Jornal Mundo Espírita

Abril de 2021 Número 1641 Ano 89

Klaus

março/2021 - Por Maria Helena Marcon

A produção da Netflix, de uma forma lúdica, extremamente criativa, busca explicar como teria surgido a lenda do Papai Noel. Uma animação para crianças que, no entanto, traz profundos ensinos a pais, educadores e todos os que almejamos para nosso planeta alegrias e progresso.

Meio difícil de se imaginar o que um jovem rico, acostumado a ser servido, dormir em lençóis de seda, não desejar fazer nada na vida além de usufruir de regalias e mais regalias tem a ver com a vida de um carpinteiro, cujo sonho era ter uma casa com muitos filhos e, depois de anos e anos de espera, acabou sozinho, numa floresta gelada.

E como da parceria desses dois teria surgido o Papai Noel com seu trenó puxado por renas, voando nos céus e entregando presentes às crianças do mundo todo, descendo pelas chaminés das lareiras, enfrentando qualquer adversidade para trazer sorrisos aos rostos infantis.

A elaboração é de muita imaginação. Tudo tem início com o cadete Jesper, que depois de nove meses na Academia Real de Carteiros é chamado pelo pai rico e influente e, como castigo por sua preguiça e dolce far niente, recebe a penalidade de ir trabalhar como carteiro, em Smeerensburg, remota ilha localizada no Círculo Ártico.

Ele deverá conseguir o registro de seis mil cartas em um ano, caso contrário, será deserdado totalmente. Nada mais de carruagem, mansão, roupas caras, luxo de toda sorte.

A cidade é um campo de batalha, onde duas famílias, que nos lembram a tragédia dos Capuleto e Montechio em Romeu e Julieta, vivem a se digladiar. Das crianças aos mais idosos, o objetivo é, simplesmente, fazer maldades um para o outro, ferir e até matar.

A escola fechou, há muito tempo, ou melhor, por falta de alunos, a professora Alva transformou o local em uma peixaria, na tentativa de amealhar o suficiente para sair desse local horrível, cinzento, no qual a gentileza, a compreensão, a solidariedade há muito se evadiram.

A Agência dos Correios foi tomada por galinhas que ali estabeleceram o seu lar e não se consegue imaginar onde seja mais frio: fora, com a neve caindo ou dentro do barraco… com a neve entrando por todos os furos do teto e o vento uivando pelas frinchas das paredes.

Tudo vai de mal a pior. Quem escreveria para alguém num local assim? Se o desesperado carteiro pergunta algo, atiçam cães contra ele. Se tenta conseguir uma informação, encontra uma senhora terrível que sai de sua casa com a firme disposição de jogar toda sua sujeira na roupa do varal da vizinha.

Em local tão adverso, algo poderá ser feito? Como alguém preguiçoso, que só pensa em prazeres, poderá alcançar um objetivo?

Lembrando-nos das paixões infelizes de que somos portadores, recordamos1 que poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as más inclinações e frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes.

O esforço é lei da Vida e todos os seres sencientes, de uma forma ou outra, não se podem furtar à sua inexorabilidade.

O esforço expressa-se pelo trabalho aplicado em favor do crescimento pessoal, na busca dos altiplanos intelecto-morais da imortalidade.

Onde viceja, enfloresce a paz, e, no lugar no qual a ação movimenta o progresso, estua a alegria.2

É precisamente isso que Klaus transmite. Sempre há uma luz no fim do túnel, por mais escuro ou longo, ou estreito possa parecer.

Uma garotinha que tem seu desenho levado pelo vento desencadeia toda a transformação. Um desenho que a retrata, triste, fechada atrás de uma janela, que mais parece uma prisão.

Como isso vai parar nas mãos do carpinteiro, que tem sua casa cheia de brinquedos, feitos com carinho, ao longo dos anos, enquanto aguardava nascessem seus filhos, é uma trama que deixamos aos leitores o prazer da descoberta, assistindo a animação.

Mas, o fato daquela menina receber um presente em sua casa, se encher de alegria, passar a notícia a outras crianças, mesmo as das famílias inimigas, gerou uma enxurrada de cartas.

Deviam ser cartas tristes, segundo o carteiro, que retratassem desejos. E ele, com Klaus, o carpinteiro, passaram a satisfazer cada um dos desejos daqueles meninos e meninas.

O fato de Jesper espalhar a notícia de que somente crianças que fossem boazinhas teriam os seus pedidos atendidos, fez com que todas se transformassem. Os relatos, nas cartas, eram intensos e verdadeiros:

Ajudamos mamãe a lavar a roupa suja.

Limpei a clarineta do papai.

Meus irmãos e eu, em vez de roubar as frutas de dona Runa, as colhemos e levamos em uma cesta para ela. Dona Runa fez uma torta e trouxe para nossa mãe, que fez um doce e levou para ela.

Fora criada a corrente da gentileza. As armas foram desaparecendo, sendo substituídas por brinquedos. Os vizinhos passaram a falar, a se auxiliarem.

E a filosofia de Klaus era de que um ato gentil gera mais gentileza.

O gesto gentil é um passo para modificar, não poucas vezes, uma inimizade nascente, uma suspeita infundada, uma informação infeliz, uma inspiração negativa e abrir horizontes novos à melhor compreensão e a mais amplo descortino.3

A escola reviveu porque as crianças que não sabiam escrever precisaram ir aprender e Alva reviveu também. Investiu todo o dinheiro que guardara reformando o local, adquirindo o que era preciso para acolher as crianças e voltou a sentir prazer na arte de ensinar.

Ser professor é descobrir em cada aluno seu universo de potencialidades e ajudá-lo a desenvolvê-las. É muito mais do que passar teorias e conceitos. É edificar pelo próprio exemplo.

 É romper com os modelos ultrapassados de incutir na cabeça do educando fórmulas prontas. É incentivar a criatividade, permitindo o surgimento de mentes mais preparadas para a construção de um mundo novo, onde não haja lugar para o preconceito, para a hipocrisia, nem para a subjugação dos mais fracos.

 Ser professor é poder aplicar o amor na sua mais expressiva manifestação de sublimidade. É fazer brilhar no íntimo, de cada aluno, a chama sagrada que o Criador ali depositou.

 O nobre professor é abençoado maestro que consegue retirar dessa harpa viva, que é o coração da criança, a mais sublime musicalidade.

 Sabe dedilhar nas cordas mais sutis da alma juvenil, a canção do dever e da justiça. Consegue despertar nas almas que lhe ouvem os sábios conselhos, a mais harmoniosa melodia da esperança, da fé e do amor sem limites.4

Em poucos meses, a cidade deixara de ser absolutamente cinzenta. As casas foram arrumadas e quase todos passaram a colaborar uns com os outros. Surgiu o Clube do Livro, churrascos e cafezinhos como motivos para encontros e reencontros, enquanto era registrada, ainda, uma queda de 70% nos incêndios.

Os chefes dos clãs arquitetaram um plano para acabar com toda aquela alegria mas, seus próprios primogênitos, à semelhança de Romeu e Julieta, se apaixonam e, num final bem mais feliz do que o casal shakespeariano, eles se casam e saem em lua de mel.

Finalmente, ultrapassado em muito o que lhe fora imposto alcançar em doze meses, Jesper está livre para voltar para sua mansão, as mordomias, seus lençóis de seda. No entanto, ele resolve ficar. Ele descobrira a alegria de servir.

O Natal se aproximava e, com Klaus, precisavam, mais do que nunca, entregar presentes para todas as crianças.

Contudo, o estoque havia acabado. De uma forma surpreendente, imigrantes da Lapônia aderem ao projeto e se unem para criar novos e maravilhosos brinquedos.

A desencarnação de Klaus, doze anos depois, recebe uma concepção de verdadeira Imortalidade. Um vento leve sopra, ele o percebe, larga o machado, em plena floresta, e diz: Estou indo, querida.

O atestado do reencontro de almas que se amam, profundamente. É o momento de afogar a saudade nos braços do ser amado, que partira anos antes.

Nunca mais ninguém viu Klaus. Jesper procurou por ele por todos os lugares possíveis e impossíveis. Em vão.

No entanto, o que acontece é que uma vez ao ano, ele pode rever o amigo que vem no seu trenó, tocando sinos, puxado por cinco renas, voando pelos céus do mundo, para a gentil missão de entregar presentes a todas as crianças, detalhes todos cuja origem a animação apresenta.

Por não se tratar de nenhuma concepção religiosa, sequer menciona o verdadeiro sentido do Natal que, sabemos, é data da rememoração do nascimento de Jesus, o Rei Solar, nosso mais ilustre visitante.

Essa lembrança torna o mês de dezembro muito especial. O ar parece renovado, há doçura nos corações. De alguma forma, a mensagem do Celeste Aniversariante alcança as pessoas que se mostram mais aptas a dar, a dar-se.

Algumas, simplesmente lembram o bom velhinho, de barbas brancas, roupa vermelha, botas pretas, que presenteia a todos. Não deixa de ser uma mensagem de se importar com o outro, de desejar alegrar um rostinho de criança, uma face marcada pelo tempo…

Natal é sempre mensagem de renovação, de solidariedade, de gentileza e é isso que Klaus deseja transmitir, nessa concepção cinematográfica.

 

Ficha Técnica:

Klaus

Gênero: animação, comédia, fantasia, aventura

Direção: Sergio Pablos

Roteiro: Sergio Pablos, Zach Lewis, Jim Mahoney

Elenco:  J. K. Simmons, Rashida Jones, Joan Cusack, Jason Schwartzman, Mila Brener, Sydney Brower, Teddy Blum, Bailey Rae Fenderson, Tucker Meek

Produção: Szymon Biernacki, Marcin Jakubowski

Trilha Sonora: Alfonso González Aguilar

Duração: 96 minutos

Ano: 2019

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. XII, q. 909.

2 FRANCO, Divaldo Pereira. Perfis da vida. Pelo Espírito Guaracy Paraná Vieira. Salvador: LEAL, 1992. cap. 13.

3 ______. Celeiro de bênçãos. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1974. cap. 53.

  1. SITE MOMENTO ESPÍRITA. Ser professor. Disponível em: momento.com.br.
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