Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Mohandas Karamchand Gandhi

agosto/2013 - Por Adriano Lino Greca

Península de Kathiawar. Índia. Todos os dias, de manhã, o rolar soturno de duas carroças sobre o chão empedrado do pátio interrompe o sono leve de Mohandas. Dessa vez, o menino pula da cama e corre à janela para ver o que há. Um homem e um moço, maltrapilhos e sujos, pegam um por um dos grandes latões de lixo e os despejam em carroças que puxaram até aí com seus próprios braços. É um trabalho duro. Terminada a tarefa, o homem e o adolescente cruzam as largas cintas de couro sobre o peito e, firmando os pés no solo calcetado, arrastam para fora a carroça repleta de lixo.

Uma hora depois, Mohandas toma o primeiro chá na sala, com sua mãe. Pergunta-lhe à queima roupa:

Quem são aqueles dois lixeiros?

Os olhos da senhora Putlibari Gandhi se voltam para o pequeno Gandhi:

Meu filho, aquele é Uka e seu filho, dois “párias”. Os de nossa casta devem manter-se longe deles, também com os olhos. Lembre-se de que você é Mohandas Karamchand Gandhi, e que seu pai é um ministro do príncipe de Rajkot.

Eu era apenas um menino de doze anos – escreverá muitos anos depois – mas compreendia que aquilo era uma grave injustiça. Os párias eram homens como nós, trabalhavam muito mais do que nós. Por que devíamos tratá-los pior do que a animais?

No dia seguinte, quando ouve o rodar da carroça, o pequeno Gandhi deixa as cobertas e desce para o grande saguão. O rapazola alto e magro pega no primeiro latão. Mohandas está ao seu lado:

Espere, eu ajudo você.

Já na infância, o registro do que seria toda a vida deste grande Trabalhador do Bem: a ação pacífica se contrapondo às injustiças.

Naquela época, na Índia, os casamentos, além de dispendiosos, eram arranjados pelos pais, na intimidade das famílias afins. Com Gandhi não foi diferente. Casaram-no com treze anos, no mesmo dia do seu irmão, que estava com dezesseis.

Alguns anos depois, em 1888, embarcaria para Londres para estudar Direito.

Foi na Inglaterra que conheceu o Novo Testamento, e se encantou pelo Sermão da Montanha: O Novo Testamento foi-me um lenitivo e deu-me infinita alegria… Se eu me visse hoje despojado do Bhagavad Gita e me esquecesse totalmente de suas palavras, mas tivesse o texto do Sermão da Montanha, dar-me-ia este tanta satisfação quanto o Gita…

Aos vinte e três anos de idade, em 1893, foi à África do Sul, já como advogado, para tratar de um caso de uma empresa indiana e logo depois escreveria: Sempre foi um mistério para mim como os homens podem se sentir honrados pela humilhação de seus semelhantes.

Ele acabara de testemunhar os indianos sendo obrigados a andar pela sarjeta, a fim de que os brancos pudessem passar pela calçada desimpedida.

Eram setenta mil indianos, por desprezo, chamados coolies (antigos escravos asiáticos), que viviam explorados por leis injustas. Foi ali que Gandhi desenvolveu o princípio da não-cooperação não-violenta. O método que ele denominou Satyagraha, de Satya, a verdade com amor, e Agraha, força e firmeza.

Dizia Gandhi que a força gerada pela não-violência é infinitamente maior do que a força de todas as armas inventadas pela engenhosidade do homem.

Tratava-se, porém, de um método ativo, que visava despertar a consciência moral do oponente. Assim, Gandhi e seus milhares de seguidores foram presos, em diversas ocasiões, por violarem leis injustas sempre, porém, sem reações violentas: A nossa silenciosa desobediência será semelhante à pedra que quebra o arado; semelhante ao gelo que racha a pedra; semelhante ao rio que filtra na montanha.

Antes de retornar ao seu país, ele mudara radicalmente as vidas dos indianos na África do Sul.

De volta à Índia, com a esposa e filhos, em fevereiro de 1915, segundo Edmond Privat, um dos seus biógrafos, Gandhi visita Rabindranath Tagore, o famoso poeta indiano que, mais tarde, através da mediunidade do médium Divaldo Pereira Franco, nos brindaria com as obras Filigranas de luz (1965), Estesia (1985) e Pássaros livres(1992). Segundo o biógrafo, foi Tagore quem, pela primeira vez, chamou Gandhi de Mahatma ou Grande Alma, título contra o qual ele protestaria, em vão, durante toda a vida, em especial quando não davam ouvidos aos seus conselhos pacíficos.

Não se passou muito tempo para que assumisse a liderança da longa luta pela independência do seu país. Jamais vacilou, porém, em sua convicção inabalável do protesto não-violento e da tolerância religiosa. Quando seus compatriotas muçulmanos e hindus cometiam atos de violência contra os britânicos, que dominavam a Índia, ou entre si, ele jejuava até que a luta cessasse.

A independência da Índia, que veio em 1947, não foi uma vitória militar, mas um triunfo da vontade humana. O triunfo do Satyagraha de um Espírito iluminado, forma pela qual o benfeitor espiritual Emmanuel, na obra A caminho da Luz, se refere a Gandhi. Importante observar que a obra referenciada foi psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier em um curtíssimo espaço de tempo, de 17 de agosto a 21 de setembro de 1938. Gandhi estava, portanto, em plena atividade. Não é comum que Espíritos do quilate de Emmanuel se referissem a Espíritos ainda encarnados, sem terem a certeza da sua grandiosidade.

Mesmo após a independência, Gandhi não descansou. Desejava a união fraterna dos trezentos milhões de hindus e dos noventa milhões de muçulmanos que moravam na mesma nação: isso não o conseguiria. Escreveu: As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?

Acreditava na verdade fundamental de todas as grandes religiões do mundo e não podia conceber as lutas fratricidas.

Na tarde de 30 de janeiro de 1948, aos setenta e nove anos de idade, Gandhi foi morto pelas balas de um assassino hindu, no momento em que se dirigia para a praça, tomada pela multidão, que acompanharia suas orações vespertinas.

Na mesma hora, nos microfones da rádio indiana, o primeiro-ministro Nerhu comunicava, soluçando, a inacreditável notícia aos seus compatriotas:

O Mahatma Gandhi morreu. Apagou-se a nossa luz! O pai da Índia, o amigo, o consolador de todos nós, não existe mais.

Não pôde o primeiro ministro perceber que, no mesmo momento, no outro lado da vida, certamente o Mahatma afirmava:

Espere, eu ajudo você.

A influência espiritual do Mahatma continuou a se fazer sentir.

A Índia conheceu a paz e a intocabilidade dos párias foi abolida pela Constituição.

 

Bibliografia:

Privat, Edmond. A vida de Gandhi. Tradução de Othon M. Garcia. Ed. Pensamento, SP. 9. ed., 1993.

Bosco, Terésio. Gandhi, o Profeta da Índia livre. Coleção Campeões. Ed. Salesiana Dom Bosco, SP. 4. ed., 1983.

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