Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87
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Nicholas Winton, o Schindler britânico

junho/2016 - Por Mary Ishiyama

Nicholas é o que se pode chamar um homem de bem.

O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XVII, item 3) nos diz que o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa dele;  enfim, se fez a outrem tudo o que desejara lhe fizessem.

Há um provérbio que diz que quem salva uma vida salva a humanidade. O que se pode dizer de um homem que salva seiscentas e sessenta e nove vidas?

Foi exatamente o que fez o jovem Nicholas Wertheim, nascido em 1909, em Hampstead, Londres, filho de alemães judeus que haviam se mudado para Londres dois anos antes de seu nascimento. A família adotou o sobrenome Winton como um esforço de integração.

Em dezembro de 1938, quando ele tinha somente 29 anos, viu cancelado seu plano de férias. Atendendo ao convite do amigo Martin Blake, ele foi para a Tchecoslováquia.

Abeirava-se o ano de 1939. Prenunciava-se a Segunda Guerra Mundial. O que Winton viu o deixou estarrecido. Eram milhares de refugiados desesperados que tinham que deixar o país rapidamente.

De imediato ele percebeu que deveria fazer algo por eles. E fez. Teve a ideia de retirá-los daquela terra, já sob o poder da Alemanha nazista.

Por conta própria, escreveu a vários países pedindo ajuda. Organizou uma primeira lista de nomes e recebeu resposta positiva da Suécia e da Grã-Bretanha.

A Câmara dos Comuns do Reino Unido aprovou uma medida que permitia a entrada de refugiados com idade inferior a 17 anos, contanto que tivessem um lugar para ficar e cinquenta libras depositadas, como garantia de pagamento de um bilhete para eventual retorno ao país de origem.

A tarefa era extremamente árdua e difícil, mas Nicholas tinha um lema: Se algo não é obviamente impossível, então deve haver uma maneira de fazê-lo.

De volta ao seu país, conseguiu o apoio de organizações beneficentes e encontrou pessoas dispostas a adotar os refugiados.

Também obteve os recursos necessários para o transporte e, quando o primeiro trem chegou à Grã-Bretanha, lá estava ele, na plataforma, para a recepção.

A situação agravou-se quando o governo holandês fechou oficialmente as suas fronteiras a todos os refugiados judeus. Contudo, graças às garantias obtidas por Winton, junto ao governo britânico, essas fronteiras foram reabertas e as crianças atravessaram com relativa facilidade.

A grande tristeza de Nicholas foi o último trem, com duzentas e cinquenta crianças, impedido de sair da estação, devido ao deflagrar da guerra.

Sua história ficou no esquecimento por mais de cinquenta anos até que sua esposa Greta, no ano de 1988, descobriu no sótão de sua casa, vários arquivos com fotos e documentos das crianças, com nomes dos seus pais, nomes e endereços das famílias que os haviam recebido.

Teve seus atos divulgados no programa televisivo da BBC That’s Life!

Indagado sobre seu silêncio por tantos anos, respondeu simplesmente que não tinha o que contar.  E quando o adjetivaram como herói, argumentou que para ser herói é preciso fazer algo perigoso. Segundo ele, o que fez foi realizar algo que os outros achavam impossível, mas que ele tinha de tentar, para ver se era possível ou não.

Afirmou que O importante não é chegar em casa à noite e dizer, passivamente: “Hoje, eu não fiz nada de mal”. O importante é chegar em casa e dizer: “Eu hoje fiz o bem.”

Entre muitas homenagens recebidas, em 1983, foi nomeado pela rainha Elizabeth II, membro da Ordem do Império Britânico; em 2002, foi elevado a Cavaleiro, pelo salvamento das crianças conhecidas como as crianças de Winton.

O governo tcheco, em 1998, o homenageou com a Ordem de Tomás Garrigue Masaryk, Quarta Classe e, em 2008, o agraciou com a Cruz do Mérito do Ministério da Defesa, Grau I, indicando-o, ainda, para o Prêmio Nobel da Paz.

Na estação ferroviária de Praga foi erigida uma estátua sua, com duas crianças.

O casal de astrônomos tchecos Jana Tichá e Milos Tichý o homenagearam, dando o nome de 19384 – Winton a um asteroide.

Aos 105 anos, em outubro de 2014, foi premiado, pelo presidente tcheco Milos Zeman, com a mais alta honraria do país, a Ordem do Leão Branco.

Na manhã do dia 1º de julho de 2015, a viagem de Nicholas Winton, neste planeta, chegou ao fim. Com certeza, foi brilhar, na Espiritualidade, entre as estrelas mais cintilantes. Afinal, ele não salvou apenas seiscentas e sessenta e nove crianças. De acordo com o jornal britânico The Guardian, deve haver ao menos seis mil pessoas, ao redor do mundo, que lhe devem a vida, na qualidade de descendentes das crianças Winton.

 

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