Jornal Mundo Espírita

Abril de 2021 Número 1641 Ano 89

Liberdade e Colaboração – aspectos do trabalho espírita

março/2021 - Por André Henrique de Siqueira

Esqueçamos tudo o que possa representar motivo à
perturbação e valorizemos a serenidade e o proveito.
Bezerra de Menezes

 A liberdade é um valor incomensurável da alma humana. Cresce com as possibilidades de conhecimento e ganha expressão com as possibilidades do agir direcionado pela vontade. Às vezes, se pensa que a colaboração diminui a liberdade por nos fazer submeter a diretrizes externas. Mas é preciso compreender que, no trabalho espírita, o esforço de colaborar é fruto da liberdade de escolha e jamais se configura como atentado contra a liberdade. Colaborar é ampliar as possiblidades de escolha pelo aprendizado comum e pelas possibilidades que o agir em conjunto nos possibilita. Neste artigo, pretendemos destacar aspectos do trabalho espírita, que nos permitam superar as perturbações no esforço colaborativo, para nos concentrarmos, com serenidade, naquilo que nos traz proveito para a construção do bem.

O porquê do trabalho espírita

A compreensão do Espiritismo é tesouro particular que ilumina a alma e a eleva para novas noções de realidade. Pela ciência espírita compreende-se os fenômenos espirituais. Na filosofia espírita integram-se os conhecimentos que fundamentam o significado, o propósito e os motivos do esforço existencial desenvolvido perante a imortalidade da vida. A visão dilatada da religião sem dogmas, propugnada pelo Espiritismo, oferece-nos uma revisão profunda do conceito de sagrado, convidando-nos a uma transformação moral assentada numa integração inédita entre a fé, que confia, e a razão, que explica e questiona.

O esforço individual de entender e vivenciar o Espiritismo é oportunidade de mais amplo entendimento e destacada melhoria na construção da felicidade. E, embora seja necessária a peregrinação individual no esforço de melhoria pessoal, a convivência, o estudo e a vivência das lições espirituais nos permitem mais amplos entendimentos pela colaboração no esforço de aprender e servir.

Cada contribuição que encetamos no desejo de melhoria resulta em aprendizado, contentamento e mudança gerando novos horizontes de percepção e novos caminhos de adaptação ao ambiente de evolução que nos convida ao aprimoramento superior.

Pelo trabalho espírita identificamos a alegria da caridade espontânea, o valor de nos tornarmos úteis e o benefício do aprender fazendo. Mas essa não é uma conquista que fazemos na solidão. É preciso aprender a compartilhar para compreender o valor de colaborar.

Pelo trabalho colaborativo ampliamos nossa liberdade e aprimoramos nossos valores pela dilatação da capacidade de contribuir para a melhoria da existência.

O que fazemos no trabalho espírita?

Primeiro aprendemos continuamente. O trabalho é a aplicação de nossos esforços naquilo que nos provê utilidade. E o esforço de sermos úteis gera a necessidade de conhecimento. O estudo é a resposta para nossas necessidades de aprendizagem. Aprendemos em todas as ações colaborativas. A leitura edificante nos oferece mapas de entendimento da realidade e o exercício da caridade – em todos os aspectos de nossa vida – nos fortalece o entendimento fazendo-nos compreender a melhor ação, a melhor resposta, a melhor conduta. No estudo coletivo, temos a oportunidade de trocar impressões e de dilatar entendimentos. Deste modo, é sempre oportuno o exercício do estudo nas tarefas que nos competem. Estudamos mediunidade nos grupos mediúnicos. Estudamos a pedagogia e o Espiritismo nas atividades de educação para jovens e crianças. Estudamos andragogia e Doutrina Espírita nas ações do estudo do Espiritismo. E assim em todas as áreas. Pelo estudo, aprimoramos nosso entendimento do trabalho e ampliamos nossa capacidade de servir.

Segundo, aprimoramos nosso conhecimento pelo exercício da ação. Se o estudo nos oferece aptidões de agir, a ação nos corrige e aprimora. É no trabalho que ampliamos o nosso entendimento, que entendemos como a vida é e como ela se desenvolve. Assim, no trabalho coletivo, quando praticamos o diálogo e trocamos experiências, dilatamos nosso aprendizado pelo entendimento da experiência e das circunstâncias pelas quais passou o nosso próximo. E, deste modo, apoiamos uns aos outros ampliando nossa capacidade de compreender e agir no mundo.

Terceiro, no trabalho coletivo somos capazes de corrigir nossos erros na convivência educativa. A confiança que desenvolvemos na colaboração deve ser transformada em amor fraternal para que aproveitemos o estar com o próximo como oportunidade de aprimoramento e aprendizagem. Se pela ação compreendemos o verdadeiro significado do bem, do útil e do belo, não podemos perder de vista a importância de nos aproximarmos afetivamente uns dos outros para que a oportunidade de servir também resulte em nossa alegria de convivência, que serve de inspiração para as demais atividades que executamos para além das lides espiritistas.

Compreendemos, deste modo, que o trabalho espírita se define no estudo e na vivência e projeta-se na divulgação. É um erro pensar em divulgar o Espiritismo sem vivenciar as instruções que pretendemos aplicarem-se ao próximo. O trabalho espírita não pode ser desenvolvido sem o conhecimento do Espiritismo, daí a necessidade do estudo. Mas não é possível fazer a divulgação sem que a vivência da moral evangélica – propugnada pelo Espiritismo – seja o elemento norteador das ações de divulgação. Espiritismo é luz para transformação e o primeiro beneficiado é aquele que se ilumina e transforma.

Então o trabalho espírita sintetiza-se nas ações de estudo, vivência e divulgação do Espiritismo. Mas há que se destacar o papel da colaboração, pois colaborando ajustamos nossa capacidade de acerto desde que empenhada nossa boa vontade. E boa vontade significa disposição para compreender o próximo, trabalhar com ele e eventualmente corrigir nossos erros comuns e dificuldades de ajustamento.

Como fazemos o trabalho espírita?

Não há dúvida que todo trabalho espírita começa pelo estudo. Sem o conhecimento do Espiritismo não podemos colaborar com acerto pois deixamos de compreender a própria natureza da tarefa do verdadeiro proveito que podemos extrair dela. No estudo compreendemos a natureza das coisas, entendemos quem somos, porque vivemos e como podemos aprimorar nossas virtudes com vistas à felicidade real. É, ainda, no estudo que aperfeiçoamos nosso entendimento da relação do Espiritismo com todas as áreas do conhecimento humano em seus aspectos científicos, filosóficos e religiosos.

Iniciados os estudos, que se projetam por toda a vida, os aspectos da vivência da mensagem espírita se tornam o centro de nossa vida. O Espiritismo não é doutrina cuja vivência se restringe ao Centro Espírita; é doutrina para todos os aspectos da vida. Sem o esforço de vivência não é possível dilatar a compreensão do Espiritismo. É preciso vivê-lo em todas as dimensões da Vida: em casa, no trabalho e na escola.

Através da vivência compreendemos o tesouro das leis morais, as virtudes do Cristianismo redivivo, os desafios do autoconhecimento com vistas à melhoria de nossa qualidade de vida e daqueles que compartilham conosco o momento existencial. A essência da vivência espírita é o trabalho regido pela Lei de amor, justiça e caridade: benevolência para com todos, indulgência com as faltas alheias, perdão das ofensas. Esse programa de trabalho é a chave central para qualquer esforço de colaboração.

Liberdade no trabalho espírita

Diferente de outros movimentos religiosos, no Espiritismo não há hierarquias nem subordinações impostas. Se aderimos a um programa de trabalho voluntário, o fazemos pelo ideal apresentado. Quando uma Casa Espírita adere ao Movimento Federativo o faz pela convicção de que o trabalho colaborativo produz melhores resultados. A liberdade é a chave da boa colaboração pois permite que o indivíduo compreenda o que está sendo feito e por quê. Daí a importância de participarmos das ações de planejamento, de estudo e de avaliação das atividades nas quais participamos. Se trabalhamos isolados, corremos o risco de duplicar esforços e criar zonas de sobreposição, gerando retrabalho e desperdiçando recursos. Quando trabalhamos em conjunto, aprimoramos os resultados pelo planejamento acertado, pela união de esforços, pelo foco nos aspectos que foram priorizados para o momento.

Mas não podemos confundir o trabalho colaborativo da Unificação – o esforço de colaboração do Movimento Espírita – com a uniformização das ações.

Colaboração e diversidade

A liberdade no trabalho de Unificação advém da necessidade de adaptarmos os programas de trabalhos, os métodos de estudo, os processos de desenvolvimento das atividades às circunstâncias específicas de nossa realidade nas diferentes Instituições Espíritas. Assim, é preciso compreender que a diversidade das situações reclama ajustamento dos processos e métodos. O que mantemos em foco são os objetivos! Então, nos deparamos com diversidades de meios, mas temos em pauta os propósitos do estudo, da vivência e da divulgação do Espiritismo como objetivos centrais do trabalho da Unificação.

Se soubermos aproveitar a diversidade das experiências, aprimoraremos nossa capacidade de adaptação e aumentamos o grau de êxito das atividades. Mas, esse tipo de colaboração exige respeito à liberdade e boa vontade colaborativa. E para isso precisamos nos recordar da recomendação de nosso Bezerra de Menezes: Esqueçamos tudo o que possa representar motivo à perturbação e valorizemos a serenidade e o proveito. Essa é a essência da colaboração no trabalho espírita.

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