Jornal Mundo Espírita

Junho de 2020 Número 1631 Ano 88

Nem só de pão vive o homem

março/2020 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

No livro O Evangelho Segundo o Espiritismo1, o Espírito Georges nos traz uma belíssima lição, ao tratar do tema Cuidar do Corpo e do Espírito, elucidando: Consistirá na maceração do corpo a perfeição moral? Para resolver essa questão, apoiar-me-ei em princípios elementares e começarei por demonstrar a necessidade de cuidar-se do corpo que, segundo as alternativas de saúde e de enfermidade, influi de maneira muito importante sobre a alma, que cumpre se considere cativa da carne. Para que essa prisioneira viva, se expanda e chegue mesmo a conceber as ilusões da liberdade, tem o corpo de estar são, disposto, forte. (…) Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela. Desatender as necessidades que a própria Natureza indica, é desatender a lei de Deus.

Esse alerta espiritual nos fala dos cuidados que devemos ter com o próprio corpo e a própria alma.

O corpo, vaso sagrado concedido pelo Pai Celestial para as experiências da reencarnação, merece ser tratado com esmero, o que nos remete à abstenção de vícios, alimentação adequada, esportes salutares etc., tendo havido, nas últimas décadas, avanços científicos extraordinários nessa área, que, inclusive, identificaram a importância da qualidade da vida mental e moral para a saúde do corpo.

A alma é devidamente atendida em suas necessidades espirituais quando buscamos o progresso intelecto-moral, que é a razão dela vir para o cenário físico através da reencarnação.

Como alma e corpo estão conectados através do perispírito podemos afirmar que os cuidados que se têm com um deles repercutem no outro.

O Espírito André Luiz2 recebeu notável aprendizado acerca da importância do amor como alimento das almas, de forma que esse assunto merece maior atenção para que se possa avaliar se o amor tem feito parte do nosso cardápio diário.

Conta ele que está se alimentando de caldo reconfortante e frutas perfumadas,  quando o Espírito Laura elucida:

Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor. De quando em quando, recebemos em “Nosso Lar” grandes comissões de instrutores que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual. Todo sistema de alimentação, nas variadas esferas da vida, tem no amor base profunda. O alimento físico, mesmo aqui, propriamente considerado, é simples problema de materialidade transitória, como no caso dos veículos terrestres, necessitados de colaboração da graxa e do óleo. A alma, em si, apenas se nutre do amor (…).

Principiamos a entender que o amor é o alimento da alma que repercute na vitalidade e na saúde do corpo físico.

A senhora Laura ainda acrescenta: Não se lembra do ensino evangélico do “amai-vos uns aos outros”? Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão-somente os casos de caridade, nos quais todos aprenderemos, mais dia menos dia, que a prática do bem constitui simples dever. Aconselhava-nos, igualmente, a nos alimentarmos uns aos outros, no campo da fraternidade e da simpatia. O homem encarnado saberá, mais tarde, que a conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal – patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo – constituem sólidos alimentos para a vida em si. (…)

Dessa forma, estamos sendo convidados a refletir acerca do amor como nutrição espiritual e com repercussão física, o que não significa a abstenção dos cuidados convencionais com o corpo, bem como não induz ao abandono dos alimentos materiais para a conservação da vida biológica.

Pelas palavras da senhora Laura detectamos que a vivência das virtudes, que, na essência, derivam do amor, propicia, pelas energias nobres que são geradas a partir do próprio indivíduo, vitalidade, ânimo, equilíbrio, saúde no conceito integral etc., impregnando os corpos físico e perispiritual dessas salutares energias.

Por exemplo, quando, diante das diversas situações da vida, algumas inóspitas e desafiadoras, optamos pelas vivências do perdão, da gratidão, do respeito, da compaixão, da alegria de viver e de servir, certamente estamos gerando essa nutrição espiritual, que nos dará força e ânimo para seguirmos adiante, fiéis às diretrizes do Evangelho.

Temos um extraordinário exemplo no movimento espírita na figura do médium, orador e escritor Divaldo Pereira Franco que, aos 92 anos de idade, esbanja vitalidade, mantendo seus compromissos doutrinários sem cansaço ou desânimo, dormindo muito pouco.

Qual é o segredo? Essa nutrição espiritual pautada pelo amor, além dos demais cuidados com o corpo e a alma, que geram, em torno dele, uma atmosfera espiritual de alta qualidade, capaz de agir beneficamente sobre o corpo e o perispírito.

O indivíduo que ama não adoece? Claro que adoece, diante da fragilidade da matéria, mas tende a se recuperar mais rápido e elege um clima emocional de bem sofrer, sem reclamações, o que favorece a manutenção da paz interior e da serenidade.

Frise-se que a senhora Laura também nos fala do amai-vos uns aos outros como possibilidade de nos alimentarmos uns dos outros, de tal sorte que poderemos ofertar ao próximo uma parte de nossa nutrição espiritual, assim como acontece com qualquer alimento. Todavia, a título de progresso, espera-se que o beneficiado possa caminhar para a autonomia, aprendendo a gerar sua própria nutrição espiritual, a fim de não ficar sempre dependente de recursos de terceiros.

Assim sendo, quando amamos, geramos uma vibração de boa qualidade, que é capaz de atingir aqueles que estão à nossa volta, facultando-lhes algum benefício físico e/ou espiritual como melhora do ânimo, reequilíbrio emocional, diminuição ou cessação de algum desconforto do corpo etc.

Em sua obra Nosso Lar, André Luiz também recomenda os hábitos da oração e da respiração (lenta e profunda, conforme algumas técnicas de meditação e Yoga), que incrementarão a nossa nutrição espiritual, ofertando, naturalmente, resultados favoráveis sob as óticas moral e física.

Convém anotar que o caminho oposto, isto é, quando optamos por uma nutrição de má qualidade, pautada, sob a ótica espiritual, pelo ódio, pelo desrespeito, pela ingratidão, pela inveja, pela indiferença, certamente teremos reflexos morais e biológicos negativos (desmotivação, apatia, desajustes orgânicos, doenças etc.).

Em razão da importância do amor como alimento da alma é que os benfeitores espirituais nos apresentaram a lei de justiça, amor e caridade, tendo Allan Kardec, o nobre Codificador, inserido o tema em O Livro dos Espíritos3, concluindo essa parte com a temática4 Da Perfeição Moral.

E Jesus, nosso Modelo e Guia, conhecedor dos reflexos do amor em nossa vida e em nossa nutrição espiritual, salientou5: Nem só de pão viverá o homem, de forma que cabe todo esforço no sentido de amar, a fim de que exerçamos com qualidade os cuidados do corpo e da alma, que gerarão paz, alegria e saúde moral.

 

Referências:

 

  1. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 11.
  2. XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1978. cap. 18.
  3. KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. I a XI.
  4. Op. cit. pt. 3, cap. XII.
  5. BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 4, vers. 4.
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