Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Kardec, o filme

julho/2019 - Por Andrey Cechelero

Pergunta (à Verdade)

Bom Espírito, eu desejara saber o que pensas da missão que alguns Espíritos me assinaram. Dize-me, peço-te, se é uma prova para o meu amor-próprio. Tenho, como sabes, o maior desejo de contribuir para a propagação da verdade, mas, do papel de simples trabalhador ao de missionário em chefe, a distância é grande e não percebo o que possa justificar em mim graça tal, de preferência a tantos outros que possuem talento e qualidades de que não disponho.

Resposta

Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te muita discrição, se quiseres sair-te bem. Tomarás mais tarde conhecimento de coisas que te explicarão o que ora te surpreende. Não esqueças que podes triunfar, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem. Nunca, pois, fales da tua missão; seria a maneira de a fazeres malograr-se. Ela somente pode justificar-se pela obra realizada e tu ainda nada fizeste. Se a cumprires, os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore.[1]

Um dos grandes louvores do filme de Wagner de Assis, que estreou no Brasil, em 16 de maio de 2019, foi mostrar claramente o papel fundamental de Hippolyte Léon Denizard Rivail para o Espiritismo.

Alimentamo-nos hoje dos frutos dessa árvore tão bem plantada por esse estudioso, pedagogo e professor francês do século XIX.

Hippolyte estudou na escola de Pestalozzi, instituição de vanguarda da época, que apresentava um modelo de ensino baseado sobretudo no afeto e nas relações.

Publicou obras importantes sobre educação e foi o divulgador do método de Johann Heinrich Pestalozzi, na Europa.

Ao se deparar com os fenômenos das mesas girantes, que divertiam os salões europeus, mostrou-se inteligentemente cético, dizendo que só acreditaria se visse o fenômeno, pois seria um absurdo atribuir uma inteligência a uma coisa puramente material. Estava convencido de que, por trás das mesas que se erguiam do chão e se moviam em todas as direções, encontraria fios, ímãs ou roldanas.

Só acreditarei se me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar e nervos para sentir.

Em maio de 1855, Rivail saiu da casa da senhora Plainemaison completamente atordoado. Não conseguira desvendar, por meio de truques secretos ou traquitanas escondidas, o sobe e desce das mesas. Mesmo assim, não desistiu. Passou a investigar outro fenômeno, ainda mais intrigante: os cestos escreventes. Encaixado no fundo do cesto, com a ponta virada para baixo, um lápis respondia às perguntas formuladas pelos convidados em folhas de papel.

Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Assisti então a alguns ensaios, muito imperfeitos, de escrita mediúnica numa ardósia, com o auxílio de uma cesta. Minhas ideias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessariamente decorria de uma causa. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.[2]

Kardec, A História por trás do nome, também traz outros méritos. Um deles é conseguir nos aproximar mais do homem Hippolyte. A atuação de Leonardo Medeiros é competente e certamente foi inspirada pela Espiritualidade Superior, uma vez que uma obra cinematográfica como essa tem importância grandiosa para a divulgação da Doutrina Espírita.

Eu lembro que eu estava andando, como personagem, filmando, e passei por um reflexo meu. Aí eu olhei e vi o Kardec. Quer dizer, filmando, em cena, tinha ali a figura dele. E por isso eu fiquei muito tranquilo. (Leonardo Medeiros, ator)

O filme igualmente destaca a figura de Amélie Gabrielle Boudet (Sandra Corveloni), dedicada esposa de Kardec.

(…) minha mulher (…) concordou plenamente com meus pontos de vista e me secundou na tarefa laboriosa, como o faz ainda, por um trabalho por vezes acima de suas forças, sacrificando, sem pesar, os prazeres e distrações do mundo, aos quais sua posição de família a tinham habituado.[3]

Por fim, o roteiro fez questão de apresentar a humildade de Allan Kardec, que estava ciente de que a Doutrina era maior do que ele, e que ele era apenas mais um instrumento nas mãos da Espiritualidade Superior.

A Doutrina dos Espíritos foi um trabalho em conjunto. De um lado, Espíritos de escol que apresentaram verdades, lições, com muita propriedade. De outro, um cientista, um estudioso, que utilizou método sério para começar a compreender melhor a existência de um mundo além de nosso mundo, uma realidade além da nossa própria.

Que Allan Kardec possa ser lembrado e respeitado em todo mundo. Que a sétima arte e seus excelentes representantes, possam perceber que os conteúdos, histórias e ideias do Espiritismo são temas riquíssimos a serem levados às telas do planeta.

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 39. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Minha missão – 12 de junho de 1856 (Em casa do Sr. C….; médium: Srta. Aline C….).

2 Op. cit. cap. A minha primeira iniciação no Espiritismo.

3 KARDEC, AllanRevista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos. Ano VII, v. 6, julho 1865. São Paulo: EDICEL, 1966. Relatório da caixa do Espiritismo.

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