Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

Mucize (Milagre)

outubro/2020 - Por Maria Helena Marcon

Um professor, um povoado perdido nas montanhas, a mais de 800 quilômetros da capital turca. Uma história real que envolve bandoleiros, um crime, tradições arraigadas, um homem com deficiência motora e da fala.

Quem imaginaria que se trata de uma profunda história de amor? Amor que transforma uma comunidade, que supera óbices e resgata uma vida que parecia estar relegada à inutilidade.

Afinal, o que Aziz, o deficiente, poderia produzir para si ou para outrem? Com dificuldades para andar, os membros superiores apresentando atrofias, sem conseguir se manifestar, que poderia ofertar?

O amor da família o cerca, embora nenhum deles o consiga entender. O pai o abraça e confidencia que gostaria muito de entender o que ele tenta traduzir nos esgares faciais, demonstrando inaudito esforço, no intuito de falar.

Seu constante amigo é um cavalo que o segue a toda parte. Na troca de afetos, parece que eles falam entre si e se entendem. Para todos, Aziz é considerado um incapaz, um portador de retardo mental.

Como se pode transformar uma localidade encravada nas montanhas? Uma localidade que durante oito meses fica isolada do mundo, pela neve? Uma localidade em que se pode contar com um ônibus a cada três dias, em que se mandar uma carta antes da neve cair, somente terá a resposta após mais de duzentos dias?

Quando o professor Mahir chega ao povoado, designado pelo governo, dá-se conta que ali não existe escola. Sua primeira decisão é voltar para sua casa. No entanto, a expressão de tristeza do chefe da aldeia, Dayu Elçi, e a lembrança da alegria das crianças na sua chegada, o levam a decidir de forma diferente.

A escola será construída pelos bandoleiros (leões da montanha), que, ao contrário do que a população turca acreditava, não eram bandidos, nem ladrões. Simplesmente donos das montanhas.

Num lugar em que o analfabetismo é regra, vale se destacar o papel da instrução. Em verdade, da educação, porque é o que realiza o professor, derrubando, de forma preliminar, o preconceito contra a mulher, conseguindo que as meninas igualmente frequentem a escola.

A educação, conforme nos recorda o Codificador,1 não a educação intelectual, mas a educação moral, é a que consiste na arte de formar caracteres, a que incute hábitos, em suma, é o conjunto dos hábitos adquiridos.

E Mahir, logo de início, exigirá dos seus alunos o respeito a Aziz. Nada de atormentá-lo, de fazer dele o seu brinquedo. Ele merece respeito, como toda criatura.

Por isso, o convidará a adentrar a sala de aula e, com paciência extraordinária, se dedicará a ensiná-lo a escrever. Ele não consegue falar mas poderá manifestar o que sente pelos desenhos, pelas letras.

Não discutiremos aqui o subterfúgio de que se serve aquele professor para conseguir dos familiares da esposa, bem abonados, os recursos de que necessita para adquirir os materiais para a construção da escola. Seriam digressões filosóficas em torno da ética desrespeitada.

O que desejamos evidenciar é o poder transformador e regenerador do amor. Porque aquele professor, sozinho, consegue alterar a vida de toda a comunidade. Talvez, no entanto, seu papel primordial seja o da inclusão social de Aziz.

Inclusão que será concluída com a chegada da esposa para aquele pobre rapaz, portador de tantas dificuldades.

Ele desejava, sim, se casar. Seus desenhos o mostravam com esposa e dois filhos. Assim ele expressava sua vontade. E toda vez que a mãe seguia para a cidade, a fim de escolher, conforme a tradição, a esposa para um dos seus filhos, ele tentava demonstrar que também desejava para si uma mulher.

Quando muitos dos aldeões comparecem ao julgamento de Cemilo, um dos filhos de Davu, aprisionado por ter assassinado um homem que humilhava seu pai, o inusitado ocorre.

Na rua, um atentado à vida de um cidadão  é evitado pelo aldeão Davu. Como gratidão, o que tivera a sua vida salva lhe oferece sua única filha para que se case com o filho ainda solteiro de Davu. Esse declina, diz da desnecessidade disso, esclarece que seu filho é deficiente. Em vão.

Por fim, chega a jovem à aldeia para a concretização do matrimônio. Ao ver o noivo, ela se entristece. E uma sombra de arrependimento, percebe-se, paira sobre os seus pais. Mas, o que está feito, não pode ser desfeito.

A sogra de Mizgin a recebe de forma calorosa, lhe fala das dificuldades do filho e busca estancar-lhe as lágrimas de quase desespero. Confessa que se sente aliviada por saber que agora seu filho terá quem o vista, o banhe, o alimente.

Depois da primeira noite e reconhecendo as suas dificuldades, ouvir os lamentos de Aziz, gritando nas montanhas é de ferir o coração. Ele desejaria falar, ele desejaria expressar o que sente, ele desejaria ser um marido para a sua esposa.

A hostilidade das mulheres da aldeia para com Mizgin o deixam enfurecido. Também os comentários maldosos de alguns homens que zombam, dizendo que ele jamais poderá ser um marido de verdade.

A dor de Aziz o leva a considerar o suicídio. O sofrimento que transparece em sua face é tamanho que não sabemos se choramos com ele ou se gritamos para que não cometa o ato terrível, que não se precipite montanha abaixo. Nosso coração sangra com o dele.

Com as consequências do suicídio que nos vêm à mente, desejamos que o desfecho fatal não se concretize2: Muito diversas são as consequências do suicídio. Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode escapar: o desapontamento. (…)

A observação, realmente, mostra que os efeitos do suicídio não são sempre os mesmos. Alguns há, porém, comuns a todos os casos de morte violenta e que são a consequência da interrupção brusca da vida. Há, primeiro, a persistência mais prolongada e tenaz do laço que une o Espírito ao corpo, por estar quase sempre esse laço na plenitude da sua força no momento em que é partido, ao passo que no caso de morte natural ele se enfraquece gradualmente, e muitas vezes se desfaz antes que a vida se haja extinguido completamente. As consequências desse estado de coisas são o prolongamento da perturbação que se segue à morte e da ilusão em que, durante mais ou menos tempo, o Espírito se conserva de que ainda pertence ao número dos vivos.

A afinidade que permanece entre o Espírito e o corpo produz, nalguns suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo no Espírito, que, assim, a seu malgrado, sente os efeitos da decomposição, donde lhe resulta uma sensação cheia de angústias e de horror, estado esse que pode perdurar pelo tempo que devia durar a vida que sofreu interrupção. Não é geral este efeito; mas em nenhum caso o suicida fica isento das consequências da sua falta de coragem e, cedo ou tarde, expia, de um modo ou de outro, a culpa em que incorreu. (…)

A grande reviravolta acontece quando o casal, não suportando a crise, se evade da localidade, buscando novos ares.

Recordamos do que nos narra Amélia Rodrigues, com respeito à mulher surpreendida em adultério3, a quem Jesus sugere que busque nova cidade, que refaça a vida.

É quando o milagre acontece. A grande transformação pelo amor. Sim, a jovem Mizgin se apaixonará por aquele homem, uma joia na intimidade, doce, terno, embora não conseguisse se manifestar, nem em palavras, nem em gestos. Ele, de igual forma.

Lembra-nos de Charles de Saint-G…, o idiota evocado por Allan Kardec4 e que descreve a sua situação em um corpo que não lhe permite se manifestar, enquanto guarda a total consciência de tudo que ocorre, como a de alguém em cativeiro.

Pode-se aquilatar o que seja o sofrimento de um Espírito plenamente consciente, preso a um instrumento que lhe impede a livre manifestação? Alguém que deseja ardentemente falar, dizer do que lhe vai na alma?

O amor recíproco do casal possibilitará a transformação de Aziz. Sete anos depois ele retornará para visitar a aldeia, a família, totalmente mudado. Surpreenderá a todos falando, movimentando-se com quase dificuldade alguma e apresentando seus dois filhos.

O poder do amor que oferece oportunidades e tudo supera. Um final feliz e verdadeiro. Aziz vive, em Istambul, tem três filhos e um neto.

E tudo começou com a vinda de um professor à aldeia. Um homem que descobriu o diamante no meio do puro cascalho de alguém que deseja emergir da sua mudez para a vida, das suas impossibilidades para a vitória.

Aliado à emoção, às cenas e falas expressivas, paisagens deslumbrantes, atores sensacionais, um roteiro fenomenal. Um fim que não se espera. Uma grande vitória que não se vislumbra. O poder do amor.

Será por isso que o mandamento maior é o Amor? Amai o próximo como a vós mesmos5. Amai-vos como Eu vos amei…6

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. III, q. 685 Comentário.

2 Op. cit. pt. 4, cap. 1, q. 957 Comentário.

3 FRANCO, Divaldo Pereira. Pelos caminhos de Jesus. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1988. cap. 15.

4 KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Rio de Janeiro: FEB, 2001. pt. 2, cap. VIII, Charles de Saint-G…

5 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 22, vers. 39.

6 Op. cit. João. cap. 13, vers. 34.

 

Ficha Técnica:

Mucize

Gênero: Drama, romance.

Direção: Mahsun Kirmizigül

Roteiro: Mahsun Kirmizigül

Elenco:  Ali Sürmeli, Busra Pekin, Cezmi Baskin, Cihat Tamer, Erol Demiröz, Eylem Yildiz, Mahsun Kirmizigül, Meral Çetinkaya

Produção: Murat Tokat

Trilha Sonora: Mahsun Kirmizigül Yıldıray Gürgen, Tevfik Akbaşlı

Duração:  136 minutos

Ano: 2015

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