Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

Noventa minutos no paraíso

novembro/2019 - Por Maria Helena Marcon

Pode um pastor de almas perder a fé, sendo ele o condutor de outras almas?

Não é ele quem ocupa a tribuna e prega a respeito à vida que não perece, a Deus Pai que a tudo provê?

Não é ele quem recomenda calma na adversidade porque tudo na Terra é passageiro?

Esse é o drama do pastor Don Piper. A caminho do Texas, para uma conferência, ele sofre um grave acidente de carro. Os paramédicos que o atendem não registram nenhum sinal de vida. No entanto, outro pastor, passando pela mesma estrada, desce de seu carro e se dispõe a ir orar por ele.

Interessante a postura desse religioso. Apesar do policial lhe dizer que melhor faria ele se atendesse a outra família envolvida no acidente que, embora sem ferimentos, se mostra um tanto assustada, ele insiste em orar para o considerado morto.

Sua preocupação é para com a alma daquele ser. Ao estudarmos a respeito da perturbação do Espírito após a morte, aprendemos, na Doutrina Espírita que, por vezes, mortes violentas causam ao ser espiritual certo desconforto, alguma confusão mais demorada, pela surpresa do ato. Especialmente porque, em sua mente, tinha planos para logo mais: chegar em casa, abraçar a esposa, os filhos, concluir a longa viagem.1

O carro parece uma massa, tão retorcido se encontra e o corpo está no meio dele, de forma que essa alma generosa sequer pode tocá-lo. Contudo, ergue uma prece fervorosa, depois se põe a cantar. Para sua surpresa, a voz débil do acidentado se une à sua no cântico. Os paramédicos são acionados, de forma imediata.

Recordando as passagens evangélicas nas quais Jesus trata dos casos de letargia, conclamando o Espírito a que reassuma o comando do corpo, cogitamos se, eventualmente, através dessa sua ação, esse pastor não terá acionado energias conclamativas ao Espírito um tanto aturdido para que retome o comando do corpo. Estaria, eventualmente, prestes à desencarnação e terá, contribuído, com seu próprio fluido vital?

Embora não o tendo sequer tocado, sabemos da força do pensamento, do poder da oração e de como funcionam os fluidos, nessas circunstâncias. O desejo de auxiliar, de confortar é o que promove a irradiação dos fluidos ao necessitado.

O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro.  Aquele que o tiver em maior porção pode dá-lo a um que o tenha de menos e em certos casos prolongar a vida prestes a extinguir-se.2

Resgatado, Don Piper é levado ao hospital e passa por dolorosa recuperação que envolveu treze meses no hospital, trinta e quatro cirurgias e a quase perda de uma perna.

As dores terríveis, os meses de internamento hospitalar o levaram a questionar a existência de Deus. Mais de uma vez indaga o porquê de tanto sofrimento e por que, afinal, Deus não lhe permitira morrer.

Segundo o livro que publicou, em 2004, relatando sua experiência, Don Piper afirma ter visitado o paraíso, durante aquele período em que foi declarado morto: noventa minutos.

O que se depreende é que ele teve uma Experiência de Quase Morte – EQM.* O que realmente ocorreu não se sabe: não terão os paramédicos verificado devidamente seus sinais vitais, dadas as condições horríveis em que se encontrava o carro e o acidentado? Veja-se que o acesso ao corpo não foi possível ao pastor que foi orar. Sequer pôde segurar-lhe a mão, conforme desejava, ao fazer suas preces. Como teria sido possível aos paramédicos?

Enfim, Don Piper diz ter visitado uma região paradisíaca, ter sido recepcionado por muitas pessoas. E, conforme suas lembranças, teve até um encontro com Deus.

Por isso, quando as dores o atormentavam para além do imaginável, ele clamava contra a Divindade, que o fizera retornar para o corpo, considerando que onde estivera, não havia dor alguma. E ele podia ter permanecido lá.

Em certos momentos, sua revolta é direcionada contra a esposa, culpando-a por permitir que o tratassem da forma que vinha ocorrendo, ou seja, submetido a cirurgias e mais cirurgias, sob um acúmulo de dores inomináveis.

Desconhecedor da Lei de Causa e Efeito, conforme sabiamente nos ilustra a Doutrina Espírita, ele dirá mais tarde que Deus o fez experimentar tanto sofrimento para que adquirisse condições de melhor orientar ao seu rebanho.

Mas, o registro de vários momentos de revolta, no período da sua convalescença nos diz que somente teremos certeza da fé de que somos portadores quando precisarmos acioná-la.

A fé sincera e verdadeira é sempre calma; faculta a paciência que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de apoio na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de chegar ao objetivo visado. (…) A calma na luta é sempre um sinal de força e de confiança; a violência, ao contrário, denota fraqueza e dúvida de si mesmo.3

O livro e o filme receberam muitas críticas. Por ter sido, durante anos, membro da tradicional Convenção Batista do Sul, ao relatar a sua experiência, o pastor foi rejeitado, o que o fez sair do pastorado e da Instituição, passando a viajar, contando seu testemunho em todas as igrejas que o desejam ouvir.

Seja como for, o filme traz relevantes lições, dentre elas, a da solidariedade de toda a comunidade religiosa a que pertencia. Visitas ao hospital, noites de orações durante sua recuperação, revezamento junto ao seu leito, num processo contínuo de atendimento, por meses e meses, quando ele vai para casa, pois que a esposa precisa atender aos seus compromissos profissionais, a fim de garantir o sustento do lar, pagar as elevadas despesas médicas e hospitalares, além de atender aos filhos pequenos.

Por isso, a cada vez que ele saía da modorra em que o deixavam os fortes medicamentos ou que, no transcorrer do tempo, foi ficando desperto por mais horas, descobria alguém ao seu lado: a senhora tricotando, alguém lendo, ou fazendo coisa nenhuma. Até mesmo, vencido pelo cansaço, alguém ressonando no sofá. De toda forma, ali presente, pronto para atender ao seu simples chamado.

Isso nos remete a nos indagarmos como agimos quando os problemas acontecem aos companheiros de lides voluntárias, ou aos nossos vizinhos, conhecidos, colegas de trabalho.

Num primeiro momento, é natural que todos acorramos e nos prontifiquemos a auxiliar nessa ou naquela situação. No entanto, quando os meses se somam aos meses, quantos de nós permanecemos a postos, no sentido de verdadeiramente oferecer algumas horas por dia, ou por semana, a um doente, um acidentado, alguém que ficou só e necessita de cuidados especiais?

Exercitar a solidariedade é imprescindível: essa ação de ser bondoso com o próximo, ajudar o outro, com generosidade, sem nada aguardar em troca.

Um detalhe surpreendente, ainda, foi que, recuperado, ao se encontrar com a alma generosa do samaritano que por ele orara, lá na estrada, ele afirma que foi gratificante, naquele momento, sentir o aperto da sua mão. Fê-lo sentir-se amparado, seguro.

Contudo, aquele lhe afirma que não lhe estendera a mão, por absolutamente impossível alcançá-lo em meio ao carro retorcido. Não havia como.

Fica a indagação: que mão apertou a do acidentado? E mais uma vez migramos para o atendimento espiritual. A mão generosa terá sido de um amor desencarnado, de seu anjo de guarda, de um Espírito atencioso, disposto ali para o atender?

Isso, somente a Divindade tem conhecimento. Mas o que nos fica como certeza é da Providência Divina, que sempre nos alcança.

Essa Providência que é a solicitude de Deus para com as suas criaturas. Ele está em toda parte, tudo vê, a tudo preside, mesmo às coisas mais mínimas. É nisto que consiste a ação providencial.4

 

* O termo  refere-se a um conjunto de visões e sensações relatado por indivíduos declarados clinicamente mortos ou muito perto da morte (como experiência fora do corpo, desdobramento espiritual, emancipação da alma, sensação de serenidade, experiência do túnel). O termo foi proposto pelo psicólogo e epistemólogo francês Victor Egger, em 1896.

O interesse popular pelas EQMs se iniciou especialmente graças ao best seller do  psiquiatra e parapsicólogo norte-americano Raymond Moody, em 1975 (ed. Nórdica).

Um dos mais antigos registros de EQM se encontra na obra A República (livro X), de Platão.

Referências:

1.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2,  cap. III, q. 163 e ss.

  1. Op.cit. pt. 1, cap. IV, q. 70.

3.______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XIX, item 3.

  1. ______. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. II, item 20.

 

Ficha Técnica:

 90 Minutes in Heaven

Gênero: Drama Religioso,  Biografia

Roteiro: Michael Polish

Elenco: Hayden Christensen, Kate Bosworth, Hudson Meek, Bobby Batson, Elizabeth Hunter, Nicholas Pryor, Michael Harding, Gianna Simone, Jason Kennedy

Produção: Family Christian Entertainment

Trilha Sonora: Michael W. Smith

Fotografia: M. David Mullen

Duração: 121 min

Ano:  2016

 

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