Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88

Não julgueis…

agosto/2018 - Por Cristiane Maria Lenzi Beira

A recomendação que Jesus nos fez, descrita em Mateus, 7:1-2: Não julgueis, para que não sejais julgados, porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós, costuma ser interpretada como um alerta para o fato de que, em nosso grau de evolução não temos condições de emitir um julgamento de maneira justa e imparcial, exatamente porque nosso ponto de vista é, ainda, muito limitado, ou seja, não estamos de posse de todos os fatos referentes ao acontecimento e não possuímos uma visão real da situação. Assim, para não cairmos em erro, seria prudente, então, abstermo-nos de julgar.

Podemos, porém, ampliar essa interpretação e compreendermos que Jesus poderia, igualmente, estar nos alertando para o fato de que não existe, em realidade, aquilo que costumamos chamar de juízo de valores, pelo menos não como o entendemos, ou seja, não devemos julgar porque o critério que comumente utilizamos para definir o que é bem e mal, não está exatamente de acordo com a realidade, se analisado do ponto de vista da vida eterna e do Espírito. Isso porque somos ainda imperfeitos.

Recorremos a um ensinamento que o mestre Oogway, personagem do desenho animado Kung Fu Panda, oferece ao seu aprendiz, o mestre Shifu, que se encontrava aflito e quase desesperado com a notícia de que o vilão mais temido de todos havia escapado da prisão. O mestre ancião diz àquele que havia sido seu aluno: Shifu, mas não há boas notícias ou más notícias… há apenas: notícias! Oogway tentava explicar que toda experiência ou acontecimento, inclusive os indesejados, trazem sempre uma oportunidade de aprendizado e crescimento e, por isso, não devem ser caracterizados como maus. Talvez Jesus estivesse nos ensinando que o conceito de bem e mal, como o compreendemos, não é tão representativo da realidade, uma vez que aquilo que julgamos mal, muitas vezes, é bênção em nossas vidas!

Não é raro encontrarmos, por exemplo, pessoas a quem descrevemos como vilões, que são, na verdade, mais adiantados que nós, em termos de escala espiritual, mas que, no entanto, não fazem questão de esconder suas sombras, parecendo inferiores segundo nosso critério de julgamento. Nós, por nossa parte, podemos parecer quase perfeitos, porém, à custa da repressão de muitos aspectos sombrios de nossa personalidade. É muito difícil, então, num mundo onde o engano e o autoengano ainda predominam, estabelecer um juízo de valores que seja coerente com a realidade.

Dessa forma, além do fato de jamais termos condições de conhecer todas as peripécias envolvidas num acontecimento para, então, avaliá-lo com propriedade, existe, também, a verdade de que nem sempre aquilo que julgamos como um mal seja realmente maléfico e vice-versa. Nosso ponto de vista é, efetivamente, muito estreito para cogitarmos emitir julgamentos. Por isso, o Mestre de Nazaré, constatando nossa visão frágil, aconselhou-nos a não julgar.

Outro aspecto a ser considerado na relação que estabelecemos com o mundo e com outros seres humanos e que pode influenciar fortemente nossa visão, refere-se ao que a psicologia chama de projeção: o sujeito se livra de conteúdos penosos e incompatíveis, projetando-os nos outros.1 Dessa forma, na eventualidade de emitirmos algum tipo de julgamento, devemos levar em consideração também a realidade das projeções que costumamos fazer, ou seja, é muito provável que o mal que vemos em nosso semelhante esteja, primeiramente, em nosso próprio mundo íntimo, contaminando nosso ponto de vista.

Assim, a visão do que é realidade, indispensável a qualquer tipo de julgamento, talvez esteja bem distante de nossa percepção de mundo, em virtude do grau de evolução em que estamos. Jung afirma que2: Da mesma forma que nos inclinamos a supor que o mundo é tal como o vemos, com igual ingenuidade supomos que os homens são tais como os figuramos. Infelizmente ainda não existe, aqui, uma Física que nos mostre a discrepância entre a percepção e a realidade.

Parece cada vez mais claro que Jesus nos dizia, na expressão simples do não julgueis, que essa faculdade ainda não nos está disponível, por nos faltar competência espiritual para tanto. A mesma recomendação nos apresenta o Espiritismo3: O homens! quando será que julgareis os vossos próprios corações, os vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos?

Mas existem, no entanto, caminhos que poderiam nos ajudar a ampliar nossa visão, principalmente no que se refere a entender outras pessoas, oferecendo-nos maiores condições de compreender a vida, seus acontecimentos e, inclusive, o mundo íntimo de nossos semelhantes, como Jesus era capaz de fazer. Um desses caminhos é a prática da empatia.

O filósofo e escritor Roman Krznaric, autor de O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo, inaugurou há alguns anos, em Londres, um Museu da Empatia. A exposição convida os visitantes a fazerem um passeio pelo mundo do outro, sentindo um pouco o que é viver, a partir do ponto de vista de outro ser humano. À entrada da mostra o visitante se despe de seu calçado e coloca um par de sapatos usados, de outra pessoa, podendo escolher entre algumas alternativas. Enquanto caminha pelo museu, com os sapatos velhos de outra pessoa, escuta, por um mecanismo de áudio, o dono ou dona dos calçados contar um pouco de si, da vida que viveu, de seus sentimentos, experiências, pensamentos… O visitante é convidado a se entregar à experiência e se imaginar, tanto quanto consiga, sendo a pessoa que um dia usou aqueles sapatos. Parece ser uma vivência literal da expressão em inglês put yourself in my shoes (em português diríamos coloque-se no meu lugar). Aqueles que já visitaram o museu, que teve uma edição na cidade de São Paulo, costumam afirmar que a experiência é transformadora e promove uma ampliação de consciência de mundo e de humanidade.

Certamente esse tipo de vivência modifica muito o ponto de vista de uma pessoa e, por consequência, os critérios que ela utiliza para emitir julgamentos também são afetados. Enquanto não formos capazes, portanto, de adquirir uma visão de vida tão ampla quantas forem as verdades de cada ser humano, não estaremos aptos a julgar outras pessoas ou as decisões que elas tomam.

Quando criança, eu ouvia falar de um tal grupo terrorista – IRA (Exército Republicano Irlandês) capaz de muitas atrocidades e, em minha visão frágil de vida, enxergava-os como homens maus, vilões doentios e inconsequentes, verdadeiros monstros. Não me lembro de receber explicações a respeito do ponto de vista deles, ou seja, dos motivos que os levaram a adotar aquela postura social. Hoje, depois de uma visita turística à Irlanda e tendo tido contato com a História daquele país, finalmente pude praticar a empatia e olhar a vida daquela época pela perspectiva daqueles considerados terroristas. Ainda acredito que os fins não podem justificar os meios e, portanto, as vidas tiradas nos ataques jamais podem ser justificadas, mas, ao mesmo tempo, compreendo os sentimentos experimentados pelos componentes do IRA, que exigiam: a independência da Irlanda do Norte, controlada pela Inglaterra e maior tolerância à religião católica, que sofria pressão dos protestantes, grande maioria da população. A imagem de monstros que carreguei foi transformada e hoje identifico-os como pessoas que lutavam pela justiça, de acordo com seu ponto de vista, mas que deixaram seus próprios conflitos definirem a forma de luta a ser empregada.

Assim sendo, lembremo-nos sempre do exemplo do Rei Creso, da Lídia, que foi poupado por Ciro, o Rei Persa, em virtude do ensinamento que lhe ofereceu. Quando o derrotado estava prestes a ser queimado vivo, em tom de lamentação, gritou o nome de um dos maiores filósofos gregos da época: Sólon. O Persa, ao ouvir, interessou-se em saber o motivo daquela lamentação. Creso contou-lhe do encontro que havia tido com o filósofo, que o alertara quanto à transitoriedade das coisas, afirmando que somente podemos julgar uma situação como boa ou má, depois de lhe haver observado as consequências. Naquele instante da execução, então, o Rei da Lídia, que um dia se julgou imbatível e superior a tudo, agora reavaliava seu ponto de vista, sentindo-se humilhado e frágil. Ciro, no mesmo momento, mandou que o libertassem. Desejava conviver com o derrotado, como seu assessor próximo, para que sempre se lembrasse de que ninguém sabe julgar a realidade, pois que tudo é possível e transitório!

O Espiritismo ratifica essa advertência4: Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências. Assim, para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir.

Ao invés de certezas fundamentadas em julgamentos frágeis, recorramos mais à prática da empatia, aquela que nos convida a entrar nos sentimentos dos irmãos de jornada, experimentando-lhes as dores e as vivências, sempre conscientes de que existe mais vantagem em ampliar nossa visão de vida, abertos às possibilidades, do que em nos sentirmos como os donos da verdade.

 

Referências:

1.JUNG, C. G. Tipos psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 881.

2.JUNG, C. G. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 507.

3.KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 119. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. 10, item 16.

4.Op. cit. cap. V, item 24.

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