Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Meu malvado favorito

fevereiro/2013 - Por Maria Helena Marcon

Na Doutrina Espírita aprendemos que ninguém é essencialmente mau. Quem hoje trilha os caminhos da maldade, mesmo da crueldade, amanhã ou mais tarde reformulará as próprias atitudes e trilhará os caminhos do Bem.

O ensino, em verdade, não é novo, considerando que o Pastor Celeste já asseverou, em tempos idos: Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou haverá de se perder. Isso equivale a dizer que todos nos vincularemos à lei de Amor, que é universal.

Foi com esses olhos que assistimos a animação da Universal Pictures, traduzida ao nosso idioma para Meu malvado favorito.

Gru é o malvado vilão, cujo prazer é fazer um belo cãozinho com uma bexiga (balão), dá-lo a uma criança que chora porque caiu ao chão seu sorvete para, logo em seguida, depois de a ver sorrir, estourar o brinquedo.

Sua casa é a demonstração viva de sua maldade. Enquanto as demais casas da vizinhança têm jardins, árvores, flores, a sua é um terreno seco, com alguns resquícios de uma extinta grama, que deve ter existido ali, algum dia. Um jardim seco.

Seu carro é barulhento, enorme, contradizendo todas as normas ecológicas e de preocupação ambiental, com sua ignição de fogo e fumaça preta.

Gru não obedece regras. No trânsito, ultrapassa todos os demais carros. Afinal, ele é o maior, invencível, inatingível. Ao estacionar, arruma lugar jogando o seu veículo contra os demais, para frente, para trás, amassando-os, sem piedade.

Ele é alguém que parece muito seguro de si, do que deseja, do que quer. Somente parece. Suas atitudes são a expressão dos traumas da infância de que não consegue se desvencilhar.

Desde pequeno, foi desprezado por sua mãe. Encantado com a chegada do homem à lua, que assistiu pela TV, com uma caixa de papelão na própria cabeça, imitando um capacete, desenhou um foguete. Mas, ao tentar mostrar a ela, não merece nem uma olhadela.

Então, ele fabrica, com macarrão, um protótipo de foguete que, igualmente, não desperta na mãe nenhum comentário. Por fim, ele constrói um foguete de verdade. Deseja alcançar a lua. Entretanto, nem quando o lança ao espaço, consegue a atenção da mãe.

A mensagem que ela lhe passa é de que ele é um inútil, um fracassado, que não sabe fazer nada direito. Além de o criticar, de forma impiedosa, ainda ri de sua aparência física, na infância, quando parecia uma menina muito feia.

O resultado não poderia ser mais desastroso. Gru se isola e utilizará a sua mente inventiva para criar um arsenal de raios congelantes e outras tantas armas, com o único objetivo de derrotar qualquer um que cruze seu caminho.

Deseja mostrar ao mundo que ele é o maior. Por isso, idealiza o mais arrojado roubo da História: ele roubará a lua.

Para isso, realizará o furto do aparelho de raios encolhedores, encomendará armas especiais ao seu contratado Dr. Nefário, e convocará seu exército de mínions, pequenas criaturas amarelas e engraçadas.

Ansioso, ele sonha com o dia em que pilotará o foguete rumo à lua e a trará em sua mão, minimizada, conquistando o respeito de sua mãe e do mundo.

Nada o detém, nenhum fracasso lhe arrefece o propósito. Tudo parece ir muito bem até que três meninas órfãs entram em sua vida.

O trato rude no orfanato nos remete a pensar em como os filhos de ninguém ainda são tratados, em algumas localidades.

Remete-nos a reflexionar em como é amargo o pão e o leito de quem depende de outrem; de como pode ser duro o coração de quem não ama, como é o caso da Sra. Hattie, Diretora do Orfanato. Para ela, as crianças devem ser tratadas com dura disciplina e tudo é motivo para serem colocadas na Caixa da Vergonha.

Do trio enfocado na trama animada, Margô, a mais velha, não alimenta muitos sonhos. Mas Edith e Agnes sonham com a adoção, com pais que as amem e lhes deem tudo que elas desejam.

Quem sabe, pensa Agnes, eles terão um unicórnio de verdade! A prece, toda noite, é de quem tem esperanças.

Como é doce a infância, quando os sonhos povoam as horas e a esperança tem todas as cores do arco-íris. Quantos de nós não nos miraremos nessas personagens, recordando de nossos próprios sonhos, ouvindo as falas da pequena e expressiva Agnes, de grandes olhos e doçura sem par?

Com certeza, haveremos de nos emocionar, quiçá recordando nossa infância ou nos reportando à dos nossos filhos, registrando-lhes os atos de quem espera um beijinho de boa noite, a leitura de uma história para dormir.

Serão essas atitudes que irão conquistando o coração do malvado Gru. Quando ele, como parte de um grande plano para a realização de um roubo, finge adotar as três meninas, nem imagina como elas alterarão a sua vida.

Logo, estará a levá-las às aulas de ballet, a tomar chá de mentirinha com as bonecas, a fazer mini-pizzas com formatos de bonecos, unicórnios, a dar beijinhos de boa noite…

E não somente para as meninas, mas para todo o batalhão de mínions que com ele trabalha. As cenas demonstram como todos desejamos e precisamos de afeto, de carinho. E como um pequeno gesto faz a grande diferença.

E Gru fará promessas. Jura, juradinho? – indaga Agnes.

A animação de noventa e cinco minutos traz inúmeras lições. Desde a nos levar a considerar como se faz importante estarmos presentes na vida das nossas crianças, a prestar atenção ao que dizem, ao que fazem, a lhes conferir estímulos nas suas pequenas conquistas diárias, a lhes oferecer boas palavras, até a manifestação do afeto em beijos, abraços, aconchegos.

Como isso faz a grande diferença! Gru descobrirá o que é o verdadeiro amor, tendo o seu coração conquistado pelas três meninas, ao ponto de desistir do roubo da lua para salvá-las do seu rival Vector.

O amor sempre vence porque é a maior força do Universo. Converte um vilão em um amoroso e dedicado pai, transforma uma mãe desligada em avó atenciosa, registrando, mais uma vez, que sempre é tempo de mudar, não importando os anos decorridos.

Também nos reporta a questões específicas de que unidos podemos vencer grandes obstáculos. Quando em determinado ponto da sua estratégia para roubar a lua, Gru se vê sem recursos, ele vai até os seus subordinados, os mínions e confessa estar falido. O banco não lhe dera mais crédito e ele não dispõe de dinheiro para continuar o projeto.

Há tristeza e desencanto na sua voz. Ele é um homem derrotado, fracassado, cujo mais arrojado projeto jamais poderá ser executado.

Exatamente nesse momento, adentram o local as três meninas. Gru fala, com leve tom de irritação, que aquela é uma reunião de negócios.

Então Agnes, demonstrando que entendera toda a problemática, sorri e ergue seu cofrinho. (Quantas vezes acreditamos que as crianças não entendem os problemas que nos cercam, as dificuldades familiares e buscamos distanciá-las!)

É o suficiente. Logo, um dos ajudantes de Gru entende a mensagem e ergue uma nota. O contágio da doação é geral. Cada qual mostra o que tem e está disposto a contribuir. Por fim, reúne-se o necessário para dar andamento ao projeto.

As imagens são rápidas e engraçadas. Mas o importante a se registrar é o gesto da pequena Agnes. Ela não tem ideia de quantos mil ou milhões são necessários para concluir o projeto de Gru. Nem cogita ser uma loucura querer roubar o satélite da Terra.

Ela se dispõe a contribuir com as moedinhas do seu cofre. E, em total desprendimento, as oferece.

Enfim, o desenho infantil mais do que para as crianças, é dedicado a pais, educadores, a cada um de nós, no sentido de nos analisarmos e verificar onde e como podemos  alterar a própria conduta, melhorando este grande mundo em que nos encontramos sete bilhões de seres humanos, necessitados sempre uns dos outros.

É uma diversão, com cenas hilariantes. Pode-se rir muito. E é bem possível que se queira assistir mais de uma vez. Diga-se, o filme em sua versão dublada, supera o original, graças a Leandro Hassun, responsável pelo engraçado sotaque do grandalhão Gru, e Marcius Melhem, que empresta a voz ao divertido Vector.

Recomendamos a crianças, pais, educadores assistir com olhos de ver e ouvidos de ouvir, coração para sentir, mente para reflexionar…

 

Ficha técnica:

Direção: Pierre Coffin, Chris Renaud, Sergio Pablos

Nome Original: Despicable Me

Ano de lançamento: 2010

País: EUA

Classificação: Livre

Gêneros: AnimaçãoComédiaInfantil.

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