Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87
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Maurice Lachâtre

novembro/2015 - Por Mary Ishiyama

No século XIX, a França, que vinha de um passado de revoluções, percebia a necessidade de mudanças onde de fato imperassem as ideias de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Entre vários enviados da Espiritualidade para esse feito, encontramos Maurice Lachâtre, homem lúcido, intelectual e inquieto com a situação política e social de seu país. Filho do coronel Pierre Denis, barão de La Châtre, nasceu na comuna de Indre, em 13 de outubro de 1814, mudando-se ainda jovem para a capital francesa, então em grande efervescência cultural.

Maurice Lachâtre  é a forma sincopada e pseudônimo de Maurice de la Châtre. Foi um homem que representou muito bem os anseios e conflitos do século XIX.

Foi ativista político, editor e escritor, procurou popularizar os livros para todas as classes sociais e torná-los de fácil assimilação. Publicou o livro O capital, de Karl Marx, pela primeira vez em francês e em fascículos, com o objetivo de divulgar ideias novas, baratear custos e popularizar o conhecimento.

O seu próprio livro Dicionário Universal, uma espécie de enciclopédia, foi inovador ao usar imagens, em complemento às letras, antes mesmo que Pierre Larousse, editor especializado em enciclopédias, utilizasse essa técnica.

Foi um homem que transitou entre pensadores, cientistas, revolucionários e espiritualistas. Nesse campo, travou contato com Allan Kardec, de quem se tornou amigo.

Kardec escreveu verbetes relacionados ao Espiritismo, que Maurice publicou no seu Dicionário Universal. Juntos, dirigiram o Journal de la Banque des Échanges (Jornal do Banco de Trocas), espécie de cooperativa onde trabalhadores liberais de diversas áreas ofereciam seus préstimos, podiam trocar trabalho por mercadoria, por aprimoramento, enfim, era um modo de se ajudarem, em um momento social difícil.

Contestador em relação ao regime político e à Igreja, em 1857, Lachâtre foi condenado a um ano de prisão e ao pagamento de uma multa de seis mil francos, por ter editado o romance Os mistérios do povo, de Eugène Sue, que continha ideais socialistas.

No ano seguinte, foi condenado por Napoleão III a seis anos de prisão por ter publicado o Dicionário Universal Ilustrado. Por isso, Lachâtre se refugiou na Espanha, em Barcelona, onde se estabeleceu como livreiro.Acompanhando a renovação espiritual que estava acontecendo em seu país, pediu a Kardec que lhe enviasse livros para que pudesse comercializar. Kardec enviou trezentos volumes, com documentações e taxas pagas de conformidade com as leis dos dois países. Entretanto, os livros ficaram retidos na alfândega, a mando do Bispo Antonio Palau y Termens.

Kardec se posicionou no sentido do direito internacional, desde que todas as taxas e documentos estavam em ordem. Ficaram sem resultado as reclamações apresentadas por intermédio do Cônsul francês em Barcelona. Consultado por Lachâtre, se deveria recorrer à autoridade superior, Kardec opinou por  se deixar consumar o ato arbitrário. Nesse sentido, recorreu ao seu guia espiritual que o aconselhou a simplesmente aguardar o auto de fé.

No dia 9 de outubro de 1861, às dez e meia da manhã, no elegante bairro de La Ribeira, os livros condenados pelo Santo Ofício foram empilhados e queimados.

Cinzas, onde se encontram fragmentos ainda legíveis de folhas queimadas,  foram enviadas a Kardec e permaneceram em uma urna de cristal, destruída pelos nazistas na Segunda Grande Guerra.

Comandantes de navios aportados que presenciaram a cena, sempre que voltavam a Barcelona traziam  obras espíritas, e as distribuíam, gratuitamente.

Graças a esse evento indigno aos direitos de liberdade, o Auto de Fé de Barcelona, o Espiritismo se desenvolveu em vários países. Na Espanha, José Maria Fernández Colavida se tornou ativo trabalhador e amigo de Kardec, traduziu e editou as obras para o espanhol e organizou o 1º Congresso Internacional Espírita, em 1888.

A partir do Auto de Fé, Lachâtre foi perseguido com mais afinco, a Igreja escondeu-se atrás da justiça francesa e o condenou a destruir o livro A História dos papas, que ele publicara em 1842-43, em dez volumes.

Quando ocorreu a Comuna de Paris (primeira tentativa de criação e implantação de um governo socialista. Teve início com a revolução proletária na capital francesa, durando de 18 de março a 28 de maio de 1871), Lachâtre retornou a Paris. A vitória do governo e a violentíssima repressão levaram-no de volta à Espanha.

Continuou na tarefa de editar e propagar obras e, em 1874, publicou dois livros, História do Consulado e do Império e História da Restauração. Seis anos depois, publicou História da Inquisição.

Com a anistia, retornou à França, e publicou sua grande obra, o Novo Dicionário Universal, considerada por contemporâneos como a maior enciclopédia de conhecimentos humanos até então publicada.

Maurice Lachâtre desencarnou em Paris, em 9 de março de 1900.

 

Bibliografia:

1. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2007. pt. 2, cap. Auto de fé em Barcelona. Apreensão dos livros e cap. Auto de fé em Barcelona.

2. http://www.lachatre.org.br/maurice_lachatre.php

3. http://www.sistemas.febnet.org.br/acervo/revistas/2008/WebSearch/page.php?pagina=441

4. http://www.sistemas.febnet.org.br/acervo/revistas/1961/WebSearch/page.php?pagina=217

5. http://feparana.com.br/topico/?topico=609

6. BARREIRA Florentino. Auto-de-fé de Barcelona. Ed. [s.l.]: CCDPE-ECM, 2007.

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