Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

Jesus e o mundo

dezembro/2016 - Por Rogério Coelho

Nestes dias tormentosos, em que o escalracho moral medra em quase todos os nichos da atividade humana, criando bolsões de dores e escarcéus, em que o senso de honradez perdeu o endereço de Deus, observamos os quadros deprimentes que imperam, como se a Terra fosse um barco à matroca, vergastado pelas ondas gigantes das aflições que a impulsionam na direção dos arrecifes.

Sem embargo, Jesus está no leme e os Seus Prepostos, incansáveis, lúcidos e atentos, enviam farta messe de recursos, que se multiplicam como bálsamos consoladores, como bússolas que indicam a direção correta e segura em meio às procelas.

É superlativa a carência de paz e harmonia nos corações humanos, e por isso é sempre útil recapitular os pensamentos norteadores dos Amigos Espirituais de hoje, esparzidos nos livros espíritas, que nos estimulam a encontrar os recursos morais para fazer frente aos quadros tenebrosos de misérias do mundo em que vivemos, municiando-nos adequadamente para uma travessia segura nas tredas sendas humanas.

Dentro da planificação divina para a emancipação das criaturas, a Doutrina Espírita se ergue como farol incomparável, mostrando a melhor maneira de se alcançar o porto seguro da paz e da harmonia.

Quando Jesus afirmou que cada dia carrega sua preocupação[1], Ele estava nos convidando a não permanecermos atolados no passado e tampouco apreensivos com relação ao futuro, lecionando imorredoura confiança no Pai Celestial que nunca nos deixará órfãos de Sua Bondade e Misericórdia incomensuráveis.

Estes são dias de trevas, em que tudo conspira contra a paz e a harmonia, dias de rapina e agressividade, repletados de miséria e dor, conforme assinala Joanna de Ângelis[2], que completa: A fauce hiante das guerras sucessivas devora os homens e as nações que lhes tombam inermes.

Enxameiam o ódio e a traição apequenando as criaturas estigmatizadas pela volúpia das ambições desmedidas, na caça ilusória do prazer e do poder…

Mas Jesus é a divina e sempiterna lâmpada acesa a nos mostrar o tempo todo o melhor roteiro a seguir.

Ainda segundo Joanna de Ângelis[3], são duas as opções diante do ser humano. O mundo e Jesus! O primeiro agrada, é devorador, envolve e passa rápido. A sua existência é irreal, embora necessária para o desenvolvimento e a evolução do Espírito.

O Segundo transforma para melhor, mantém a vida, suaviza-a e permanece. A Sua proposta é libertadora, en­grandece e aprimora para sempre…

O mundo é meio, Jesus é a meta.

A verdadeira sabedoria consiste em eleger o Cristo e melhorar a sociedade mundana, trabalhando os seus valo­res e santificando-os, de forma que o processo existencial se faça enriquecedor e infinito.

As determinantes do mundo são a ilusão, o corpo, o ego.  As de Jesus são a realidade, o ser profundo, a vida em plenitude.

Ninguém chegará ao Cristo sem a travessia pelo mundo, assim como não sairá do dédalo das humanas pai­xões sem a inspiração e a atração d`Ele.

Utilizar-se dos recursos do século para amar e ser­vir, lapidando as arestas e sublimando os sentimentos, eis como viver no mundo, sem lhe pertencer.

*

O filho disse ao pai (narra o Evangelho):  “Dá-me o que me pertence, pois que desejo gozar, desfrutar a vida enquanto sou jovem”.

E o genitor lhe concedeu.

Ele foi, desperdiçou tudo, embriagou-se no prazer, exauriu-se, e para sobreviver foi trabalhar em uma pocilga, alimentando-se com o repasto dos suínos.

Recordou-se, porém, na aflição superlativa que o tomou, que na casa do pai teria melhor tratamento, mais oportunidade, resolvendo retornar ao lar.

Recebido em festa, provocou ciúme no irmão que se postara em casa, fiel, dedicado, honrando a família.

O pai, porém, disse a este, que se queixara da for­ma como fora recebido o extravagante, o perdulário:

– Teu irmão estava perdido e eu o reencontrei, en­quanto que tu sempre estiveste ao meu lado, bem e salvo, por isso é grande a minha alegria com o retorno dele.  Esta­va perdido e eu o reencontrei.

Da mesma forma, aquele que elege Jesus e se liber­ta do mundo se alegra e se une à família-amor, que o aguar­da e o acata em júbilo, concedendo-lhe felicidade perene.

*

Reconhecendo nossas lutas íntimas e o árido proscênio terrestre onde elas são travadas, Joanna de Ângelis, com sua aguçada percepção psicológica ensina-nos, incentiva-nos e detecta nossas dificuldades e limitações na vida de relação, deixando-nos o seguinte recado[4]:

Rememorando tuas lutas, desfilam pela mente em agonia, ardendo em febre de sofrimento íntimo, os in­gratos, os traidores, os caluniadores, os perversos, os perseguidores que agora, de longe, esqueceram do quan­to lhes deste, do carinho com que os honraste sem que o merecessem e experimentas uma angústia tão grande que te faz temer pelo próprio equilíbrio, pela razão.

Aguarda um pouco mais.

A nuvem plúmbea que obscurece o sol do teu discer­nimento, enquanto sofres, passará.

Suporta um pouco mais…

Não planeies para o futuro, nem penses como vi­verás os dias que virão, a sós, em abandono, sorvendo fel sob chuva de sarcasmo e zombaria dos que ficaram ao teu lado, embora longe de ti.

 Vive o agora, atravessa o hoje fazendo o melhor cada dia.

 A eternidade é a vitória do tempo sobre o pró­prio tempo…

 O universo resulta do “milagre” do substrato do átomo…

     Toda a vida física na Terra teve início no gelatinoso protoplasma.

No entanto, graças ao segundo a segundo, manifestam a glória da Criação.

*

O ingrato é um doente que enlouqueceu ao fugir do teu aconchego.

O traidor que procura esquecer, está enganado, en­ganando-se cada vez mais.

O caluniador queixa-se, queimando-se no ácido da infâmia que espalha.

O perverso jornadeia em soledade incomparável sob tormentos atrozes.

O perseguidor está fugindo de si próprio, enquanto se esconde avinagrando o próximo.

Infelizes, estão procurando esquecer. Mas lembra­rão; a memória os trairá quando a consciência fizer que releiam as leis de Deus nela insculpidas de maneira inamovível.

Apiada-te, desde agora, pois que perlustras a senda espinhosa que conduz à plena paz; e eles?…

Como puderam aqueles ingratos, traidores, calunia­dores, perversos e perseguidores anular na mente o que viram, o que receberam, o que tiveram, o que experi­mentaram ao convívio com o Mestre Divino nos cená­rios incomparáveis da Galileia romântica e nobre ou na áspera Judeia fria e severa?!…  No entanto, não fo­ram os estranhos, os que apenas foram informados so­bre o Rabi, que traçaram as linhas do martírio do Justo…

Os falsos representantes do povo que armaram as ciladas e engendraram a crucificação conheciam-nO, sabiam a verdade. Todavia…

Jesus, porém, sabia com mais segurança que neles estavam escritas as leis do Pai e que, cada um, a seu turno, retornaria à senda para recuperar o tempo per­dido, libertando-se da crueldade que os malsinava.

Conforta-te ante a lembrança e evocação dEle e esquece-os.  Romperam os laços contigo e, mesmo so­frendo, estás livre deles, os trânsfugas, para rumares na direção da Grande Luz.

 

Bibliografia:

1 – BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 6, vers. 34.

2 – FRANCO, Divaldo. Otimismo. Pelo Espírito Joanna de Ângelis.4. ed. Salvador: LEAL, 1992. cap. 1.

3 – __________. Sendas luminosas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis.Votuporanga: DIDIER, 1998. cap. 23.

4 – __________. Lampadário espírita. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 5. ed.Rio de Janeiro: FEB, 1991. cap. 49.

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