Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Necessidade da educação para reforma da sociedade

julho/2018 - Por Marcus De Mario

Assistimos na atualidade o recrudescimento da violência em nossa sociedade, assim como outros males, como, por exemplo a miséria, a corrupção, o descaso com a saúde pública, a hipocrisia de autoridades públicas e grandes empresários, e tantos outros que teríamos de destinar muitas linhas para descrevê-los. Vemos várias tentativas, seja na área de segurança pública, na área econômica ou na área política, de conseguir solução para todos esses males, contudo, é fato que o tempo passa e os problemas sociais persistem, como se estivéssemos num círculo vicioso e não houvesse solução. Mas, onde está a causa geradora da perturbação da ordem social e moral? É para essa questão que devemos direcionar nosso olhar, nossos sentidos, pois descobrindo-a, poderemos então encontrar o remédio eficaz.

Esse olhar para a descoberta da causa, com a consequente descoberta da solução, já o fez o estudioso, filósofo e escritor Léon Denis, como podemos ver em seu magistral texto de introdução à imponente obra de sua autoria, O problema do ser, do destino e da dor, livro lançado no ano de 1908, portanto há mais de cem anos. Em seu texto, o filósofo espírita aponta com maestria causa e solução, conforme destacamos:

A educação que se dá às gerações é complicada; mas, não lhes esclarece o caminho da vida; não lhes dá a têmpera necessária para as lutas da existência. O ensino clássico pode guiar no cultivo, no ornamento da inteligência; não inspira, entretanto, a ação, o amor, a dedicação. Ainda menos obtém se faça uma concepção da vida e do destino que desenvolva as energias profundas do eu e nos oriente os impulsos e os esforços para um fim elevado. Essa concepção, no entanto, é indispensável a todo ser, a toda sociedade, porque é o sustentáculo, a consolação suprema nas horas difíceis, a origem das virtudes másculas e das altas inspirações.1

Léon Denis, com sua penetrante visão sobre o homem e a coletividade, desvenda a causa: uma educação que apenas instrui, que apenas ilustra a inteligência, distanciada da concepção espiritualista da vida. E aponta a solução: uma educação espiritualista que dê sentido ao existir, uma educação que forme o caráter, que desenvolva as virtudes.

Essa mesma visão profunda é professada por Allan Kardec, ao nos ofertar seu comentário à resposta dos Espíritos Superiores, em O livro dos Espíritos, da qual extraímos:  Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a “educação”, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na “arte de formar os caracteres”, à que “incute hábitos”, porquanto “a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.” Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de “ordem e de previdência” para consigo mesmo e para com os seus, de “respeito a tudo o que é respeitável”, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos. 2

Está bem clara a posição espírita diante dos fatos que têm desonrado a sociedade brasileira perante si mesma e o mundo: deixamos que nossa educação, na família e na escola, fosse gerida pelas ideias materialistas e ateístas, que ela ficasse sufocada por aulas pré-formatadas, currículos fechados, provas, notas e preocupação em formar para o mercado de trabalho, levando pais e professores a se distanciarem cada vez mais do que realmente é importante: formar o caráter, desenvolver as virtudes e espiritualizar filhos e alunos.

A solução para todos os males, a solução para combater o materialismo, o ateísmo, o egoísmo, o orgulho e todas as suas consequências, está na educação, mas, como muito bem entende Allan Kardec, educação do ponto de vista moral, que não pode ser aplicada apenas na teoria. Deve ser desenvolvida levando crianças e jovens a praticarem o amor ao próximo através da caridade, ou seja, colocando em ação as lições do Evangelho à luz da imortalidade da alma, como muito bem ensinou e exemplificou o maior de todos os mestres: Jesus Cristo.

Não serão ações na área de segurança pública, ou intervenções econômicas, ou mesmo a ação do judiciário em tentativas de coibir os desmandos, que vão, efetivamente transformar para melhor a sociedade brasileira. Enquanto estivermos afastados da educação moral, todas essas ações serão paliativas, sujeitas ao pensamento materialista e imediatista tanto das pessoas comuns quanto das autoridades públicas, motivo pelo qual os escândalos se sucedem, de toda ordem.

Uma nova ordem social é dependente da educação que prestamos aos indivíduos que formam essa sociedade. É impossível transformar a coletividade sem transformar os indivíduos que a formam e, se a péssima qualidade da educação é causadora de vícios e males, é ela mesma, humanizada e espiritualizada, a própria solução.

Lembremos que enquanto persistir em nossa sociedade a injustiça, enquanto medrar o preconceito, a discriminação de toda ordem, enquanto as oportunidades forem selecionadas e os direitos desrespeitados, a violência, física e psicológica, continuará a existir. A única solução é a educação moral regida pela visão espiritualista da vida, que o Espiritismo, através da imortalidade da alma, da reencarnação, da vida que continua depois da morte, da crença raciocinada em Deus e da lei de evolução que nos destina à felicidade, descortina para o alvorecer de uma nova Humanidade.

 

Referências:

1 DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 14. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987. Introdução.

2 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 88. ed. Brasília: FEB, 2006. item 685-a.

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