Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
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Léon Denis – o Apóstolo de Espiritismo

março/2013 - Por Equipe Editorial

Um artigo bastante curioso, publicado somente em A Centelha, em 1945, revista espírita há muito extinta, traz as apreciações do pesquisador Canuto Abreu sobre seu encontro em janeiro de 1922 com Léon Denis na cidade de Tours, França.

Transcrevemo-lo, em parte:

O que ficou mais gravado na minha memória foi nosso primeiro encontro. Fui a Tours no dia 6 de janeiro de 1922. A velha cidade francesa estava sombria e as luzes das ruas acesas, apesar de pleno dia. O frio era intenso. Quando o auto destacou barulhento à porta de casa, na Place des Arts, 19, estava uma senhora a entrar. Parou a ver quem chegava e foi minha gentil introdutora. Conquanto informado por uma carta de Jean Meyer duma próxima visita minha, Léon Denis não me aguardava naquele dia. De propósito cheguei a Tours sem outro aviso para não dar ao venerando mestre o incômodo de me esperar em dia certo.

A casa estava com algumas visitas. Falava-se alto lá dentro, como em controvérsia. A senhora, que me fez entrar a seu lado, deixou-me à entrada com mademoiselle Georgette, dedicada caseira de Denis. E, enquanto esta me ajudava a despir o sobretudo, ela varou a sala vizinha para me anunciar. A conversa animada cessou de súbito. Um moço alto e magro espiou à porta. Logo outro senhor apareceu, vindo ao meu encontro. Quando acompanhado por ele entrei na sala da palestra, surgiu diante de mim um velho de longas barbas, tendo ao lado a mesma senhora que me fizera entrar na casa. Eu esperava um homem forte, alto, altivo, de bigode à Clemanceau e pince-nez. Assim minha imaginação o fazia, pelo retrato em busto que ele me enviara em 1915.

Ali estava porém um homem de estatura meã, delicado de corpo, de longas barbas brancas em flâmula de duas pontas, cabeça meio pendida para a frente e para o coração. Estendeu-me a destra com um sorriso acolhedor. Avancei comovido ao seu encontro. Foi estreito e afetuoso o amplexo que me deu. Lembro-me que meu coração batia fortemente e sua barba roçava meu rosto quando ele disse distintamente: – Mon cher ami! Antes e depois desse encontro ouvi de muitos lábios a mesma expressão de amizade tão comum na França. Nenhuma, entretanto, ficou gravada tão indelevelmente na minha lembrança. Sentado a seu lado depois das apresentações aos presentes, conversamos longamente. Era ele o mais indagador. Inquiria, perguntava, interpelava. Levou o assunto para a doutrina espírita no Brasil. Sua divulgação, seu caráter cristão, suas curas notáveis. Citou nomes amigos: Leopoldo Cirne, João Lourenço de Souza, Antonio Alves da Fonseca… Perguntou se Guillon Ribeiro descendia de franceses. Quando lhe disse que Depois da morte, traduzido por Lourenço Souza já estava no quinto milheiro, ele prontamente me retificou. Sabia bem quanto andava a edição de seus livros no Brasil, porque recebia exemplares toda vez que uma aparecia. Acrescentou que na França a 55ª edição já havia sido lançada e no prelo se encontrava a décima de O grande enigma.

– Estou agora fazendo a revisão das últimas páginas de O problema do ser [do destino e da dor]. Eu o arrumei, extraordinariamente, com um estudo retrospectivo de tudo quanto apareceu de Allan Kardec para cá. Espero ter sido quase completo.

– E tem em vista publicar alguma obra nova?

– Sim, se Deus me der vida. Trabalho em diversos assuntos. Terminei O Espiritismo e a arte, que será publicado seguidamente pela Revue Spirite. Estou agora escrevendo sobre o Espiritismo e o Socialismo.

– São assuntos palpitantes, que os brasileiros estimarão muitíssimo.

A admirável operosidade de Léon Denis

Verdadeiro apóstolo, nunca deixou de escrever, de falar, de propagar, de praticar. Trabalhou incessantemente até o fim. Para se ter uma ideia da sua operosidade, basta recordar o que foram seus últimos dias, sua derradeira semana. O inverno de 1927 foi muito rigoroso e Léon Denis quase não saía de casa. Quando o fazia, era para ir à tipografia.

Trabalhava pela manhã na coordenação e redação de seu novo livro: O gênio céltico e o mundo invisível, ansioso por terminá-lo. Ao entrar a primavera, começou a receber as primeiras provas, que sua secretária mademoiselle Baumard lia em voz alta e corrigia de acordo com ele. Com o pressentimento de estar próxima a sua passagem, exigia da secretária trabalho mais intenso e rápido.

Tenho pressa, explicava. Começaram, porém, os íntimos a perceber que ele decaía fisicamente. Georgette, quando o ajudava a mover-se dum ponto para outro, notava que estava mais lerdo, mais trêmulo, mais irritadiço.

Apesar de deitado, Denis continuou a ouvir a leitura das provas e a corrigi-las… No domingo, primeiro da semana santa, já ninguém duvidava do próximo desfecho. Respirava com dificuldade, gemia um pouquinho, tinha dores. Percebeu que estava desprendendo-se. Todavia procurava reanimar os que o rodeavam.

Falando com dificuldade, mas completando sempre o pensamento, pedia que a secretária andasse com o trabalho. Sua preocupação máxima era, contudo, o livro cujas provas ainda não estavam todas corrigidas. Por fim, a secretária declarou terminada a tarefa! Foi um alívio imenso para o doente.

Dois dias depois, na manhã de 12 de abril de 1927, Léon Denis começa a se desprender do corpo físico. Mademoiselle Baumard tem nas suas as mãos do agonizante, que não cessa de lhe dar recomendações… pelo futuro da doutrina espírita.

 Acervo Correio Fraterno – edição 129, setembro 1981 Em 19.10.2012.

 

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