Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
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Movimento Espírita do Paraná

O Lar Marília Barbosa - Cambé

março/2010 - Por Por Patrícia Zanin

O Lar Marília Barbosa, de Cambé, completa 57 anos, e seu diretor renova energias com os pequenos

Todos os dias, Hugo Gonçalves cumpre um ritual que o reabastece de energia: vai até o Lar Marília Barbosa, hoje Centro de Educação Infantil Marília Barbosa, vê as crianças e se enche de alegria. “Elas me ajudam a viver. Um mundo sem crianças seria triste como um jardim sem flor”, exemplifica seu Hugo, mais conhecido como Paizinho. Ele está à frente do lar desde a sua fundação, em março de 1953.

O projeto foi idealizado por Luiz Picinin, que foi a Nova Iguaçu (RJ) buscar a inspiração e a experiência para viabilizar a proposta. Na cidade carioca, Picinin conheceu uma instituição dirigida por Leopoldo Machado e sua esposa, Marília Barbosa.

“Eu tive a felicidade de conhecer o casal. Era um anjo aquela mulher”, recorda seu Hugo, referindo-se a Marília, que dá nome ao lar de Cambé.

O casal e um filho de 5 anos visitaram a casa de seu Hugo, em Matão (SP). “Levei o menino ao pomar e era só balançar que as mangas caíam ao chão. Quando voltamos para casa, até o cabelo dele estava lambuzado. A mãe perguntou: “E agora?” Eu respondi: “Agora a senhora dá um banho nele e pronto”.

A história mostra o investimento de seu Hugo nas crianças; a liberdade que ele sempre permitiu para o desenvolvimento delas e a criação com disciplina e carinho. “Nunca mandando. Sempre conversando”, recorda.

Pelas mãos de seu Hugo e da mulher, dona Dulce – desencarnada há cinco anos –, passaram cerca de 600 meninas. “Elas vinham pequenas, estudavam e se formaram advogadas, enfermeiras, professoras. O estudo era obrigatório e cada uma avançava até onde podia”.

No dia do aniversário de seu Hugo, em novembro, costumam chegar telegramas e telefonemas de várias partes do Brasil. “Há dois anos, num sábado, começou a chegar muita gente. E, no domingo, almoçaram aqui 700 pessoas”, recorda, com alegria.

As lembranças sobre as preferências das crianças também o fazem voltar no tempo. “Elas gostavam muito de histórias. E eu contava muita história”, relembra. À noite, no quarto coletivo, onde havia “quatro carreiras de cama”, seu Hugo contava histórias de crianças para as meninas.

Depois voltava ao trabalho: “Naquele tempo eu endereçava, a mão, os exemplares de O Imortal”, explica ele, referindo-se ao jornal espírita que fundou em dezembro de 1953.

Era comum beijar uma a uma as meninas, antes delas dormirem. Recentemente, repetiu o ritual com as 125 crianças atendidas no Centro de Educação Infantil Marília Barbosa. Seu Hugo explica que quando chegou, um menino lhe pediu um beijo. “Dei no rosto e ele disse que era na testa. Então tive que sentar e dar 125 beijos na testa das crianças”.

O carinho e o respeito com que trata os semelhantes percorre toda a sua existência. “Nunca mandei. Sempre conversei”, explica. Ele conta que administrou quatro fazendas no Paraná e sua relação com os funcionários e colonos foi de “sempre pedir e nunca mandar”.

Ele revela que não gosta de ver ninguém triste. “E eu sorrio, mesmo um sorriso triste”, confessa, saudoso da esposa com quem conviveu por mais de 70 anos. As alegrias compartilhadas com dona Dulce vão permeando a entrevista. Lembranças aparecem em forma de relatos, poesia, olhos marejados. E também no silêncio. Para dar conta da saudade, seu Hugo escreve. “No brilho dos teus olhos, vejo a grandeza de tua alma. Vejo Deus no teu sorriso”, declama, para a mulher amada.

Desde a desencarnação de dona Dulce, seu Hugo conta ter recebido 34 mensagens dela, por meio da psicografia. No início de fevereiro, antes de embarcar em uma excursão para Uberaba (MG), quando conversamos, ele esperava receber mais notícias.

Da união com dona Dulce nasceram dois filhos, 13 netos e 25 bisnetos. A presença da esposa está por toda a casa. Seu Hugo mantém as fotos como ela deixou. São porta-retratos e quadros com imagens do casal. “Minha família só me dá alegria. Tive uma esposa ideal e, além da família, tem esse bando de crianças que me faz feliz”, completa.

 

“Eu ainda moro naquela casa”, diz Fátima, que viveu 14 anos no Lar

 “Se tiver um nome além de Pai é o Paizinho, de Cambé”. Quem afirma é Fátima Domiciano Andrade Furlaneto, de 54 anos, que viveu no Lar Marília Barbosa por 14 anos. Chegou aos 6 anos e deixou a Instituição para se casar, aos 20. O casamento foi no próprio Lar. “A gente fazia a festa ali mesmo”, lembra ela, que permaneceu no Lar até 1975. Ela vive em Cambe, com o marido e os dois filhos. Trabalhou por 30 anos na prefeitura como auxiliar de enfermagem e hoje está aposentada.

Fátima tem amor e gratidão por seu Hugo e sua mulher, dona Dulce. “O Paizinho é sinônimo de amor, aconchego. Já a Mãezinha foi nossa educadora. Tinha um olhar terno, mas era rígida”. Para ela, o casal fez uma renúncia na vida para cuidar das crianças. “Até hoje o Paizinho acolhe a todos. Não tem hora nem cansaço”. Fátima convive com seu Hugo. “Eu ainda moro naquela casa. Não saio de lá e participo de vários trabalhos assistenciais no Centro Espírita Allan Kardec.”

Ela acredita que, mesmo desencarnada, o trabalho de Mãezinha de construir almas do bem continua no Plano Espiritual. Fátima recorda de uma das épocas mais felizes no Lar: o Natal. “Como toda criança, ficávamos na maior expectativa. A gente abria a porta que dava para o salão onde ficava montada a árvore para procurar o sapato onde estava o presente”.

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