Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

Nada mais se tem que falar, nada é necessário dizer.

novembro/2014

A noite havia vencido a natureza e Jesus orava. Pedro, Tiago e João estavam exaustos pelo dia especialmente quente e pela subida ao topo do Monte Tabor, uma marcha de quase quatro cansativas horas para vencer os quinhentos e sessenta e dois metros de altitude.

A madrugada alcança o Rabi em oração. Os companheiros dormem. Vozes percutem na monotonia. Os discípulos despertam assustados e são dominados pela visão sublime da transfiguração do Mestre, com as vestes incendidas, dialogando com Moisés e Elias. As palavras vibram no ar; mas não são palavras como as que se ouvem comumente…

Uma nuvem surge misteriosa e uma voz, então, exclama:

Este é o meu filho amado; a Ele ouvi![1]

*

No mesmo dia da Ressurreição, momento enaltecido da História, porém ainda pouco compreendido, dois discípulos viajaram a Emaús.

Dialogavam sobre as perspectivas do futuro, uma vez que Jesus havia retornado dos mortos, na manhã daquele domingo. Voltariam a encontrá-lO?

Um terceiro desconhecido aproximou-se deles, enquanto caminhavam em viagem. E juntos, agora os três, conversaram sobre as últimas ocorrências em Jerusalém, desde a morte até a ressurreição.

O peregrino tirou-lhes dúvidas, consolou-os e animou-os quanto ao futuro.

Estavam chegando ao destino. O peregrino deu mostras de que seguiria ainda em jornada.

O Sol declinava e o ar pesado da tarde cedia lugar à brisa refrescante, que soprava dos montes em derredor.

Nesse comenos, movidos por um sentimento inabitual, os viandantes O convidaram a ficar com eles, dizendo:

-“ Fica conosco, Senhor, pois a noite desce, e o dia já está quase no ocaso.”

Ele ficou, adentrou-se na pousada, e, à hora do repasto, quando ia ser servido o pão, Ele o tomou nas Suas mãos e o abençoou, entregando-lhes algumas nacadas.

Só então se lhes abriram os olhos e deram-se conta de que aquele que os acompanhara, confortara e iluminara, era Jesus.

(…)

Não tinham o que falar, e nada era necessário dizer.

Quando o Senhor desapareceu da sua frente, não tergiversaram, retornando imediatamente a Jerusalém.

Quando chegaram à “cidade dos profetas”, encontraram os discípulos reunidos, e, tomados de ímpar felicidade, narraram tudo quanto lhes havia acontecido na viagem, informando com segurança:

-“Sim, o Senhor apareceu, voltou para que nunca mais nos sintamos a sós.”

(…)

A Era Nova se restabelecia, fundando os seus alicerces na Ressurreição de Jesus, sem cuja base tudo se reduziria a mitos injustificáveis.[2]

*

A morte sempre se apresentou como a grande destruidora da vida, a amarga separadora daqueles que se amam, a indesejada…

Para fugir-lhe à sanha, adornaram o culto à memória dos mortos com exéquias e homenagens, flores e incensos, leituras e lágrimas, de alguma forma tentando dissimular-lhe a face trágica.

No entanto, à figura da noite sombria da morte sucede a madrugada clarificadora da vida espiritual. É de imortalidade que devemos tratar.

A imortalidade é realidade incontestável no Monte Tabor, com a presença de Moisés e Elias, do mesmo modo na estrada de Emaús, com Jesus, vivo após a morte, convivendo alguns momentos mais com Seus discípulos.

Jesus, Ele próprio, demonstrou a inexistência da morte-destruição, como passagem para o fim, para o nada. Apresentou a morte como o portal para a vida espiritual, abundante e perene.

Diante do testemunho vivo de Jesus de Nazaré sobre a vida que continua após a vida, nada mais se tem que falar, nada é necessário dizer.

Portanto, podemos concluir com clareza e segurança: nossos entes queridos, tidos como mortos, vivem!

E vivem uma vida dinâmica, objetiva, atuante, tão bela e harmônica, quanto seus esforços possam edificar, pois as oportunidades pelo crescimento espiritual não cessam nunca, mesmo para os que já partiram para a Pátria Espiritual.

Tranquilizemos os corações. Eles vivem! É o Meigo Rabi quem nos afirma.

*

O Tabor e a estrada de Emaús, são como símbolos da Nova Era, a Era do Espírito, da Imortalidade.

Eles vivem!

Que nossas homenagens aos queridos do coração, que partiram para perseguir melhoria com novos compromissos no bem, se deem com espírito imortalista.

Vamos endereçar-lhes as oferendas de nossos corações. Para eles, o que lhes toca o sentimento afetivo é o que por eles sentimos de verdade.

Assim, ao invés de flores, que logo irão murchar, ofertemos-lhes as nossas melhores e mais doces lembranças, reunindo nosso carinho em forma de pétalas aveludadas, compondo flor de amor imorredouro, que jamais perderá a vitalidade. E as velas sejam substituídas pela luz de nossas orações gratulatórias pelo tempo em que com eles estivemos juntos na jornada terrena, e intercessórias, pedindo a Jesus, o Amigo de todas as horas, que os mantenha sob Sua tutela e guarda.

 



[1] FRANCO, Divaldo Pereira. Primícias do Reino. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Rio de Janeiro: Sabedoria. cap. O Tabor e a planície.

[2] ______.Dias venturosos. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL. cap. Nunca mais a sós.

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