Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2020 Número 1633 Ano 88

Músicas nas Instituições Espíritas

agosto/2013 - Por Rogério Coelho

Pergunta: O que você tem a dizer, à luz da fidelidade espírita, sobre o fato de músicas do contexto doutrinário católico e outros serem trazidas para o meio espírita?

Resposta: Eu tenho encontrado, nos últimos tempos, essa preocupação e me alegra, porque antes a gente engolia tudo sem nenhum questionamento. Felizmente, já existem pessoas questionando!…

Sempre que possível, mantenhamos as bases da nossa Doutrina.

Não há necessidade de adotarmos evocações de outras crenças para o Espiritismo. Há músicas que foram criadas no catolicismo, mas a mensagem é universal. Nenhum problema! Há músicas que são cantadas e foram criadas no ambiente protestante que igualmente são universais. Não têm nenhuma ideia catequética, doutrinária, mas há outras que têm! Trazem mensagens que não são da Doutrina Espírita. Portanto, sempre que possível incentivemos aos espíritas, principalmente aos jovens que componham as músicas, que façam as letras…

Estimulemos os torneios de jovens. Por exemplo: vamos estudar a reencarnação em nosso seminário com a juventude; e, numa segunda parte, abrimos uma atividade lúdica, ou seja: um grupo para fazer poesia sobre a reencarnação, outro para compor música temática sobre a reencarnação, outros vão criar peças teatrais com textos, esquetes, sobre reencarnação, para nós podermos mobilizar o poder criativo dos nossos jovens, das nossas crianças, dos nossos adultos. E aí aquele grupo que fez a letra se junta com a turma que fez a música, tenta encaixar… E no final da atividade nós vamos ter surpresas agradabilíssimas! Muita coisa boa sai daí… Nossos jovens cantarão a música e a letra que eles próprios produziram.

Há algum tempo, eu tive ensejo de ter contato espiritual com o Espírito Sebastião Lasneau, que desencarnou em 1969. Ele era de Barra do Piraí, no sul do Estado do Rio de Janeiro. Era um poeta de mão cheia! Repentista… Mas o Lasneau gostava muito de fazer paródias: ele tomava de uma música conhecida e colocava uma letra evangélica numa composição dele.

Nesse contato espiritual, nos disse o Benfeitor quanto tempo perdeu, quando podia ter incentivado a outros espíritas de sua época a compor e a fazer letras… Mas ele não teve essa habilidade. Achava bonita determinada música, colocava letra evangélica…

Só que quando cantamos uma paródia, a tendência é ficarmos nos lembrando da letra original.

Sebastião Lasneau tem uma paródia muito conhecida que ele fez com a música Recuerdos de Ypacaraí: Contam que Jesus, certo dia, andou junto ao lago azul de Genesaré… Eu canto isso, desde o meu tempo de mocidade, mas estou no Paraguai! Eu estou vendo o lago azul de Ypacaraí… Não tem jeito! As pessoas estão cantando uma coisa bonita, mas o inconsciente está buscando a letra original. Até porque, muitas vezes, a palavra espírita não dá a rima musical devida, e a original dava, então se muda para a original. Quer dizer: esse tipo de coisa deve-se evitar.

As músicas de hoje são muito sensuais. Coloca-se uma letra evangélica, mas a original nos remete a outras propostas… E estaremos derramando, no ambiente espírita, essa outra proposta…

Noutra cidade, o povo cantou, também num evento, uma música que era o plágio de um jingle da cerveja Brahma e, no final, todo mundo cantando de mão para trás, segurando uma mão recortada em cartolina. Levei um susto quando todo mundo colocou a mão recortada em cartolina para frente, onde se lia a frase: Porque Jesus é o número 1! Era o jingle da Brahma!

De modo que vejo sempre com muita preocupação o que as pessoas, os espíritas, trabalham para criar. Quando se vê e ouve letra e música de João Cabete, (eu conheci Cabete encarnado) era ele que escrevia as letras que compunham as músicas lindíssimas, com motivação espiritual e maduras.

Há certas letras cantadas no meio espírita (criadas por espíritas) que são chatas, feias, melosas e mentirosas! Ora, vamos fazer uma letra que nos impulsione, que nos anime, que nos dê essa energia de viver o Bem, de viver a esperança…

A minha turma fala em amor o tempo todo: amor, amor, amor…amor… amor…AMOR! Igualzinho a Roberto Carlos! Mas, e a contextualização desse amor? Está baseado em quê?

Vamos fazer uma letra que se goste de cantar, pela sua coerência, pela sua beleza! Daí, vamos ter cuidado com músicas que venham de outros credos e que carreguem a marca desse credo.

Como o povo está cantando hoje nos Centros Espíritas!

Músicas populares, dos compositores populares, vai-se podando o que vai chegando em termos de novidade musical.

A turma está cantando as músicas de Djavan no Centro! Ah! Porque ele fala de Natureza! Cantam músicas de Roberto Carlos que até nas missas já cantaram. Roberto Carlos tem lá sua parte religiosa, então vou pôr Jesus Cristo e Nossa Senhora…

Nossa Senhora, então, cantam numa procissão que vejo da minha janela… Mas, nós não temos que copiar aquilo que não precisamos copiar. Se pudermos fazer, vamos fazer! E se tivermos que cantar alguma composição que não seja do nosso meio, que seja uma composição espiritualmente neutra, que não traga proposta doutrinária de outros contextos, para que os espíritas cantem. Da mesma forma, nenhum católico ou protestante cantará nossas canções espíritas sobre a reencarnação, sobre isso, sobre aquilo do contexto espírita porque elas têm conteúdo doutrinário na sua proposta.

Então, é muito importante que tenhamos esse cuidado…

Não há nada contra as músicas, mas temos que tomar cuidado com a nossa proposta, visto que estamos trabalhando para enfatizar as ideias espíritas.

Vamos fazer isso e respeitar a todos os outros que não sejam espíritas, mas que estão na faixa do Bem; cada um trabalhando com a sua ferramenta…

 

Extraído de Pinga Fogo, realizado com Raul Teixeira, na cidade de
Santo Antonio da Glória, Minas Gerais, no ano de 2004.

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