Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Médiuns suscetíveis

maio/2016 - Por Cezar Braga Said

Suscetibilidade é uma característica da pessoa que possui uma sensibilidade exacerbada a qualquer crítica, por mais bem intencionada e construtiva que esta se apresente.

É próprio de quem se afeta desproporcionalmente, vitimando-se, acreditando-se perseguido quando alvo de um comentário que questione suas ações, seu trabalho ou mesmo aspectos da sua personalidade.

Está estruturada numa visão distorcida de si, do outro e da própria realidade.

Esta distorção, por sua vez, pode ser alimentada pela crença de que se é superior, de o que se faz está acima da média, de que se é um missionário do sentido específico da palavra e que seu trabalho é um legado futuro que somente as gerações do amanhã, compostas de Espíritos mais evoluídos, conseguirão assimilar.

Como fenômeno tipicamente humano, também conhecido sob o nome de melindre, a suscetibilidade se apresenta em nosso meio gerando desentendimentos, atritos, afastamentos entre companheiros e instituições.

Considerando que estamos num movimento religioso que tem como premissa a necessidade de raciocinar, logicar, comparar, procurar o fundamento das ideias, é comum e até natural que se examine uma mensagem mediúnica, um novo livro, uma palestra, uma apresentação artística, destacando-se o que está bom e o que poderia ser melhor, ancorando nossa análise nos critérios espíritas, a fim de crescermos nesse exercício.

Ver apenas o que vai bem, perdendo-se de vista o que pode e deve ser aperfeiçoado, revela uma postura ingênua e imatura.

Ver apenas o que pode ser melhorado, omitindo-se o quanto há de construtivo, útil, doutrinário naquilo que estamos examinando, pode denotar um perfeccionismo doentio e, às vezes, até pouco fraterno.

Há também suscetibilidade da parte de quem, sendo crítico, não concede ao outro as mesmas prerrogativas que se faculta, entronizando-se como o avaliador, o crivo de todos, colocando-se equivocadamente numa falsa e ilusória condição de superioridade.

Toda boa crítica deve ser precedida por uma autocrítica.

Deve-se ter empatia, levando-se em conta como gostaria de ser abordado, corrigido, caso estivesse no lugar de quem é avaliado.

Allan Kardec, dirigindo-se aos espíritas de Lyon e Bordeaux[1], depois de falar dos médiuns fascinados, refere-se aos médiuns suscetíveis como sendo aqueles (…) que se melindram com as mínimas coisas, mesmo com o lugar que lhes é destinado nas reuniões, se não os põem em evidência, com a ordem estabelecida para a leitura de suas comunicações, ou quando se proíbe a leitura daquelas cujo objeto não parece oportuno numa assembleia; dos que não são solicitados a dar o seu concurso; outros se contrariam porque a ordem dos trabalhos não é invertida, de modo a contemplar as suas conveniências; outros gostariam de ser tidos como médiuns titulares de um grupo ou de uma sociedade, quer chova ou faça bom tempo, e que seus “Espíritos dirigentes”  fossem tomados por árbitros absolutos de todas as questões, etc.

Afirma Allan Kardec que tais motivos, pueris e mesquinhos, raramente são admitidos e confessados por aqueles que possuem tais características.

É por essas razões de ordem moral que muitas faculdades mediúnicas, que poderiam ser ou continuar sendo produtivas, acabam sendo transviadas, porque há elementos na personalidade do médium que não foram ou não estão sendo trabalhados por ele mesmo.

Tais elementos como o orgulho, a vaidade, o egoísmo, fazem com que o médium se isole, julgando-se invejado ou mal compreendido, reforçando a sua condição de criatura à frente do seu tempo.

Falta-nos, quando agimos assim, a modéstia de quem não se acha pronto, de quem se reconhece uma obra permanentemente inacabada, portanto, necessitada de complementos, ajustes, revisões e aperfeiçoamento constante.

Um bom caminho para começarmos a resolver esta questão está em primeiro admitir que ainda sejamos assim e, num segundo momento, nos esforçar para deixar de sermos.

Trata-se de um processo natural e genuíno de transformação, sem receitas de bolo, sem iniciações esotéricas, onde caímos e levantamos, erramos e acertamos, sem deixar de perseguir o alvo de nossa própria melhora.

Nesse caminho de lutas, os bons Espíritos estarão sempre conosco, desde que sejamos sinceros conosco, com os outros e com eles.

Toda rota pode ser corrigida, todo problema possui uma solução e mesmo a suscetibilidade pode ser vencida com o antídoto do autoconhecimento e da modéstia.

Basta, portanto, que queiramos nos aperfeiçoar. E não o conseguiremos sem calçar as sandálias da humildade, admitindo o que ainda somos em detrimento do que ainda não logramos ser.

 

Bibliografia:

[1] . KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec. Rio de Janeiro: FEB, 2005. cap. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux.

 

 

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