Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2019 Número 1614 Ano 86

Kardec Inventor?

janeiro/2019 - Por Adriano Calsone

Parte I

Em fevereiro de 1828, um periódico francês chamado Journal des Débats Politiques et Littéraires trouxe inusitado título de matéria: Institution de M. Rivail.

O jornalista relata que o tal educador Rivail, como aluno de Pestalozzi e autor de um tratado de aritmética, método adotado por instituições na França e no Exterior, educava jovens com hábitos viciosos. E o precioso texto segue preciso, revelando-nos uma curiosa vocação do então Hippolyte Léon Denizard Rivail que, décadas depois, adotaria o pseudônimo de Allan Kardec:

(…) Os hábitos viciosos a que os jovens se entregam, muitas vezes, despertam, com razão, a preocupação dos pais. Como é que nós não vemos em nossas crianças, que deram as mais belas esperanças, a possibilidade de perecerem miseravelmente na flor da idade, ou logo perderem as poucas faculdades que a natureza havia dotado de fato!

Senhor Rivail, com uma experiência de dez anos na carreira da educação, no ensino e estudo constantes da infância, colocou a sua experiência diante dessas muitas causas que dão origem aos vícios, criando, assim, um conjunto de métodos educacionais para prevenir esses hábitos e destruí-los, claro, se isso for possível. Tais métodos, até agora, nós ainda não vimos em qualquer lugar. Ele garante sucesso se devidamente apoiado pelos pais. Para atingir este objetivo com mais segurança, senhor Rivail não recebe as crianças senão depois dos doze ou treze anos. Elas poderão completar totalmente a sua educação nessa Instituição, recebendo uma instrução variada e profunda para ambos os sexos. As línguas vivas são parte da instrução e não são pagas à parte. O seu plano de estudo é bem amplo para atingir tais objetivos… (Journal des Débats Politiques et Littéraires, 27 de fevereiro de 1828, p.4, primeira coluna)1

O supracitado artigo sugere que o professor Rivail, ao lado de sua companheira Amélie Gabrielle Boudet (que mais tarde ficará conhecida por Madame Kardec), demonstrava vocação para inventar métodos educacionais (também) para jovens problemáticos, sendo que a Institution de M. Rivail dispunha de aporte pedagógico para atender tal público.

A Senhora Rivail veria, com grande pesar, o fechamento gradativo dessa importante instituição de ensino fundada pelo seu amado esposo. A Institution Rivail, que seguia o arrojado método de ensino do mestre Pestalozzi, representava um grande holofote aceso à restauração de jovens franceses, fossem eles problemáticos ou não.

Mas, desde a fase de funcionamento do Lycée Polymathique (a partir de 1835) como segunda instituição de ensino criada por Rivail, o mesmo vinha demonstrando na prática habilidades não apenas como nobre educador, mas também como inventor parisiense. Por conta de sua inteligência e engenhosidade aplicadas à educação, ele sempre se encontrava desejoso de criar recursos pedagógicos novos, originais, para benefício comunitário. O aplicado chef d’institution, ao lado de sua companheira inseparável, continuava lecionando, com afinco, matérias científicas como a matemática e a astronomia por meio de cursos públicos bissemanais. Em paralelo, Rivail seguia pensando em novas maneiras de aperfeiçoar a aplicação de seus métodos educacionais. A fim de obter melhor rendimento de seus alunos do Lycée, ele chegou a inventar habilidoso método de calcular, além de um quadro mnemônico da história da França que facilitava a memorização de datas e acontecimentos relevantes.

Em verdade, bem antes do casamento dos Rivail (1832), era possível observar no pós-adolescente Denizard uma acuidade investigativa bastante singular e de característica não menos multidisciplinar. Desde a sua chegada a Paris, vindo gloriosamente da Suíça onde está localizado o Instituto de Yverdon, à época de propriedade de um educador suíço revolucionário conhecido por Johann Heinrich Pestalozzi, o jovem lionês passou a exercer o magistério e a se inteirar dos intelectuais de seu meio.

Institution de Pestalozzi: a gênese da criatividade

No prefácio da obra The spirits’ book, tradução da espírita Anna Blackwell, exatamente no terceiro parágrafo há a menção de que o pré-adolescente  Rivail fora educado na instituição de Pestalozzi (Cantão de Vaud), adquirindo, em uma idade precoce, o hábito da investigação e da liberdade de pensamento de que sua vida, mais tarde, foi destinada a fornecer tão marcante exemplo2, como bem registra a tradutora espírita mais importante do século XIX. Logo, a seguir, no mesmo parágrafo, Blackwell nos descreve um menino Rivail com duas personalidades ímpares: a primeira, de pesquisador botânico; a segunda, de engajado humanista, aquele que sempre se encontrava disposto a ajudar o próximo, como, de fato, fez Rivail-Kardec repetidamente em sua vida por meio de infinitos gestos de caridade em seu dia a dia. Eis as impressões de Miss Blackwell sobre essa dupla persona dentro de um inquieto Rivail:

Dotado de uma paixão pelo ensino, ele dedicou-se, a partir dos quatorze anos de idade, a ajudar seus colegas de escola que estavam menos avançados nos estudos do que ele; tal era a sua predileção por botânica que, muitas vezes, ele passava um dia inteiro entre as montanhas, andando vinte ou trinta milhas com uma carteira no bolso, em busca de espécimes para o seu herbário. (…)3

Curiosidades à parte, se convertermos essas milhas para os nossos quilômetros, teremos de 32 a 48 km percorridos por dia – uma trajetória incrível para um Rivail perscrutador com seus quatorze anos de idade. Sabemos ainda que Rivail naturalista realizava essas longas caminhadas botânicas sempre acompanhado por jovens tutores, sob responsabilidade direta do próprio Pestalozzi. Os portões do castelo de Zähringen que resguardavam o Instituto Pestalozzi, não tinham zelador ou qualquer outro impedimento de saída, o que trazia a possibilidade da prática livre da ginástica e da jardinagem em qualquer local desejado, como também da natação no lago Neuchâtel – liberdades educativas distribuídas pelas dez horas de atividades escolares diárias. Assim, imaginemos os campos e relvas multicolores, lagos límpidos, pássaros, insetos e flores de várias espécies que o pré-adolescente Rivail pôde colecionar pelos seus livres caminhos, caminhos livres forjados de inventividades juvenis.

Paris innovant

Passados os anos e já estabelecido definitivamente em Paris, o institutor Rivail vinha preparando o seu primeiro livro didático e, em fevereiro de 1823, publicou Cours pratique et théorique d’arithmétique, d’après la méthode de Pestalozzi, avec des modifications (Curso prático e teórico de aritmética, do método de Pestalozzi, com algumas modificações). Na capa, é possível ler bem estampado: H. L. D. Rivail. E o mais especial: disciple de Pestalozzi.

Em meados de 1825, o jovem Rivail, empenhado professor de vinte e um anos de idade, já havia fundado, por conta própria em Paris, o seu primeiro pensionnat de jeunes gens (pensionato de jovens) voltado ao ensino laico: a Escola de Primeiro Grau, à rue Richer, nº 9. Porém, as escolas congreganistas, como as dos Irmãos das Escolas Cristãs, contribuíram para a breve extinção dessa iniciativa educacional do insistente institutor Rivail. Sem perder tempo, em 1826, ele inaugurou uma segunda escola nos moldes pestalozzianos, mas com modificações: a Institution Rivail. Um jovem inquieto que não cessava de criar e recriar…

Dois anos antes de seu casamento, exatamente em fevereiro de 1830, Rivail realizou uma tradução  –  de peso  – para o alemão, sob o título de Les Trois Premiers Livres de Télémaque (Os Três Primeiros Livros de Telêmaco). O resultado de seu refinado trabalho contou com a tradução literal dos dois primeiros livros e o texto em francês e alemão do terceiro, com notas sobre as raízes das palavras, seguidas de um compêndio de fórmulas gramaticais e de uma tabela de verbos irregulares, tudo para uso dos educadores.

No ano seguinte, a Academia de Arras (a 180 km de Paris) ou Sociedade Real de Ciências, de Letras e de Artes de Arras abriu mais uma edição de seus famosos concursos anuais, que visavam premiar os melhores artigos acadêmicos e científicos, seja nas áreas das ciências, seja das letras ou das artes. O Professor Rivail, como membro dessa Academia, decidiu se inscrever na edição do concurso, especificamente nas categorias Educação e Ensino – suas especialidades.

Submeteria, aos examinadores desse concurso, um longo artigo com trinta páginas, cujo título era, ao mesmo tempo, uma difícil pergunta que tentava responder: Quais são as modificações úteis e fáceis para introduzir no ensino atual das escolas, a fim de colocá-las mais de acordo com o estado da civilização e as necessidades da época?4

Em dezembro, viria a resposta e o efeito que o seu artigo causaria num tal Sr. Leducq – o principal juiz da concorrida competição. Eis o resultado do exame: o chef d’institution à

Paris,  professor  M. Rivail teve a sua ouvrage couronné, ou melhor, o seu trabalho coroado em primeiro lugar com uma medalha de ouro no valor de duzentos francos.

Esse artigo e sua premiação – que ajudaram a tornar os trabalhos educacionais do professor que se seguiram ainda mais reconhecidos na França – viraram notícia nas edições das Memórias da Academia de Arras, publicadas em junho de 1832, livros esses que permanecem preservados até os dias de hoje, o que nos permitiu fazer essa menção mais que especial.

Assim, de 1828 a 1849, pelo menos mais oito obras pedagógicas seriam publicadas pelo institutor Rivail. E como professor meticuloso e criativo, ao passar dos anos, não tardou a completar mais de vinte livros escritos e publicados, trabalhos dignos destinados à educação dos franceses. Empenhar-se-ia, assim, de corpo e alma, na instrução de um sem número de crianças e jovens do seu amado País.

 

Referências:

1 http://bit.ly/2tvdxXZ

2 BLACKWELL, Anna. The spirit’s book. Boston: Colby and Rich, Publishers, 1893, p. 9. Na biblioteca digital da Universidade de Harward (http:// library.harvard.edu/) há uma expressiva quantidade de documentos e fotos de Anna Blackwell, assim como de sua (grande) família Blackwell.

3 Op. cit. p. 9-10.

4 Mémoires de l’Académie d’Arras. Société Royale des Sciences, des Lettres et des Arts. Arras, 1831, p. 68. O artigo de Rivail pode ser lido, em francês, na íntegra: http://bit.ly/2moVEn4.

Extrato da Revista Cultura Espírita, do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, edição especial de março de 2018, nº 108, ano VIII.

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