Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
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Isabel de Aragão, a rainha santa

fevereiro/2018 - Por Mary Ishiyama

Deus deu-me um trono para eu fazer a caridade. Foi esse sentimento que moveu a vida de Isabel de Aragão, chamada a rainha santa de Portugal.

Nasceu no ano de 1271 em Saragoça, Espanha, filha de D. Pedro III de Aragão e Constança de Hohenstaufen.

Isabel parece ter nascido para amenizar conflitos. Começou com seu pai e seu avô, o rei Jaime I, conhecido como O Conquistador. Eles não se falavam há vários anos. Quando nasceu Isabel, o avô apaixonou-se pela neta e suplicou ao filho e a nora que o deixassem criar e educar a criança, no que foi atendido, reatando, dessa forma, a amizade entre pai e filho.

A educação recebida de seu avô fugiu, e muito, da regra geral que as meninas recebiam à época. Foi alfabetizada, aprendeu a arte de governar, falava várias línguas, inclusive o latim que era a língua internacional de então. Mas, sua maior virtude era a capacidade de se doar, de ajudar aos outros e sua conexão com Deus.

Era dotada de graça e beleza invulgar. De caráter exemplar, sabia conversar sobre assuntos diversos, inclusive diplomáticos, a ponto de encantar embaixadores e políticos, durante os jantares oferecidos pelo avô. Isso tudo aos seis anos de idade.

Isabelita, carinhosamente chamada por seu avô, habituara-se a conversas sérias. Certa feita, olhava para o rio e o avô lhe perguntou sobre o que pensava. Obteve como resposta que as águas do rio pareciam prata, ao que o rei redarguiu:  À tardezinha parece ouro líquido. Você percebe como somos ricos? A menina abriu um lindo sorriso e disse que à noite a água parecia diamante e concluiu: Somos mais ricos do que o senhor pensava.

Com postura altiva, faz reverência ao avô, chama suas damas de companhia e se encaminha para a capela dizendo Deus nos aguarda. Na capela, de joelhos, coloca-se em fervorosa prece à Virgem Maria. Ela passava horas em oração, a ponto das aias, com os joelhos dormentes, se perguntarem: Ela não cansa nunca?

Ximena, sua aia mais querida, pensava: Assim vou-me ao céu, mesmo que não queira!… Ai, Jesus, como me doem os joelhos!… Santíssima Mãe, abri os olhos dessa menina!… Dai-lhe sede, fome!

Algumas vezes, Isabel via que Ximena dormia durante a oração e a repreendia dizendo: És por demais fraca, Ximena! As coisas de Deus requerem-nos muita fortaleza!

Força essa que a fez escolher, para casar , entre muitos pretendentes, D. Dinis de Borgonha, rei de Portugal. Em 1282, aos doze anos de idade, torna-se sua rainha consorte.

Essa foi outra situação, na qual Isabel mostrou seu espírito valoroso e forte. Pouco mais de uma menina, casou-se com um jovem adulto. Voltada para as coisas divinas, casou-se porque era uma contingência de nascença. Afinal, era isso que se esperava de uma descendente de reis.

Teve dificuldades em receber a D. Dinis como marido, gerando conflitos naturais, no matrimônio, o que, segundo os historiadores, teria sido a motivação para as traições do rei. Com seu coração compreensível, ela recebeu os filhos dele, fora do casamento, como se fossem seus.

À medida que amadureceu, ela assumiu, de fato, seu papel de esposa do rei, vindo a ser mãe de dois filhos: Constança e Afonso.

Dos vários conflitos que ela precisou intermediar, os familiares foram os mais difíceis. Entre esses, a discórdia entre seu marido e o filho D. Afonso IV, que percebia a preferência do pai pelo irmão bastardo. Conta-se que evitou a guerra entre ambos, que estavam com seus exércitos frente a frente, no campo de batalha, entrando no meio, montada em uma mulinha.

A religião para ela era a grande força, a fé em Deus sempre foi a base de sua vida.

Intercedeu, de forma direta, em várias situações, no governo do marido. Administrou conflitos de convivência dentro do palácio onde havia muita inveja, disputa de poder, cobiça, orgulho, traições.

Era difícil para ela ver a pobreza do povo. Seu marido a cumulava de bens imóveis e grandes somas de dinheiro e ela, sempre que podia, estava no meio do povo doente e faminto, atendendo-o e distribuindo o que tinha.

Um fato constantemente narrado é o de que, saindo às escondidas, do palácio, levando pães, foi surpreendida pelo marido que lhe perguntou o que ela levava no avental. Ela respondeu: São rosas.

E, quando ele exigiu que ela as mostrasse, caem rosas do avental aberto.

Após a morte do marido, Isabel foi para o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra. Sai dele pouco antes de sua morte, ocorrida em 4 de julho de 1336. Seu corpo foi enterrado no mosteiro.

Devido à invasão do rio Mondego, foi necessária a construção de um novo convento, no século XVII, denominado Santa-Clara-a-Nova, para onde foi transladado o corpo da rainha.

Amada por todos, pois que com todos se importou, deixou como legado hospitais em Leiria, Santarém e Coimbra. Mandou construir e reformar conventos. Ajudava as moças pobres por ocasião do casamento, providenciando-lhes os recursos financeiros necessários. Custeava estudo para os rapazes pobres. Dessa forma, amparava as famílias necessitadas. Tornou-se conhecida como mãe da pátria.

Rainha Santa, como era chamada, foi beatificada pelo Papa Leão X em 1516 e canonizada pelo Papa Bento XIV, em 1742.

Deus deu-me um trono para eu fazer a caridade. – E ela seguiu fielmente esta aspiração.

 

Bibliografia:

1.GIMENEZ, José Carlos. A rainha Isabel nas estratégias políticas da Península Ibérica: 1280-1336. 2005. 213 f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Paraná. Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes.

2.TOIPA, Helena Costa. O ofício à Rainha Santa Isabel, de André de Resende. 2011. 21 f. Universidade Católica Portuguesa. Departamento de Letras. – http://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/9159.

3.MEDEIROS, Aldinida. Entre ficção e história: Isabel, a rainha santa de Portugal. 2013. 11 f. Graphos, Revista da Pós Graduação em Letras – Universidade Federal do Estado da Paraíba.

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