Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

Não julgueis!

maio/2019 - Por Clayton Reis

Não julgueis e, não sereis julgados1! O mandamento do Cristo nos conduz a uma profunda reflexão sobre o significado do ato de emitir opiniões sobre pessoa ou sobre sua conduta. Julgar é uma capacidade de avaliar, presente nos seres inteligentes e conscientes. Segundo o Dicionário Houaiss2 proferir, pronunciar sentença em juízo, avaliar, ponderar, emitir opinião sobre ação ou acontecimento ou decidir após reflexão. No geral, refere-se a ato praticado pelos juízes, membros do Poder Judiciário, que emitem juízos de valor em face dos conflitos submetidos à sua apreciação. Segundo o Dicionário Jurídico de De Plácido e Silva3, do latim Judicare, de que se origina o verbo julgar, geralmente é o vocábulo tomado no sentido de decisão ou da própria sentença, proferida pelo juiz ou julgador, e que põe fim à demanda. Todavia, não pretendemos avaliar o ato de julgar dos magistrados. Estamos nos referindo a uma atividade valorativa que é uma faculdade de avaliação que se encontra presente nos seres humanos. Nessa linha Nicola Abbganano4, em seu Dicionário de Filosofia, ensina que a faculdade de julgar consiste em avaliar, escolher, decidir. Nesse sentido, o julgamento é uma atividade valorativa.

Colocada a questão sob essa ótica, vamos analisar em que consiste esse processo de avaliação do outro e seus profundos efeitos no ambiente social. Assim, quando emitimos um juízo de valor sobre os atos praticados por uma pessoa, no geral, esquecemo-nos de realizar antes uma análise do que faríamos se estivéssemos no lugar de quem é julgado. Na maioria das vezes emitimos juízo crítico, que poderá produzir efeitos de grande magnitude na pessoa objeto do nosso julgamento. Nesse caso, é importante destacar que a autoestima é uma qualidade de quem se valoriza com seu estado de ser e confia em seus atos e julgamentos. E, dessa forma, aceita o próximo como ele se apresenta, sem questionar suas qualidades e defeitos, porque todos somos detentores dessa qualidade. Por essa razão, Nicola4, diz que o juízo outra coisa não é senão o modo de reintegrar conhecimentos dados na unidade objetiva da apercepção.i O cuidado com que Jesus tratou essa questão se deve ao fato de que Ele tinha conhecimento que a maior das dissensões, entre os seres humanos, consistia em juízos valorativos equivocados. Daí uma assertiva de expressivo significado quando ditou5: Quem dentre vós não tiver pecados, que atire a primeira pedra. Essa exortação fez com que os acusadores ficassem sem argumentos para uma acusação formal e sem moral perante a multidão que assistia a cena. Nessa senda, o Espírito Emmanuel6 advertiu: A língua detém a centelha divina do verbo, mas o homem, de modo geral, costuma desviá-la de sua função edificante, situando-a no pântano de cogitações subalternas e, por isso mesmo, vemo-la à frente de quase todos os desvarios da humanidade sofredora (…).

Assim, o julgamento do próximo envolve, particularmente, o julgamento de nós próprios. Aquele que não está preparado para julgar a si mesmo, não se encontra apto para proferir julgamentos sobre o próximo. Isso porque o outro se confunde com nós próprios, apenas envolvido com vestimenta diversa! Dessa forma, estamos nos referindo a uma operação subjetiva (por pertencer ao sujeito), mas objetiva por ser universal ou comum, em Kant é o fundamento do juízo e de sua validade, segundo proclama Nicola4. Nessa ordem de ideias, quando julgamos o próximo, estaremos usurpando qualidade inerente a Deus. Somente o Criador possui a faculdade de emitir juízos de valores sobre nossas ações e comportamento que, no tempo devido nos transfere quando adquirimos consciência da nossa realidade física e espiritual.7 Erich Fromm8  pondera que compreender uma pessoa não equivale a justificá-la: quer dizer apenas que não a acusamos como se a gente fosse Deus ou um juiz colocado acima dela.

Por outro lado, o ato de não julgar o próximo se traduz em ato de conhecer, amar e tolerar, porque compreendemos e toleramos as pessoas que amamos. Os pais esquivam-se de julgar seus filhos porque, conhecendo a estrutura da personalidade de cada um deles e, em razão da sua capacidade de amá-los, passam a compreendê-los, alterando o julgamento para atos de educação e orientação. O autoconhecimento da nossa fragilidade e falibilidade é suficiente para instrumentar nossa percepção e prática ao entendimento do ato de não julgar o próximo. Cícero e Sêneca falam da consciência como a voz interior que acusa e defende nossa conduta no que diz respeito a suas qualidades éticas9.  Para atingir esse desiderato, será necessário que sejamos Deus de nós próprios. O homem consciente é dono da sua conduta e das escolhas que faz na existência. E, por consequência, sempre será juiz de si próprio!

A compreensão do mecanismo relacional, em que todos estão sujeitos na existência, é consequência de um processo de amadurecimento espiritual da pessoa em relação ao próximo. Para atingir essa esfera de entendimento, será necessário compreender o outro para poder aceitar as diferenças presentes nos seres humanos. A psicologia da relação defendida pelo Cristo era a causa de todos os conflitos existenciais que se operavam entre as criaturas humanas. Mesmo decorridos dois milênios da sua vinda na Terra, ainda hoje esses conflitos continuam presentes em grande escala na sociedade contemporânea. Joanna de Ângelis10 diz-nos que nesse esforço desenvolve-se-lhe o sentimento de amor, que é todo construído através da equilibrada conduta psicológica em relação a si mesmo tanto quanto àqueles que participam do seu convívio. A construção da tolerância sempre será uma conquista  pessoal, em que cada um aprende a conviver com o próximo sem se deter nos contínuos julgamentos que fazemos do outro. Certamente, seria melhor olharmos para nós próprios a fim de verificar que possuímos as mesmas dificuldades e, às vezes, maiores daqueles que estamos julgando. Nesse sentido Jesus já advertira11: Vês o argueiro no olho do vizinho e não vês a trave no teu.

Assim, podemos concluir que o julgamento Socrático de si mesmo representa a mais elevada conquista do ser humano, em sua trajetória pela existência. E, por essa inquestionável razão, o Mestre dos mestres assinalou, com maior ênfase, que o nosso primeiro dever consiste na prática da autocensura. Somente através dessa atividade seremos capazes de edificar um mundo melhor e mais pacífico onde impera a harmonia, a tolerância e o amor por todas as criaturas que vivem no planeta. Talvez, o exercício desse modus operandi seja uma prática utópica. Todavia, vale a pena tentar porque os resultados serão de grande valor para a família, para a sociedade, para a Humanidade e sobretudo para nós.

i Apercepção – Percepção nítida de qualquer objeto. Faculdade ou ato de apreender imediatamente pela consciência uma ideia, um juízo, intuição. 12

 

Referências:

1.BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 6, vers. 37.

2.HOUAISS, Antonio. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 1691.

3.SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p. 795.

4.ABBGANANO, Nicola. Dicionário de Filosofia.  São Paulo: Martins Fontes, 2007.  p. 680, 681.

5.BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 8, vers. 7.

6.XAVIER, Francisco Cândido. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1982. cap. 170.

7.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. 1, q. 621.

8.FROMM, Erich. Análise do homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961. p. 211.

9.Op. cit. p. 132.

10.FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. O despertar do Espírito. Salvador: LEAL, 2000. cap. Encontro com a harmonia, item O ser humano perante si mesmo.

11.BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 7, vers. 3.

12.FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio – Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 164.

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