Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

La Bayadère

janeiro/2015 - Por Maria Helena Marcon

Com música de Ludwig Minkus, coreografia de Marius Petipa, libreto de Marius Petita e Sergei Khudenov, o ballet La Bayadère teve estreia mundial em 1877, no Teatro Mariinsky de São Petersburgo.

O Ballet Bolshoi o apresentou em sua temporada 2014/2015, com interpretações excelentes de Svetlana Zakharova (Nikiya), Maria Alexandrova (Gamzatti) e Vladislav Lantratov (Solor), nos papéis principais. Como vem ocorrendo há cerca de cinco anos, a transmissão da temporada foi liberada para mais de mil salas de cinema, em todo o mundo, atraindo o público ávido pela arte, o belo.

La Bayadère conta a história do amor de um jovem guerreiro por uma bailarina do templo.

Eles se encontram secretamente e juram fidelidade diante do fogo sagrado. Entretanto, o sacerdote brâmane a deseja para si, propondo-lhe casamento, o que motiva Nikiya a empreender fuga com Solor. Como toda história de amor tem suas dificuldades que devem ser superadas, o guerreiro é chamado ao palácio do Rajá, que lhe oferece Gamzatti, sua filha, como esposa.

De início, ele reluta, pois, afinal, se comprometera afetivamente com a bailarina. Mas, cede, ao descobrir a beleza e os encantos da sua prometida, enquanto teme, ao mesmo tempo, desagradar o rajá.

As dores se sucedem. Nikiya se sente só e terrivelmente traída, pois que tudo deixara para trás, em nome de um amor que lhe jurara devoção e cuidados.

Na festa de noivado, embora a tristeza que a envolve, Nikiya deve dançar e o faz, demonstrando a dor que lhe atormenta a alma. Em meio à dança, é surpreendida pelo presente de uma bela cesta de flores, que ela imagina ser de Solor. Sua alma canta. Retornará o amado para ela, rompendo o noivado? Em extremo de alegria, ela estreita ao peito a corbélia e, então, uma serpente propositalmente ali colocada a morde no pescoço. Tudo fora armado por Gamzatti e seu pai, para destruir a rival.

Como sempre existe esperança, o sacerdote se apresenta com poderoso antídoto, a fim de salvar a vida da infeliz bailarina. Um vislumbre de esperança, entre a agonia da morte, passa pelos olhos dela, logo abandonado, ao descobrir que o guerreiro continua ao lado da noiva e desiste de tomar o antídoto, a fim de não ter que se consorciar, obrigatoriamente, com o sacerdote brâmane.

Somente então Solor se dá conta de que verdadeiramente amava Nikiya. A noiva era um sonho principesco e arrebatador, mas o amor verdadeiro era aquele, da bailarina do templo. O desespero o domina, suas noites são indormidas e ele deseja ardentemente um encontro com a sua amada. Revê-la, ouvi-la, abraçá-la inda uma vez.

É aqui que a maravilhosa peça artística nos remete a mais profundas reflexões. Quantas vezes, na vida, nos equivocamos quanto aos verdadeiros valores, ao que é realmente importante? Quantas vezes trocamos o aconchego dos amores pelas flores efêmeras do mundo, para, quando eles nos são retirados dos braços, de forma brusca, clamarmos por eles?

A história infeliz de Nikiya e Solor nos convida a olharmos para os nossos familiares, pais, irmãos, esposos, filhos com maior cuidado, entendendo que lhes devemos usufruir a companhia, os sorrisos, os abraços e tudo isso lhes devemos ofertar, enquanto a caminho estamos com eles.

Quando a morte chegar e os arrebatar, levando-os para a Espiritualidade, choraremos sobre seus túmulos, imploraremos que retornem pelas vias da mediunidade a fim de nos darem suas mensagens, esquecidos de que cerramos os ouvidos, tantas e tantas vezes, quando desejavam nos dizer das suas alegrias, das suas frustrações, do seu amor, dos seus mil nadas.

Quantas vezes teremos deixado de olhar nos olhos deles, porque os nossos estavam fixos em outras questões: no noticiário, na bolsa de valores, nas moedas a serem ganhas, em tolices do mundo que pareciam luzir, simplesmente luzir sem verdadeiro brilho?

Bem disse alguém, certa vez, que as lágrimas mais amargas, derramadas sobre as tumbas, são as do remorso. Ah, se eu soubesse que ele partiria tão cedo… Ah, se eu pudesse voltar no tempo… Ah, se eu pudesse…

Por isso, a grande lição é a de exercitar o amor, agora, enquanto estamos a caminho com nossos amados. Nada é mais importante do que o beijo do cônjuge, em plena surpresa, a qualquer hora do dia, o telefonema da filha, o sorriso do filho, os braços enamorados nos prendendo em amplexo demorado e carinhoso. Pensemos nisso.

Pensemos nisso a fim de que não tenhamos que chorar como Solor que, afinal, acaba por buscar poderosa droga para poder adormecer e adentrar o mundo dos sonhos.  Infeliz opção, a de se drogar, pois mais agride a vida, enquanto nada garante de que o que, eventualmente, se apresente à visão psíquica seja verdadeiro.

Contudo, na concepção do libreto de Marius Petipa, o guerreiro consegue chegar ao país das sombras, ou seja, à Espiritualidade, onde vive a sua amada e muitas outras almas.

O terceiro ato, portanto, do extraordinário ballet é lírico, uma peça quase divina, que mostra a vida espiritual em sua pujança. E, tal qual aprendemos na Doutrina Espírita, se ali há alegrias, também há tristezas porque o ser que morre não tem alterados os seus sentimentos, de imediato. Continua a ser e sentir tal qual na Terra. Se nada leva das coisas materiais, leva consigo tudo que é, o que fez, o que sente. Sua essência.

O guerreiro vê sua amada e, após esforços ingentes, consegue dela se aproximar. Um encontro marcado pela ansiedade. Até quando poderão ficar juntos? Até quando ela lhe dará o carinho que ele anseia? Quando tudo se haverá de desvanecer, como névoa, quando terminará o sonho?

O encontro, dessa forma, é de ternura, troca de vibrações amorosas, mas rápido, naturalmente. Logo, Nikiya se distancia e ele retorna, só e triste, ao corpo.

Quando assistimos ao ballet, fica como que em êxtase pela beleza da música, a leveza dos bailarinos, a técnica que dominam, o profissionalismo que os leva a interpretar cada ato demonstrando a emoção do personagem que interpretam: amor, alegria, tristeza, melancolia, abandono…

Mas, também nos estimula a pensar e pensar: até quando haveremos de esquecer o cultivo das verdadeiras afeições?

Com certeza, depois de repletar a alma com tanta musicalidade, leveza, primor, somos compelidos a uma viagem interior e, olhando para os que nos cercam, os abraçamos demorada e profundamente. Colocaremos nossos ouvidos em seu peito para ouvir o bater do coração, a fim de nunca esquecer o ritmo das batidas cardíacas dos nossos amados.

Buscaremos nossos filhos e os convidaremos a brincar, a sair, esquecidos dos papéis que nos esperam a assinatura, a decisão, a deliberação. Sim, façamos isso, hoje, agora, enquanto a vida nos permite as suas presenças.

Se, eventualmente, partirem antes de nós, que nossas lágrimas sejam somente de saudade de sua ausência física, jamais de remorso por não termos vivido intensamente ao seu lado, por não termos fotografado com a alma todas as nuances dos seus comportamentos, de suas preciosas existências.

E, então, a eles endereçaremos nossas preces e flores de carinho, translúcidas, orvalhadas com o pranto da nossa doce saudade, com a certeza de que logo mais nos haveremos de reencontrar, nas asas do sonho, durante a emancipação da alma ou quando nós mesmos fecharmos a nossa mala de viagem, prontos para demandarmos o Grande Além…

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