Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Milagres do paraíso

agosto/2019 - Por Maria Helena Marcon

A história da família Beam, numa adaptação do livro homônimo, escrito pela própria Christy Wilson Beam, transportada para as telas do cinema, questiona especialmente a Bondade Divina e a fé.

Afinal, que Deus bom e compassivo é esse que permite que uma menina, Annabel, que ia para a escola, jogava futebol, subia em árvores, tinha, enfim, uma vida cheia de alegria, recheada de brincadeiras próprias de quem tem duas irmãs, uma enorme fazenda com cinco cães, três vacas, alguns bodes e um burrico, de repente, adentre num calvário de dores insuportáveis?

Os que somos espíritas temos esses esclarecimentos, vinculados à Lei de Causa e Efeito, e sabemos que pode haver injustiças no mundo, mas jamais injustiçados porque a Lei alcança exatamente os seus transgressores, no intuito de resgate e reajuste. É a expiação. Que conforto para as nossas vidas esses ensinamentos, quando a dor de qualquer matiz nos visita, galopante, insana, cruel.

Mas, a família em questão, não detém essa bênção. Vivendo na cidade de Cleburne, no Texas, todos frequentam a Igreja, religiosamente. A mãe é a que fica atenta para que não se atrasem para o culto dos domingos e a cada noite, peregrina pelos quartos das três filhas, perguntando se desejam compartilhar sua prece, ou seja, falar do que pediram ao Senhor. Coisas simples, como a da própria Annabel, que pede para ter mais um cachorro. Pedido expresso, que não tem retorno, diz ela, mesmo com a reclamação da mãe que acha que são suficientes os cães que existem na fazenda.

A prece, diga-se, é uma constante nessas vidas. Oram antes das refeições, agradecendo pelo alimento, pelo que têm, oram no templo religioso.

Então, as fortes dores que se apresentam, na região do abdômen da filha do meio, levam a exames, a médicos diversos, e aos variados diagnósticos de infecção, refluxo gástrico, intolerância à lactose. O amor entre as irmãs se patenteia, especialmente quando, ante a notícia de que Annabel não poderá mais comer pizza, até melhorar seu quadro de saúde, formulam um pacto de ninguém mais comer.

Finalmente, com o diagnóstico terrível do grave problema digestivo, que a impede de processar os alimentos e que, fatalmente, a levará à morte, em pouco tempo, a vida da família se transforma.

Membros da comunidade religiosa advertem a mãe para que ela e o marido repensem suas ações. Afinal, se tantos oram e a menina não melhora, deve ser pelos pecados deles ou, quem sabe, da pequena.

Isso nos remete, de imediato, às narrativas do Evangelista João sobre o episódio do cego de nascença, –  no qual indagaram a Jesus os discípulos: Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?1com todas as explicações dadas pelo Mestre e Sua misericórdia se manifestando na cura, o que assombrou os que conheciam aquele pedinte desprovido da visão, desde o nascimento.

Mas, para um coração de mãe sofrido, aquilo soa como uma acusação, pela forma como são expressas as frases. Não é um consolo de quem reconhece a Lei de Ação e Reação, mas uma sentença condenatória. O que nos adverte de como devemos ser cuidadosos ao expressarmos nossas ideias a quem se encontra no limite do desespero.

Não é outro o papel dos que realizamos o Atendimento Fraterno pelo diálogo e o esclarecimento aos Espíritos sofredores nas reuniões mediúnicas: tato, empatia, compaixão. Outra vez, bendita e santa Doutrina que nos esclarece e nos direciona o bem agir.

Por fim, um fio de esperança é depositado no médico Samuel Nurko, maior especialista da área nos Estados Unidos, que vive em Boston. Mas, desde a consulta inicial, ele deixa claro que o intuito é amenizar o sofrimento da pequena, deixá-la o mais confortável possível, visto que não existe possibilidade de cura.

Porém, ele é o médico que cuida da alma, antes do corpo. Não demonstra ter algum vínculo religioso, mas a forma com que trata os pacientes, bem atesta que ele se importa com o sentir, com o interior de cada um.

Ele é aquele que ameniza o drama da enfermidade com brincadeiras, usa uma gravata esquisita que promete tirar somente quando um dos seus pacientes se curar. Em verdade, as vagas, naquele hospital, se dão muito por mortes, considerando que para ali convergem os casos mais difíceis, os diagnosticados como irrecuperáveis. Ele representa as mãos de Deus na face da Terra. Encarna o profissional, que faz da medicina o seu sacerdócio.

Ele tem palavras claras para os pais, dizendo-lhes da crueldade da enfermidade, mas trata os pacientes como se tudo estivesse bem, acenando sempre à frente com um novo exame, uma nova medicação, algo para aliviar as dores, o desconforto.

É o ser humano atencioso que detecta, de imediato, o início de uma depressão na criança, portadora de doença insidiosa. Amor é a mensagem de cada dia e o melhor remédio, a família, segundo ele.

Anna, como prefere ser chamada, busca manter a sua fé. E, indagada pela menina, com quem divide o quarto, no hospital, por algum tempo, fala que não teme morrer.  Afinal, afirma, Deus está sempre com ela.

Para confortar a coleguinha, portadora de leucemia, a presenteia com uma corrente e uma pequena cruz, que traz ao pescoço, gesto que causa desconforto ao pai porque, confessa, ele pensa diferente, ou seja, não tem qualquer sentimento de religiosidade. Confidencia à mãe de Annabel que, embora saiba que foi boa a intenção da menina, ele gostaria que ela deixasse de alimentar a mente de sua filha com falsas esperanças.

Mais tarde, confidenciará que as últimas semanas de vida de sua pequena foram diferentes, que ela enfrentou o aproximar-se, paulatinamente, da morte, com serenidade, graças ao que lhe falara Anna. O conforto da fé, a certeza de que nunca estamos sós, que Deus está conosco.

E, como diz o salmista, se Deus está conosco, andaremos pelos vales da sombra e da morte, sem nada temer.

O calvário de Annabel se alonga, naturalmente envolvendo a todos os familiares: a mãe, que fica com ela no hospital, longe de casa, em outro Estado, na cidade de Boston; o pai que se desdobra para atender a clínica veterinária, precisando pagar as contas médicas que se avolumam, atender as duas filhas, a fazenda. Uma quase exaustão.

As duas irmãs, que veem suas vidas tomarem outro rumo, considerando que devem abandonar alguns sonhos, enquanto vivem quase sós.

Liberada para ir para casa, em palavras simples, para aguardar a morte, Annabel por insistência da irmã mais velha, sobe em uma árvore centenária e cai de cabeça no seu tronco oco. Uma queda de aproximadamente dez metros.

Permanece desacordada, por mais de cinco horas, sendo resgatada pelos bombeiros. Eles alertam aos pais que ela poderá estar com lesões no cérebro e na coluna: a queda foi equivalente à altura de três andares e ela caiu de cabeça.

Contudo, os exames constatam que ela não apresenta nada além de algumas escoriações. Entretanto, o mais surpreendente é que, nos dias que se seguem, Anna volta ao seu estado normal: brinca, pula, desincha, nem precisa mais dos analgésicos. Como isso é possível? Como uma queda tão alta não mata uma criança e ainda cura sua doença crônica?

Annabel contará aos pais, em primeira mão, que no período em que ficou no interior da árvore, inconsciente, ela se viu fora do corpo e andou por lugares maravilhosos, que descreve como sendo o paraíso. Como poderia pensar diferente, uma garotinha que se vê andando nas nuvens, visita um jardim cheio de flores e águas cantantes?

O que narra nos diz que, emancipada parcialmente do corpo, visitou regiões magníficas da Espiritualidade, onde afirma ter tido um encontro com Jesus e que ela não desejava voltar para o corpo. Afinal, ali não havia dor. Mas esse Ser especial lhe diz que ela deve voltar e lhe afirma, categoricamente, que ela será curada.

O testemunho da mãe, em plena igreja, fala do que ela e todos os fiéis catalogam como milagre. É exatamente essa questão, o milagre. Milagre da fé: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá — e há de passar; e nada vos será impossível. 2

O monte da enfermidade fora removido. Podemos avaliar o tratamento espiritual pelo qual deve ter passado o perispírito da menina, enquanto seu corpo jazia no fundo da árvore. Terá recebido transfusão de energias benéficas e curativas , que se incorporaram ao patrimônio celular?3

E o que o filme frisa, nas palavras da mãe, é que a sua fé, que chegou a vacilar, e ter momentos de raiva, pelo que reconhecia ser a surdez divina antes os seus pedidos, a fez olhar a vida com outros olhos e descobrir que vivemos rodeados por milagres.

É o milagre do amor e do perdão, milagres de meros atos de bondade como os de amizade da garçonete, em Boston, que se transforma em sustentáculo e apoio para reduzir a tristeza dos dias e procedimentos hospitalares; milagres como o daquele atendente, no aeroporto, que emite passagens aéreas, deixando de lado os avisos dos cartões de crédito com limites estourados; milagres promovidos pela recepcionista do hospital que, condoída da problemática de Annabel, mesmo sendo recém-admitida, ousa procurar o médico a fim de pedir uma brecha, em sua agenda, para atendê-la.

Milagres os temos todos os dias. Importante estarmos atentos porque afinal como disse Albert Einstein: Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.

E o filme, em sua abordagem, formula um convite a nos apoiarmos uns aos outros, sermos o milagre para alguém que precisa.

De destaque, a criação da música Your Words, da banda Third Day para ser a trilha do filme, que sintetizamos:

 

Faz-me ouvir Tua voz

Mais que a todas as vozes

Sobre as distrações do mundo aqui.

 

Tua voz vida traz

E promessas nos faz.

Teu amor vale mais

Que as riquezas deste mundo.

 

Tua palavra, vida abundante

Tua palavra nunca falhará.

Terra e céu irão passar

Tua palavra permanecerá.

 

Vem usar

Nossa voz

Com a Tua palavra

Pra que o mundo

Receba Teu amor.

 

A relva seca, e as flores cairão

Mas a palavra do Senhor

Vai durar para sempre.

 

Referências:

1.BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 9, vers. 2.

2.Op. cit. Mateus. cap.17, vers. 20.

3.FRANCO, Divaldo Pereira. Nascente de bênçãos. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2001. cap. 15.

 

Ficha Técnica:

Miracles from Heaven

Gênero: Drama

Direção: Patrícia Riggen

Roteiro: Randy Brown

Elenco: Jennifer Garner, Martin Henderson, Kylie Rogers, Eugenio Derbez, Queen Latifah

Produção: DeVon Franklin, T. D. Jakes, Joe Roth

Trilha Sonora:  Carlo Siliotto

Duração: 109 minutos

Ano: 2016

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