultura alemã, mas certamente não é um dos nossos.

Em 1942, o Brasil rompeu relações com a Alemanha. Aracy e João, junto com todo o corpo diplomático brasileiro na Alemanha, ficaram detidos três meses, em um hotel em Baden-Baden.

Chegamos a passar fome, lembrou ela, entre lágrimas, certa vez, em documentário dirigido pelo jornalista Pedro Bial. Finalmente, voltaram para o Brasil e fixaram moradia no Rio de Janeiro, passando a conviver com a nata da intelectualidade brasileira e internacional. Moravam num lugar estratégico: bem em frente ao Arpoador, com vista para o Forte de Copacabana.

Fizeram viagens pela Europa, onde Guimarães Rosa colheu mais material para seus livros. Aracy, discreta, ao fundo, era sua musa inspiradora e companheira: lia os originais, opinava e datilografava.

Com o tempo, foi se tornando cada vez mais bonita. Com certeza, a beleza de sua alma extravasava pelo seu exterior. Era de uma beleza rara, como observaram conhecidos e amigos seus.

O grande escritor lhe dedicou uma de suas obras: Grande Sertão: Veredas, considerada sua obra-prima, publicada em 1956.

Escreveu: A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro. E a ela destinou os direitos autorais de forma integral.

Aracy, uma mulher extraordinária: na beleza, na coragem, na ousadia e na solidariedade. Mesmo depois da morte do marido, ela continuou militante.

Em 1968, na vigência do AI-5, em nosso país, soube de um compositor procurado pela ditadura militar. Ela deu abrigo, durante dois meses, a Geraldo Vandré, que conseguiu, sem ser molestado, fugir para país vizinho. Ela o escondeu no escritório de seu apartamento. Aquele mesmo local onde seu marido escrevera tantas histórias.

Durante todos aqueles dias, o abrigado observava, da janela, a movimentação frenética do Exército, no quartel do Forte de Copacabana.

Aracy arriscou-se novamente. E tudo fez, sem nunca se vangloriar. Numa cerimônia da comunidade judaica, em que foi homenageada, um rapaz lhe perguntou por que ela se dedicara aos judeus, mesmo não sendo judia. Sua resposta foi sintética e objetiva: Simplesmente porque todos somos irmãos.

Os que são bons não sabem que o são. Praticar o bem, portanto, lhes é natural, espontâneo.

Aracy veio a padecer do Mal de Alzheimer, nos últimos anos de sua vida e ela, que sempre fora discreta, não comentando seus grandes feitos, os teve apagados da própria memória. Contudo, os que lhe receberam a generosidade da própria vida jamais esqueceram, nem esquecerão o Anjo de Hamburgo.

Morreu no dia 3 de março de 2011 e foi cremada no Horto da Paz. Seu Espírito, com certeza, foi unir-se ao amado e deve ter sido recebido por muitos amigos espirituais, conquistados nas ações beneméritas que empreendeu em sua vida, que transpôs um século.

Bibliografia:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,aos-102-morre-aracy-guimaraes-rosa,687205

http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=722&p=0

http://www.terra.com.br/istoe-temp/edicoes/1994/artigo70598-1.htm

 

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