Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2019 Número 1615 Ano 86

Kardec inventor?

Parte II (Final)

fevereiro/2019 - Por Adriano Calsone

Consta no Annuaire général du commerce, edições de 1851, 52 e 53, o sobrenome Rivail como homme de lettres (homem de letras), cujo endereço profissional aponta nesta época para boulevard Saint-Martin, 18 – exatamente o Théâtre de La Porte Saint-Martin – outro possível local de trabalho do professor até, pelo menos 1854, segundo indica esse Anuário. Atuando como contador a partir dessa data, ele trabalharia ainda para a livraria eclesiástica do católico ultramontano, Sr. J. B. Pélagaud et Cie.

Todavia, o seu instinto natural de empreendedor ressurgiu em curioso estilo no decorrer do ano de 1853. Eis que no segundo semestre, Rivail,  com seus 49 anos de idade, se dirigiu à Secretaria da Prefeitura do Departamento do Sena, em Paris, subordinada então ao Ministério da Agricultura, do Comércio e dos Trabalhos Públicos, para requerer um brevet d’invention de quinze ans, ou seja, uma patente de invenção de quinze anos.

Ele havia inventado (ou aprimorado) um curioso cuvette-siphon mobile, em tradução livre, um vaso-sifão móvel para utilização residencial ou aplicação nas ruas das cidades francesas. Parte da explicação do que seria exatamente isso está no início da minuta manuscrita de requisição, redigida sinteticamente com a habitual concisão do professor: uma aplicação móvel com tubos de vidro para o escoamento das águas residuais domésticas (…). Um engenhoso vaso-sifão móvel, de fabricação industrial, com a utilização de tubos de vidro.

A descrição integral de sua patente fora, de fato, registrada num Catálogo de patentes de invenção, de importação e de desenvolvimento1, tendo validade oficial a partir de 24 de outubro de 1853. E como rezava o título do documento, a patente deveria perdurar resguardada para ele por 15 anos, prazo que chegaria até 1868 – exatos cinco meses antes da sua desencarnação.

(…) O conteúdo ímpar desse documento histórico traduz o quanto Rivail possuía conhecimentos técnicos (também) de engenharia civil, além da prática de montagem, teste e manutenção de dispositivos industriais bastante complexos para a época. Assim, dirá no início de seu texto de apresentação e defesa de sua mais nova invenção para ambientes domésticos e urbanos:

Depois de ter estudado como são os diferentes dispositivos utilizados até o momento para a drenagem de águas domésticas e pluviais no esgoto, como foi ordenado por decreto de março de 1852, observo que muitos desses não conseguem escoar dignamente as emanações pútridas advindas do esgoto, nem previnem suas próprias emanações contra a infecção das habitações (…).

(…) É possível acreditarmos que ele se interessou pelo universo hidráulico da engenharia civil, por conta, talvez, de uma oportunidade por decreto-lei que se abria no campo comercial a partir do aprimoramento maciço dos sistemas urbanos de saneamento parisiense que já existiam, porém, historicamente funcionando mal. O referido decreto, de 26 de março de 18522 , estabelece em seu artigo sexto, por exemplo, que toda construção nova em uma rua com rede de esgoto deverá estar disposta de maneira a transportar água da chuva e água da casa. A mesma disposição será feita para toda casa antiga em caso de grandes reparos e, em todos os casos, antes de dez anos. Diante desse artigo de decreto que abria muitas oportunidades comerciais em larga escala, continuará Rivail em suas explicações:

Na verdade, a água que esses dispositivos ou tubos são obrigados a conter, sempre ao nível do aterro, requer muito trabalho para ser renovada e um cuidado é sempre negligenciado quando as pessoas são chamadas a tal serviço (…).

No pormenor abaixo, Rivail tenta convencer os examinadores da patente de que o seu dispositivo é bastante confiável e, acima de tudo, funcionará com muito mais eficiência e praticidade que os já existentes no velho mercado parisiense:

Com o sistema que eu proponho, este grave inconveniente é completamente eliminado, já que basta levantar meu dispositivo, que chamarei de vaso-sifão móvel, para despejar seu conteúdo instantaneamente. (…)

Possível crer que um dia a sua esposa, senhora Rivail (nessa época com 57 anos de idade), na posição de dona de casa, possa ter passado por algum perrengue doméstico ao constatar que o sistema externo de vazão de esgotos, comandado por um caquético sifão, possa ter entupido, tendo o marido Rivail a tarefa indesejada de solicitar ajuda para realizar uma rápida vistoria e substituição de peças hidráulicas pesadas, quebradas e malcheirosas do sistema residencial, também para evitar o aparecimento de bichos que costumam escalar o interior de tubulações pútridas. Prosseguirá o detalhista pesquisador Rivail:

Esta água pode então ser renovada quantas vezes desejar, sem o menor problema; além disso, utilizo para o conduto tubo de vidro, e o meu oferecerá os mesmos benefícios que o ferro fundido quanto à força e solidez, além de ter a grande vantagem de não oxidar (…)3.

Assim, solicito uma patente de invenção para o sistema de vasos que apresento aos senhores, com a aplicação de tubos de vidro para a condução de águas domésticas e pluviais nas casas e nas propriedades, em substituição aos de ferro fundido, utilizados até a presente data (…).

Na fala anterior, fica claro que a inovação de sua invenção está concentrada na mobilidade, na proteção residencial, na facilidade de limpeza, acima de tudo, focada na aceitação e no sucesso do novo material sugerido: o vidro espesso para tubulações. É evidente que não havia pretensão da parte do professor em apresentar um vaso-sifão revolucionário ou mesmo salvador, mas sabemos hoje pelos recorrentes vazamentos em vias públicas, o quanto é comum as tubulações de ferro fundido oxidarem, entupindo desastrosamente encanamentos que escoam águas domésticas cinzentas ou mesmo as das chuvas, isso sem falarmos nos desperdícios dantescos.

Dessa forma, Rivail recheia a minuta da apresentação de seu invento com os diferenciais de um dispositivo móvel que será acoplado a uma tubulação de vidro principal, o que deve, certamente, ter sido a funcionalidade mais chamativa à aprovação de sua invenção junto às autoridades francesas.

A seguir, fecha suas explicações ilustrando as partes que compõem o seu engenhoso vaso-sifão. Dizemos ilustrando porque depois de muitas buscas e expectativas, localizaram-se4 em França os desenhos técnicos das peças e dos conjuntos montados, tudo em minúcias. Certamente, uma grande alegria faz-se entre nós, pesquisadores espíritas, ao desvendarmos um Rivail inventor, além de conhecermos as suas habilidades técnicas/argumentativas e, porque não, as de um desenhista técnico nato. (…)

Embora a esquematização fique difícil de ser visualizada por descrição (vide as ilustrações ), é compreensível que Rivail detalhe e reformule um novo conceito de vaso-sifão doméstico ou de utilização urbana, coletiva, especialmente pela engenhosidade das partes móveis e a coragem em sugerir a utilização de tubos fabricados em vidro, certamente uma novidade à época, já que a cerâmica e o ferro fundido eram pontos pacíficos quando se falava em material seguro e confiável para a confecção de tubulações industriais em todo o mundo.

O Professor Rivail seguirá descrevendo o seu neo-sistema de tubo-sifão móvel, agora por meio das indicações de letras, linhas e pontilhados em seus desenhos-ilustrações. Nesse momento mais descritivo, técnico por assim dizer, nota-se o zelo do inventor em deixar que apenas águas cinzentas (as dos esgotos domésticos) e as pluviais passem pelo seu gigante vaso – o coração pulsante de sua patente. Por conta disso, ele teve o cuidado de relatar as providências que tomara ao bloqueio da passagem de um animalzinho peludo para lá de indesejado em todas as épocas da Humanidade, muito mais temível que as águas pútridas ou os odores provenientes do esgoto parisiense.(…)

E o arremate da descrição técnica de sua invenção, estabelecendo as montagens e as medidas propostas, surge por meio de detalhamentos precisos de um cientista que fora e que lhe valeram, por fim, o direito à construção e à fabricação desse novo aparelho, que não sabemos se fora comercializado como produto comercial em terras francesas. (…)

O que se sabe mesmo é que a inquieta Paris estava em obras frenéticas no decorrer de 1853, completamente empoeirada, barulhenta, barrenta, com seus encanamentos à vista. Tudo porque a Cidade-Luz amargou um passado obscuro, mas que não desejava ver se repetir: a grande epidemia de cólera de 1832, que desempenhou um papel desencadeante de atitudes governamentais urgentes. Pela primeira vez, desde o período romano, Paris passa a realizar uma grandiosa operação de saneamento básico. As redes de esgotos da capital eram ainda muito escassas no início do século XIX: menos de 50 quilômetros contra os mais de dois mil no final do século XX.

A nossa iniciativa em resgatar integralmente esta inimaginável vertente de inventor do professor Rivail só foi possível graças ao incentivo da Dra. Nadja do Couto Valle, além do apoio de nossos Amigos Espirituais, por terem nos inspirado nessa tarefa de investigação que se apresentou (quase) impossível em terras tricolores.

Referências:

1 Description des machines et procédés pour lesquels des brevets d’invention ont été prissous le régime de la loi du 5 juillet 1844, volume 32, p. 221. A descrição de Rivail pode ser conferida na íntegra, também em francês, no seguinte documento: <http://bit.ly/2n56dP3>

2 Disponível em:<http://bit.ly/218rMG0>

3 Os materiais utilizados para a confecção desses dispositivos de transporte de líquidos domésticos, como é o caso desse vaso-sifão móvel, de vidro, do professor Rivail, sofreram modificações importantes no início do século XX. Tudo por conta da criação do aço inoxidável (liga de ferro e crômio), trazida por Harry Brearley, a partir de 1912. Uma verdadeira e maravilhosa revolução material, presente até os dias atuais.

4 Os desenhos técnicos aqui apresentados foram localizados no segundo semestre de 2017, no Instituto Nacional de Propriedade Industrial da França, por duas grandes mulheres espíritas, as brasileiras Profª Dra. Nadja do Couto Valle – Mestre em Educação, Doutora em Filosofia, editora da Revista Cultura Espírita, do Instituto de Cultura Espírita do Brasil; e Claudia Bonmartin, residente na França, onde fundou há 44 anos o Centre d’Études Spirites Allan Kardec, pelo qual ainda é responsável.

Extrato da Revista Cultura Espírita, do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, edição especial de março de 2018, nº 108, ano VIII

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