Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Necessidades factícias

fevereiro/2016 - Por Rogério Coelho

Afirma o caroável mestre lionês1: O homem moral, que se colocou acima das necessidades factícias criadas pelas paixões, já neste mundo experimenta gozos que o homem material desconhece. A moderação de seus desejos lhe dá ao Espírito calma e serenidade. Ditoso pelo bem que faz, não há para ele decepções e as contrariedades lhe deslizam por sobre a alma, sem nenhuma impressão dolorosa deixarem.

Segundo Pascal2,  o homem só possui em plena propriedade aquilo que lhe é dado levar deste mundo. Do que encontra ao chegar e deixa ao partir goza ele enquanto aqui permanece. Forçado, porém, que é a abandonar tudo isso, não tem das suas riquezas a posse real, mas, simplesmente, o usufruto. Que é então o que ele possui? Nada do que é de uso do corpo; tudo o que é de uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Isso o que ele traz e leva consigo, o que ninguém lhe pode arrebatar, o que lhe será de muito mais utilidade no outro mundo do que neste. Depende dele ser mais rico ao partir do que ao chegar, visto como, do que tiver adquirido em bem, resultará a sua posição futura.

Quando alguém vai a um país distante, constitui a sua bagagem de objetos utilizáveis nesse país; não se preocupa com os que ali lhe seriam inúteis. Procedei do mesmo modo com relação à vida futura; aprovisionai-vos de tudo o de que lá vos possais servir… 

No mundo maior, ninguém perguntará: Quanto tinhas na Terra? Que posição ocupavas? Eras príncipe ou operário? Perguntarão: Que trazes contigo? Não te avaliarão os bens, nem os títulos, mas a soma das virtudes que possuas. Ora, sob esse aspecto, pode o operário ser mais rico do que o príncipe.

Em vão, alegarás que antes de partir da Terra pagaste a peso de ouro a tua entrada no outro mundo. Responder-te-ão: Os lugares aqui não se compram; conquistam-se por meio da prática do bem. Com a moeda terrestre, hás podido comprar campos, casas, palácios; aqui, tudo se paga com as qualidades da alma. És rico dessas qualidades? Sê bem-vindo e vai para um dos lugares da primeira categoria, onde te esperam todas as venturas. És pobre delas? Vai para um dos da última, onde serás tratado de acordo com os teus haveres.

Restringir os desejos!… Tal a medida exata para se evitar os tormentos voluntários e conquistar a paz no coração que, segundo Fénelon3, é a única felicidade real neste mundo de provas e expiações em que ainda vivemos. Portanto, devemos entender que a paz do coração só pode ser conquistada por aquele que já não se deixa escravizar pelas necessidades factícias, uma vez que, tal como competente ourives, sabe reconhecer a joia verdadeira, no caso, os imarcescíveis tesouros do céu, joeirando-os da ganga dos ouropéis existenciais.

 

1 Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2001. item 941 (comentário do Codificador).

2 Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVI, item 9.

3 Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V, item 23.

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