Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Joaquim Carlos Travassos, o tradutor da luz

Mary Ishiyama

outubro/2020

Como espíritas, hoje, não enfrentamos embates com classes dominantes, as barreiras idiomáticas caíram por terra, temos fácil acesso a informações. As facilidades são tantas que nos tornamos indiferentes aos homens que nos antecederam, aos quais devemos muito. Joaquim Carlos Travassos é um desses homens.

O Espírito Ismael assinala que o Brasil tem a missão de cristianizar. É a Terra da Promissão. A Terra de todos. A Terra da fraternidade. A Terra de Jesus. A Terra do Evangelho.4

Para que isso se concretize são precisos homens de coragem, de grande cultura, de caráter e moral. Que não se acomodem diante de tarefas como a de apresentar uma Doutrina nascente a um povo de pouca cultura e com difícil acesso a livros de línguas estrangeiras.

Joaquim Carlos Travassos nasceu na Fazenda da Longa, Angra dos Reis, filho de Pedro José Travassos e Emília Rita Travassos. Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1862, se casou com Maria Antônia de Oliveira com quem teve duas filhas.

Sua esposa desencarnou em grave acidente. Travassos, completamente arrasado, entrega as duas filhas para sua cunhada, e vai servir como cirurgião do exército na Guerra do Paraguai, em 1867. Após relevantes serviços prestados, em 1869, volta ao Brasil.

Vai ao encontro das filhas e da cunhada Mafalda, com quem se casa e tem uma filha. Mudam-se para Santos, abre uma clínica. A vida seguia seu curso com tranquilidade e segurança mas os grandes missionários são provados, de forma constante. Uma epidemia de varíola retira-lhe do mundo a esposa.

Tempos depois, uma das filhas do primeiro casamento também desencarna. Católico por tradição familiar, as tantas indagações que lhe fervilham na mente não encontram adequada resposta.

Não se sabe quando ele conheceu o Espiritismo mas aceitou as ideias espíritas quando se achavam traduzidos para o português somente os opúsculos O Espiritismo na sua expressão mais simples (1863) e Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita.

A primeira edição de O Livro dos Espíritos se deu em Paris, em 1857. Mas, no Brasil se tinha ideia dos fenômenos das mesas girantes, desde 1853. Os médicos homeopatas estudavam, pesquisavam e experimentavam o magnetismo através do passe.

Ao chegar no Brasil O Livro dos Espíritos, em francês, havia campo para sua semeadura. A partir de 1865, surgem os primeiros centros espíritas, no formato indicado por Kardec. Na Bahia, o Grupo Familiar do Espiritismo. Em 1869, é editado O Eco d’Além-Túmulo, em Salvador. Em 1873, funda-se, na mesma cidade, a Associação Espírita Brasileira, continuação do Grupo Familiar do Espiritismo. A 2 de agosto de 1873 é fundada a Sociedade Grupo Confúcio, primeira entidade jurídica do Espiritismo no Brasil, com estatutos impressos, amplamente noticiada na imprensa nacional e estrangeira.1

Nesse grupo, que durou apenas três anos, Joaquim Carlos Travassos foi o secretário geral e realizou uma obra magistral.

Ele era um homem estudioso, conhecia profundamente as línguas inglesa e francesa. Percebeu que muitos grupos espíritas estavam se formando e havia a necessidade de informações seguras. Poucos dominavam o idioma francês e mesmo os que o conheciam, tinham entendimento equivocado dos ensinos. O Grupo Confúcio achou importante ter tradução segura dos livros da Codificação Espírita para o português.

A Travassos coube realizar essa tarefa. Traduziu O Livro dos Espíritos, da 20ª edição francesa; O Livro dos Médiuns (1875), da 12ª edição francesa; O Céu e o Inferno (1875), da 4ª edição francesa; O Evangelho segundo o Espiritismo (1876), da 16ª edição francesa.

Apenas na tradução de O Livro dos Espíritos usou o pseudônimo Fortúnio. Nos demais, sequer se identificou. Era um homem que não precisava de aplausos.

Algo também importante que a ele devemos é ter apresentado a Doutrina Espírita a Bezerra de Menezes, de quem era grande admirador e com o qual trabalhou  atendendo aos pobres, aos quais como seu mentor, muitas vezes deu o pouco que tinha ao invés deles receber. Travassos presentou Bezerra com sua tradução de O Livro dos Espíritos.

Joaquim Carlos Travassos desencarnou em 1915 com sua parte da missão cumprida de tornar o Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho.

 

Referências:

  1. SOUZA, Juvanir Borges de. Primórdios do Movimento Espírita no Brasil. Reformador, ano 118, n. 2053, abr. 2000.
  2. WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. Rio de Janeiro: FEB, 1981. Joaquim Carlos Travassos.
  3. http://www.mundoespirita.com.br/?materia=dois-tradutores-de-o-livro-dos-espiritos
  4. http://www.mundoespirita.com.br/?materia=encontro-dos-dirigentes-espiritas
  5. https://www.youtube.com/watch?v=YnNtOuh_sr0&t=101s
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