Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

Malévola 2 – Dona do Mal

fevereiro/2020 - Por Maria Helena Marcon

Talvez, depois de assistir ao milagre de um amor profundo e a transformação de uma pessoa, aparentemente má, em dócil criatura, esperássemos mais magia e menos lutas.

O filme Malévola 2 apresenta muitas batalhas e mortes. Mortes de seres alados e dos encantadores habitantes moors.

Com certeza, um apelo à Ecologia. Dói n’alma ver totalmente destruída a encantadora floresta onde brilhavam as flores da morte, local onde eram enterrados os moors, um solo sagrado. Agora, tudo está escuro onde antes havia encanto luminoso. Produto da ambição real por um filtro poderoso para atender planos malévolos.

Algo para pensarmos quando transformamos a verde e imponente floresta em um desolado deserto cinzento, onde se misturam cinzas, braços hirtos enegrecidos pelas labaredas. Um local de tristeza e lamentação. Também em nome da ambição, de ideias engenhosas…

Com igual pesar se contemplam os jardins maravilhosos do palácio do príncipe Philip serem agredidos pelos corpos abatidos, as bombas que explodem no ar e semeiam destruição, enquanto despencam pedaços do imponente castelo de pedra.

Onde havia verdura, agora se encontram cadáveres, feridos, pedras, terra revolvida como num ataque de fúria.

Naturalmente, como todos os contos de fada, tudo acaba bem. O príncipe consegue seu intento, unindo de forma definitiva os dois reinos: humano e dos moors. Mas, até chegar lá, batalhas se sucedem e muitos mal-entendidos.

Reconhece-se como faz falta a disposição para ouvir o outro. Quando ocorre o primeiro incidente, o enfeitiçamento do rei de Ulstead, de imediato a culpa recai por quem parece mais óbvio ter todos os requintes da maldade, uma vez que fizera isso anteriormente, com Aurora.

Não existe a pergunta: Foi você? – o que permitiria a negativa, que deveria redundar, na sequência, em uma investigação adequada. Somente olhos acusadores e a indagação: Como pôde?

Quantas vezes agimos dessa forma, em nossos relacionamentos profissionais ou de amizade. Igualmente no processo de educação dos nossos filhos. O pequeno, que habitualmente é o gerador de alguns inconvenientes, é o primeiro a ser acusado de qualquer desordem. E, lamentavelmente, sobre ele recai o castigo, a penalidade, sem sequer deixar que se explique, que fale.

Depois do terrível mal-entendido, Aurora, o príncipe, os moors, o povo de Ulstead, todos ficam à mercê da maldade de uma criatura, cujo escopo é a vingança por algo que lhe teria acontecido em criança. A distorção das ideias da rainha é tal que cogitamos se ela teria sido, verdadeiramente, vítima da forma que descreveu ou se outros tantos incidentes estariam igualmente sendo deturpados, pela sua mente enraizada no mal.

Recorda-nos daqueles Espíritos machucados por traições, por maldades, em séculos passados e que comparecem às reuniões mediúnicas, dizendo que estão somente executando a vingança, tomando a justiça nas próprias mãos. Difícil de os convencer a que olhem um pouco além, que existem detalhes que estão sendo esquecidos e, por vezes, inclusive, uma certa culpa por precipitação ou invigilância deles, que se consideram vítimas.

Em contrapartida, há ainda a questão de Malévola e sua afilhada Aurora começarem a questionar os complexos laços familiares que as prendem à medida que são puxadas em direções diferentes por casamento, aliados inesperados e novas forças sombrias em jogo.

Não é o que acontece, por vezes, quando os filhos chegam à adolescência, naquele período em que, conforme ensinam os Espíritos, eles retomam sua verdadeira feição, abandonando os dias da infância em que pai e mãe eram os seus heróis?1

Questionamentos que se fazem, laços que parecem se romper mas que, em verdade, cedo ou um pouco mais tarde, se reatam, quando o amor tudo supera, quando os filhos se dão conta de que os pais estavam com a razão.

De que suas ações, proibições, atitudes eram motivadas no intuito exclusivo de beneficiar os filhos da sua carne ou herdeiros do seu coração.

O filme nos remete a pensarmos nos tantos preconceitos de que nos cercamos. Embora, de forma ostensiva, afirmemos que para nós todos são iguais, é de nos indagarmos como reagimos às questões de diferenças sociais, culturais. Como reage nosso pensamento quando se fala de levas de imigrantes chegando às fronteiras do país?

Somos dos que pensamos que esse imenso país-continente já tem muitos problemas e os terá acrescidos? Ou nos recordamos de que nós, também, somos imigrantes, vindos de outro sistema solar, aqui aportados e somente recebidos pela misericórdia de um Cristo amoroso?

Olhamos para essas criaturas como nossos irmãos ou como nossos inimigos, que disputarão conosco a vaga de emprego, o salário de que precisamos?

Se ao assistirmos o filme, somos levados a vibrar pelo sucesso dos seres alados na defesa dos moors, cuja vida desejamos seja preservada, assim também pensamos e agimos no sentido de preservação da vida do nosso semelhante, independente de quem seja?

Mensagem vibrante é a da nossa essência imortal. Sim, todos somos como Malévola, imortais. Morremos, tendo o corpo destruído, mas renascemos como a Fênix, das próprias cinzas, em Espírito. Ninguém se finda para sempre. E quando nos erguemos, após a morte do corpo, é exatamente como retratado na tela: mais vibrante, testificando a indestrutibilidade.

Possivelmente, seja essa a mais profunda mensagem do filme.

Sem se falar no sacrifício da pequena fada Primavera que, no intuito de salvar a vida de tantos seres, arrisca a sua própria e perece.

De imediato, nos acodem os apontamentos do terceiro livro da Codificação: O verdadeiro devotamento consiste em não temer a morte, quando se trate de ser útil, em afrontar o perigo, em fazer, de antemão e sem pesar, o sacrifício da vida, se for necessário.2

Naturalmente, e não poderia ser de outra forma, o bem supera o mal. E tudo se transforma, como num passe de mágica. Os jardins tornam a reverdecer, flores desabrocham em toda parte, enrodilhando-se em colunas, arcos, troncos.

Alegria, sorrisos. A bonança depois da tempestade. Uma ideia de esperança, essa mesma que sempre deve alimentar os nossos corações.

A maravilha quase instantânea do aspecto sombrio para o da alegre paisagem nos leva a desejar que tudo fosse assim tão fácil, reconstruindo a natureza e as edificações. E nos recordamos dos projetos da Ministra Veneranda, em Nosso Lar.

O Espírito André Luiz, conduzido por Narcisa, adentra um parque banhado de luz e experimenta singular fascinação.

Ante o seu deslumbramento, vai recebendo as informações de que são salões verdes, criados para o serviço de educação. Os ministérios têm seus próprios salões, edificados visando a utilidade prática e a beleza espiritual: (…) as árvores eretas se cobrem de flores, dando ideia de pequenas torres coloridas, cheias de encantos naturais. (…)

(…) deliciosos recantos em toda parte. Os mais interessantes, todavia, são os que se instituíram nas escolas. Variam nas formas e dimensões. Nos parques de educação do esclarecimento, instalou a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação, em forma de estrela, (…)

O mais belo recinto é o destinado às palestras do Governador. A Ministra Veneranda descobriu que ele sempre estimou as paisagens de gosto helênico, mais antigo, e decorou o salão a traços especiais, formados em pequenos canais de água fresca, pontes graciosas, lagos minúsculos, palanquins de arvoredo e frondejante vegetação.

Cada mês do ano mostra cores diferentes, em razão das flores que se vão modificando em espécie, de trinta a trinta dias. A Ministra reserva o mais lindo aspecto para o mês de dezembro, em comemoração ao natal de Jesus, (…)3

Não se trata exatamente dessa capacidade de criação do Espírito? Têm razão os que afirmam que por trás dos contos de fadas, da magia, do encantamento, existem verdades que nos cabe pesquisar e entender.

Afinal, o próprio Cristo não foi o mais extraordinário mago de que tivemos notícias?

Não foi O que devolveu a vista a cegos, movimentos a membros paralisados, saúde a corpos tomados pela hanseníase, dando ordens, ademais, aos ventos e à tempestade?

Bastou, no entanto, que estudássemos as leis da vida, para compreender o poder do Rei dos Reis, nosso Governador planetário que, em Sua lucidez e ciente do que nos aguarda, no futuro, nos convidou a imitá-lO: Aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas... 4

Em síntese, mais um filme que nos leva a pensar, a estabelecer links com alguns dos ensinos que nos foram conferidos, ao longo das eras.

Cabe-nos somente a disposição para o estudo e o aprimoramento.

E quem sabe, afinal, não esteja longe o dia em que nossa mente possa produzir coisas grandiosas no palco do bom, do belo, do bem.

Esmeremo-nos.

 

Referências:

  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2, cap. VII, q. 385.
  2. ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V, item 29.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1978. cap. 32.
  4. BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 14, vers. 12.

 

Ficha Técnica:

Maleficent: Mistress of Evil

Gênero: Aventura, família, fantasia

Direção: Joachim Ronning

Roteiro: Linda WoolvertonJez ButterworthMicah Fitzerman-BlueNoah Harpster

Elenco:  Angelina JolieElle FanningSam RileyImelda StauntonJuno Temple, Lesley Manville, Michelle Pfeiffer e Chiwetel Ejiofor

Produção: Angelina Jolie, Joe Roth e Duncan Henderson

Trilha Sonora: Geoff Zanelli

Duração:  118 minutos

Ano: 2019

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