Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2017 Número 1600 Ano 85
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Nelson Mandela

fevereiro/2014 - Por Mary Ishiyama

O dia 11 de fevereiro de 1990 prometia. O pulmão de uma nação inteira permanecia insuflado, esperando o tilintar do relógio, o tempo esperado por muitos, especialmente por um homem que ficou aprisionado por vinte e sete anos. Assim, às 16h17 ouviu-se das entranhas de uma nação inteira o grito Amandla! (Liberdade)

Seu filho mais aguardado ressurgia com voz firme, postura ereta e cabeça erguida. O guerreiro nobre, descendente dos xhosa falou para o mundo: Eu saúdo a todos vocês em nome da paz, da democracia e da liberdade.

Era Nelson Mandela, nascido no dia 18 de julho de 1918, na tribo Thembu, e que recebeu de seu pai o nome Rolihlahla Daliblunga, que significa, literalmente, puxar um ramo de árvore, de forma coloquial, agitador.

Gadla Henry Mphakanyiswa, seu pai, era um chefe, pela linhagem e pela tradição, o principal conselheiro do chefe da tribo Thembu, o que levou Mandela assim se expressar:  Os xhosas são um povo orgulhoso, que crê na importância das leis, da educação e todos os indivíduos tinham consciência do seu lugar.1

Não tinha mais de cinco anos quando comecei a apascentar as ovelhas e os bezerros. Descobri então a ligação quase mística que existe entre os xhosas e os seus animais, não só como fonte de alimento e de riqueza, mas também de felicidade. É uma dádiva de Deus. 2

O conhecimento das crianças xhosas era adquirido através da observação, imitação e da emulação e a vida de Mandela foi moldada pelos costumes, rituais e tabus.

Aprendeu sobre a bravura de soldados africanos das tribos zulus, os amaxhossas e sekukhuni, mas os livros só falavam de heróis brancos e os negros eram descritos como selvagens.

Deliciava-se com as fábulas contadas por sua mãe, que ensinavam que a recompensa da virtude e da generosidade podia chegar por meios impossíveis de imaginar.

Outro fato que o marco foi ao montar um burro e ser derrubado. Foi muito vergonhoso cair na frente de seus amigos, considerando que os africanos têm um profundo senso de dignidade. Nelson disse que, nesse dia, aprendeu que humilhar outra pessoa é fazê-la sofrer, de maneira desnecessariamente cruel e, desde rapaz, a ninguém humilhou, mesmo fossem seus adversários vencidos.

A figura de seu pai lhe era muito importante. Ele possuía um orgulho rebelde e um sentido obstinado de justiça que Mandela reconhecia em si mesmo. 3

Nosekeni Fanny, sua mãe, tornou-se cristã e foi aconselhada a mandar o filho para a escola. Em suas memórias, escreveu Mandela: Eu tinha sete anos e, no dia anterior ao começo das aulas, o meu pai puxou-me à parte e disse que eu tinha de ir decentemente vestido para a escola. Até então, e à semelhança de todos os garotos de Qunu (local em que vivia), sempre tinha usado uma manta enrolada à volta do ombro e apertada na cintura. Meu pai tomou de um par de calças suas e cortou-as na altura do joelho. Mandou-me que as vestisse. O comprimento estava mais ou menos bom; o pior era a cintura, demasiado larga. Meu pai apanhou um cordel e cingiu-me as calças.

A minha figura devia dar vontade de rir, mas nunca tive um fato que me orgulhasse mais do que vestir aquelas calças cortadas pelo meu pai.4

Na morte do pai, ele disse: Não me recordo de ter sentido um desgosto muito grande, foi mais a sensação de estar à deriva. Embora a minha mãe fosse o centro da minha existência, era através do meu pai que eu me definia a mim mesmo. A morte dele provocou uma profunda alteração na minha vida.5

Prevendo a morte, o pai chamara seu amigo, o chefe da tribo, Mqekezweni e apresentara Nelson, afirmando que, pela forma com que ele falava às irmãs e aos amigos estava claro, para ele, que havia, no filho, uma tendência para ajudar a nação.

Sob os cuidados desse chefe, Nelson observou os julgamentos e soluções das disputas entre os líderes tribais. Fascinava-o constatar como se portar entre a defesa, acusação, interrogatório e veredictos tomados. Começava ele a se preparar para a liderança.

Não se sabe se seu nome era uma predição, agitador, mas sua vida foi de luta, em nome da liberdade de um povo, não apenas de negros, mas de negros e brancos oprimidos por uma sociedade hipócrita.

Esse homem foi o prisioneiro número 46664, na Prisão da Ilha Robben, localizada na entrada da baía da Mesa, a onze quilômetros da cidade do Cabo.

Segundo o escritor Benjamin Pogrund, o problema de Mandela era a diferença entre o mito e o homem. O primeiro foi idealizado como um super-homem capaz de fazer tudo e que nunca existiu. O segundo era um homem de carne e osso, com sabedoria, talento e compromisso, em escala raramente igualada na história pela liberdade – e também um mortal com suas fraquezas.6

Segundo depoimento do detento Ahmed Kathrada, durante seu cárcere, Mandela só perdeu a calma em duas ocasiões, quando falaram de sua esposa, Winnie.

Mandela nunca se colocou como vítima da situação, por isso não guardou mágoa de ninguém, sempre assumiu todas as atitudes que tomou.

Sua postura na prisão granjeou-lhe amizade, inclusive de seus carcereiros e o respeito de todos os demais detentos, mesmos aqueles que eram contrários às suas ideias.

Ele afirmou: Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar.

Foi com esse sentimento que ele saiu da prisão. Seus discursos não eram mais inflamados, e sim conciliadores, para a decepção dos setores mais radicais e era com esses que Mandela se preocupava.

Tinha a proposta de reconstrução da África. Queria uma democracia multirracial. Foi eleito e assumiu a Presidência em 1994. Em seu governo, criou a Comissão da Verdade e Reconciliação, encarregada de apurar, não punir os fatos ocorridos durante o apartheid. Também empenhou-se em assegurar à minoria branca um futuro no país.

Adotou outro Hino Nacional, mesclando o hino do CNA (Nkosi Sikolele AfricaDeus bendiga a África) com o africâner (Die Stein). Criou uma nova bandeira, unindo os símbolos das duas instituições anteriores: a bandeira oficial dos brancos mais as cores da bandeira da CNA.

Por um único homem Mandela nutria sentimentos negativos: era o líder zulu Mangosuthu Buthelezi, que acreditava ser um homem perigoso, capaz de levar o país a uma guerra civil.

Ele surpreendeu a todos, ao nomear esse homem seu Ministro do Interior. Queria-o bem próximo, sob sua vigilância.

Com essa e outra medidas pacificadoras, algumas vezes vistas como traição pelos mais radicais, mas, sem temer por suas decisões, ele e o seu antecessor no governo, Frederik de Klerk, foram os ganhadores do Prêmio Nobel da Paz do ano de 1993.

O pai da moderna nação sul-africanista desencarnou no dia 5 de dezembro de 2013 e seu corpo foi enterrado em sua cidade natal, Qunu, entre rituais tribais e homenagens de chefes de Estado.

Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Nelson Mandela por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 1991.

1-2-3-4-5 MANDELA, Nelson, autobiografia. Um longo caminho para a liberdade, tradução de Victor Antunes, ed. Planeta.

6 POGRUND, Benjamin. Nelson Mandela, ed. Globo. São Paulo, SP, 1991. Série Personagens que mudaram o mundo, os grandes humanistas.

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