Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Lembranças ativadas pelas perdas

julho/2021

Dentre as várias lições contidas na Parábola do Filho Pródigo[1], há aquela que emerge do momento em que o filho, esfomeado e no auge de seu sofrimento, lembra-se do pai, da sua generosidade para com os seus servos e decide voltar. Põe-se a caminho, com o coração amargurado, arrependido e esperançoso.

É a lição das lembranças ativadas pelas perdas, despertas pela dor.

Muitos de nós, em nossa história pessoal, temos páginas escritas com registros de comportamentos semelhantes ao do filho que pediu sua parte da herança divina, escolheu sair da proximidade do Pai e viver segundo os valores do mundo.

Tomamos os recursos que Deus nos concede: tempo, saúde, inteligência e outros, e fazemos da dádiva existencial uma jornada de desgaste físico, emocional, na busca de gozos e prazeres, em que o ter é o único objetivo; o consumismo nossa ocupação; alheios, distantes, cegos e surdos para as chamadas de Deus.

O Mestre Jesus enriquece nosso entendimento, ao afirmar, como alerta e aconselhamento2: Mas, tendo sido semeado, cresce.

Semeadura de ventos, colheita de tempestades.

O grande psicanalista Carl Jung afirmou, com sabedoria: Eu sou o que escolho me tornar.

Sementes de indiferença, colheita de vazio existencial.

A semeadura do Bem trará frutos de paz e felicidade.

Aprendemos que3 para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. E aprendemos também que há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou.

Por que esperar a chegada de uma crise, para se resolver por mudanças?

Que o mal chegue ao excesso, para compreender a necessidade do bem?

Pela perda de alguém, para descobrir e manifestar o sentimento de amor?

Perder alguma coisa, para vir a reconhecer seu valor?

Pela doença, para valorizar a saúde?

Que alguém implore ajuda, para então auxiliar?

Eu me porei a caminho e voltarei para meu pai, disse o filho, no extremo do seu sofrimento.

Por que não nos pormos a caminho, desde agora, quer visitados pela dor ou pela simples vontade?

Mesmo que não consigamos ver o caminho com clareza, ou tenhamos perdido o rastro daqueles que foram adiante, confiemos e vamos em frente! Sigamos para o novo, Deus porá o caminho certo sob nossos pés.

Nada é mais poderoso do que a determinação divina que nos criou fadados à felicidade.

 Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz; porventura, não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios, no ermo.4

Ainda dá tempo de escrevermos uma nova história pessoal.

Comecemos por ouvir o apóstolo Tiago, e aceitar a impermanência de tudo e de todos5: Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.

Em nossos planos futuros, não esqueçamos de que6 em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos.

Não queiramos servir a dois senhores, pois um não suportará o outro; nem plantemos dois tipos de semente em sua vinha; se o fizer, tanto a semente que plantar como o fruto da vinha estarão contaminados.7

Adotemos uma caminhada prudente, com a lembrança de que8: Há caminho que parece certo ao homem, mas no final conduz à morte. E mesmo no riso o coração pode sofrer, e a alegria pode terminar em tristeza.

Estejamos cientes de que a jornada é de redenção e pede aceitação. Tenhamos em mente as palavras do Apóstolo Paulo9: Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos.

Guardemos a fé. Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos.10

Pratiquemos a caridade, que é a nossa tábua da salvação.

O Espiritismo preconiza11: é dever fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.

Perseveremos, como recomenda Paulo12: Portanto levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes, e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que é manco não se desvie, antes seja curado.

Levantemo-nos e nos ponhamos a caminho, sem demora.

Agora é o nosso momento de decisão assertiva, corajosa, com determinação e fé inquebrantável.

Trabalho pelo bem maior, seja nosso lema.

Solidariedade para com todos, seja nossa disposição.

Tolerância com tudo, seja nossa atitude comum.

Jesus é o Caminho…, não percamos o rastro dele mais vezes!

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 15, vers. 11 a 32.

2 Op. cit. Marcos. cap. 4, vers. 32.

3 BÍBLIA, A. T. Eclesiastes. Português. O antigo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 3, vers. 1 a 8.

4 Op. cit. Isaías. cap. 43, vers. 19.

5 BÍBLIA, N. T. Tiago. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 4, vers. 14.

6 BÍBLIA, A. T. Provérbios. Português. O antigo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 16, vers. 9.

7 Op. cit. Deuteronômio. cap. 22, vers. 9.

8 Op. cit. Provérbios. cap. 14, vers. 12 e 13.

9 BÍBLIA, N. T. 2. Coríntios. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 4, vers. 8.

10 BÍBLIA, A. T. Salmos. Português. O antigo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 19, vers. 1.

11 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. I, q. 642.

12 BÍBLIA, N. T. Hebreus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 12, vers. 12 a 13.

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