Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Necessário e supérfluo

setembro/2019 - Por Rogério Coelho

A maior necessidade do homem é justamente a
de luz espiritual, para se identificar com o Cristo.
Nina Arueira[1]

No diálogo de Jesus com as irmãs de Lázaro[2], ficou muito claro que Marta estava, como está hoje a Humanidade, correndo atrás de muitas coisas, quando só uma é necessária, e Maria havia percebido, já naqueles recuados tempos, como deveríamos perceber hoje, o que é necessário e supérfluo, e daí optar pela parte boa, aquela que não nos será tirada… Falava Jesus dos tesouros dos Céus cuja aquisição deve ser para nós fruto de uma ambição nobre à qual devemos dar urgente prioridade.

Quando mergulhamos no corpo físico pela bênção da reencarnação, em função de nossa necessidade evolutiva, as potencialidades espirituais ficam amodorradas e, consequentemente, quase sempre, as sugestões para os alvitres mundanos e rasteiros têm logrado conquistar a nossa preferência, em virtude de nossa herança na área dos equívocos; passando nossas cogitações a privilegiar os ouropéis que perecem e, ao mesmo tempo, negligenciar o que permanece, isto é, os tesouros dos Céus que podemos amealhar desde já: as virtudes e os conhecimentos.

Tendo Deus outorgado ao homem o direito de viver, direito esse reconhecido até pelas falíveis leis humanas, toda criatura, conseguintemente, deve ter o mínimo necessário para viver com dignidade, estabelecendo de forma nítida e comedida a fronteira entre o necessário e o supérfluo, jamais exorbitando em exageros pela força indutiva do egoísmo e das ambições desvairadas.

Justamente por não estabelecer de forma clara e precisa os limites do necessário e supérfluo, acumulando riquezas improdutivas de um lado e permitindo carências em outros, é que vemos a miséria ao lado da fartura e tantos conflitos de ordem social gerados pela ambição de poucos em detrimento de muitos.

Assim vemos celeiros abarrotados em contraposição à fome que grassa até mesmo nos países ditos de primeiro mundo (como se os abastados vivessem em outro mundo físico que não o da indiferença para com os miseráveis); verbas astronômicas são aplicadas em absurdas estratégias armamentistas enquanto muitos seres humanos não têm teto que os abrigue do relento e das intempéries físicas e morais; ao lado da exuberância das verbas para as guerras estão situados os minguados recursos para suprir as necessidades de hospitais variados nos quais desfila a penúria humana; escolas fecham suas portas por falta de mestres que fazem greves por salários dignos, ou por falta de conservação das instalações; milhares de jovens em condições de frequentar as Universidades, acabam marginalizados por absoluta falta de vagas nos cursos superiores enquanto os desperdícios se fazem por toda parte, sem emprego útil na saúde e na educação, isso sem falar dos recursos canalizados para tal e que são desviados para fins escusos…

Tudo isso que alinhamos e muito mais porque o homem não se despojou do egoísmo e, ainda muito próximo da natureza animal, não se capacitou a distribuir de forma equânime a riqueza e os recursos que o Planeta lhe proporciona.

Compreendendo esse estado de coisas, que é o mesmo de todas as épocas, Allan Kardec obtém dos Espíritos Superiores[3] importantes subsídios para esclarecimento do assunto, nos quais afirmam que o  homem ponderado conhece, por intuição o limite do necessário e supérfluo ao passo que outros só vêm a conhecê-lo por experiência própria.

O homem, em virtude dos vícios que lhe alteram a constituição, cria necessidades que não são reais em razão de sua insaciabilidade, exorbitando, assim, em prejuízo próprio, os limites traçados pela sábia Natureza.

Afirma o mestre lionês[4]: O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho; mas, como são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade.

Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, que pode ser feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: – A cada um segundo as suas obras.

Joanna de Ângelis aduz[5]: O homem tem necessidades  reais e imaginárias.

As primeiras são pertinentes ao processo da sua evolução.

As outras são criadas pela sua mente, em artifícios para o gozo, o prazer.

Não sabendo distingui-las ou não querendo compreendê-las, dá preferência, não raro, às secundárias, deixando de lado as essenciais.

Concede caráter de primazia àquelas que dizem respeito aos sentidos imediatos, em detrimento daqueloutras que proporcionam as duradouras emoções.(…)

Há uma tendência natural para o bem-estar, a satisfação dos desejos.

No entanto, a existência física não pode ser reduzida à conquista de objetivos tão limitados e de tão efêmera duração.

Consubstanciando esses assertos, numa claríssima demonstração da Lei de Causa e Efeito, respondem os Espíritos Superiores à seguinte indagação de Allan Kardec[6]: Que se há de pensar dos que açambarcam os bens da Terra para se proporcionarem o supérfluo, com prejuízo daqueles a quem falta o necessário?

Resposta: Olvidam a Lei de Deus e terão que responder pelas privações que houverem causado aos outros.

E completa o mestre lionês: Nada tem de absoluto o limite entre o necessário e o supérfluo. A Civilização criou necessidades que o selvagem desconhece e os Espíritos que ditaram os preceitos acima não pretendem que o homem civilizado deva viver como o selvagem. Tudo é relativo, cabendo à razão regrar as coisas.(…) Os que vivem à custa das privações dos outros exploram, em seu proveito, os benefícios da Civilização. Desta têm apenas o verniz, como muitos há que da religião só têm a máscara.

Marco Prisco[7] aconselha: Tente o bem.

Abandone o mal.

Tente a luta edificante.

Libere-se do marasmo anestesiante.

Tente seguir Jesus.

Vença o mundo, antes que os ardis humanos o amesquinhem e o destruam.

Por que devemos nos afadigar em regime de ansiedade constante pelas quimeras e superfluidades!?  A nossa maior necessidade – aquela sabiamente identificada por Maria, irmã de Lázaro – é a plena identificação com o Cristo sob os luminosos spotlights da luz espiritual.    Não nos olvidemos de que Ele, o Divino Pomicultor, era tão despojado na frugalidade e comedimento em que vivia que não teve nem ao menos onde reclinar a Sua cabeça, embora tenham covis as raposas, e as aves do Céu ninhos.[8]

 

Referências:

[1] – XAVIER, Francisco Cândido. Cartas do Evangelho. Pelo Espírito Nina Arueira. 5. ed. São Paulo: LAKE, 1983.

2.BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 10, vers. 41 e 42.

3 .KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt. 3, cap. V, q. 715 e 716.

  1. ______. O Céu e o Inferno. 51. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. pt. 1, cap. III, item 7.

5 FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de alegria. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990.  cap. 13.

6 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.  pt. 3, cap. V, q. 717.

  1. FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de renovação. Por Espíritos Diversos. Salvador: LEAL, 1984. cap. 12.

8 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 8, vers. 20.

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