Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

Intervenção dos Espíritos no mundo corporal

novembro/2016 - Por José Passini

Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos?
Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que  vos dirigem.”
O Livro dos Espíritos, item 459.

A intervenção de Espíritos através dos profetas está presente em toda a Bíblia, mais claramente no Novo Testamento. Uma verdadeira interação do plano espiritual com o plano material é facilmente constatável a todo aquele que se debruce sobre os textos, sem ideias preconcebidas. Ao longo dos séculos, a vinda do Messias foi proclamada através dos profetas, que anunciavam também a volta do Profeta Elias, a fim de preparar-lhe o caminho. Essa volta de Elias foi diretamente anunciada por um Espírito, ao seu futuro pai: E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar de incenso. E Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele. Mas o anjo lhe disse: “Zacarias, não temas, porque tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. (…) E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias.” (Lc.1:11 a 13)

Em Atos dos Apóstolos, há o relato do conselho recebido de um anjo, pelo centurião Cornélio, no sentido de que mandasse chamar Pedro, certamente para que lhe transmitisse o que aprendera com Jesus: Agora, pois, envia homens a Jope, e manda chamar a Simão que tem por sobrenome Pedro. Este está com um certo Simão, o curtidor, que tem casa junto do mar. Ele te dirá o que deves fazer. (At. 10:5 e 6) É de tal objetividade a mensagem, que chega a conter o endereço de onde se encontrava Pedro.

Quando a pequena comitiva chegou, Pedro encontrava-se no terraço da casa de Simão, o curtidor. Ele por certo não atenderia o convite – pelo fato de os discípulos de Jesus não pregarem a Boa Nova a quem não fosse judeu –, mas ele recebeu uma ordem espiritual: … disse-lhe o Espírito: Eis que três varões te buscam. Levanta-te pois, e desce, e vai com eles, não duvidando; porque eu os enviei. (At. 10:20 e 21)

Pedro atendeu e foi ao encontro de Cornélio. Ao chegar à casa do centurião, é recebido pessoalmente por ele, que reunira parentes e amigos.

Pedro pergunta a Cornélio por que o mandara chamar, obtendo dele a seguinte resposta: Há quatro dias estava eu em jejum até esta hora, orando em minha casa à hora nona. E eis que diante de mim se apresentou um varão com vestes resplandecentes, e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida (…). Envia, pois, a Jope e manda chamar Simão, o que tem por sobrenome Pedro; este está na casa de Simão o curtidor, junto do mar, e ele, vindo, te falará. (At. 10:30 a 32)

Note-se que Cornélio, ao descrever a aparição, disse que lhe aparecera um varão com vestes resplandecentes. Daí pode-se deduzir que o Espírito tinha a forma perfeita de um homem, que fez resplandecerem suas vestes talvez para não ser confundido com um encarnado.

Outra intervenção espiritual foi a libertação de Pedro, que se deu graças à ação de um Espírito que fez caírem as correntes que o prendiam: E eis que sobreveio o anjo do Senhor, e resplandeceu uma luz na prisão; e, tocando a Pedro na ilharga, o despertou, dizendo: “Levanta-te depressa”. E caíram-lhe das mãos as cadeias. E disse-lhe o anjo: “Cinge-te e ata tuas alparcas.” E ele o fez assim. Disse-lhe mais: “Lança às tuas costas a tua capa, e segue-me.” (At. 12:7 e 8)

Em O Livro dos Espíritos (pt. 2, cap. 9), encontra-se não mais a simples informação da existência de intervenções dos Espíritos no mundo corpóreo, mas um estudo pormenorizado de situações em que isso ocorre, bem como as causas e consequências dessas intervenções.

A obra mediúnica subsidiária é tão rica em exemplos desse inter-relacionamento, que nos leva à conscientização de que convivemos, na Terra, com outra Humanidade desencarnada, constituída de Espíritos bons e maus, que buscam influenciar nossas ações.

Em Os Mensageiros, constata-se a existência de um serviço de amparo a Espíritos desencarnados que perambulam pelas ruas, no sentido de conduzi-los a um centro espírita a fim de serem encaminhados. Esse trabalho conta com servidores que têm responsabilidade definida, de que devem prestar contas, conforme se vê, na reprimenda que sofreram dois trabalhadores que não se ativeram ao cuidado requerido no desempenho da tarefa, por terem favorecido parentes desencarnados, que não se apresentavam em condições de serem ajudados: Vieira, recomendo a você e ao Hildegardo a melhor observância do nosso critério doutrinário. (…) Não podemos perder tempo com Espíritos escarninhos e ociosos, nem com aqueles que se aproximam de nossa tenda alimentando certas intenções de natureza inferior.  (cap. 39)

Ainda nessa mesma obra, André Luiz relata que ele, Vicente e o Instrutor Aniceto, depois de repousarem durante o dia num campo, em plena zona rural, próximo ao Rio de Janeiro, já estavam retornando, quando surpreendeu-se ele com a quantidade de trabalhadores espirituais que via nos arredores. Esclarecendo, Aniceto disse-lhe: O reino vegetal possui colaboradores numerosos.

Prosseguindo seu relato, diz que nas proximidades (…) um homem jazia por terra numa poça de sangue, ao lado de uma carroça sustentada por um muar impaciente, dando mostras de grande inquietação. Dois companheiros encarnados prestavam socorro ao ferido, apressadamente. (…) O número de desencarnados que auxiliava o pequeno grupo, todavia, era grande. Um amigo espiritual que me pareceu o chefe, naquela aglomeração, recebeu Aniceto e a nós com deferência e simpatia, explicou rapidamente a ocorrência. O carroceiro havia recebido a patada de um burro e era necessário socorrer o ferido.

Serenada a situação, vi o referido superior hierárquico chamar um guarda do caminho, interpelando:

– Glicério, como permitiu semelhante acontecimento? Este trecho da estrada está sob sua responsabilidade direta.

O subordinado, respeitoso, considerou sensatamente:

– Fiz o que pude para salvar este homem, que, aliás, é um pobre pai de família. (…) Mas, ele não sabe senão gritar, encolerizar-se, surrar e ferir. Tem a mente fechada às sugestões de agradecimento. Não estima senão a praga e o chicote. Hoje, tanto perturbou o pobre muar que o ajuda, tanto o castigou, que pareceu mais animalizado… Quando se tornou quase irracional, pelo excesso de fúria e ingratidão, meu auxílio espiritual se tornou ineficiente. Atormentado pelas descargas de cólera do condutor, o burro humilde o atacou com a pata. (…)Minha obrigação foi cumprida. (cap. 41)

Como se vê, num local distante, numa estrada transitada por carroças, havia Espíritos, com responsabilidade definida, encarregados da manutenção da ordem. Imaginemos nas estradas movimentadas, nas cidades…

André Luiz, ao visitar na Terra, seu antigo lar, após vários anos de ausência, vê-se compelido a auxiliar no tratamento daquele que lhe ocupara o lugar, na condição de marido de sua viúva. Depois de alguma hesitação, solicita o concurso de Narcisa, a notável enfermeira com quem trabalhava na colônia espiritual. Tão logo chega, Narcisa convoca Espíritos que lhe possam indicar onde encontrar mangueiras e eucaliptos, a fim de retirar substâncias medicamentosas para o socorro ao doente. Ante o espanto de André Luiz, ela explica que as oito entidades que se apresentaram eram servidores comuns do reino vegetal. (Nosso Lar, cap. 50)

No livro No Mundo Maior (cap. 13), há uma intervenção direta de Calderaro, impedindo o suicídio da jovem Antonina.

André Luiz, em sua obra mediúnica, é o Espírito que mais esclarece essa atuação de Espíritos desencarnados entre nós. Sexo e Destino é, seguramente, a obra em que mais aparece essa interferência de Espíritos desencarnados na esfera física. Ali pode-se ver com clareza o respeito com que os trabalhadores do bem observam o limite de suas ações, e o quanto Espíritos voltados ao mal buscam atuar, no sentido de terem satisfeitos os seus desejos. No capítulo 6, é descrita a atuação de dois obsessores, que buscavam o prazer da ingestão de bebida alcoólica, através de um encarnado, embora seu protetor espiritual estivesse presente.

Diante do quadro, muitos perguntarão como o guarda do caminho – que é um Espírito esclarecido, trabalhador da seara do Bem – não conseguiu evitar o acidente com o muar (Os Mensageiros, cap. 41), e os dois obsessores conseguiram repartir os goles de bebida alcoólica com o protegido de Félix. A explicação prende-se à questão de sintonia. O guarda do caminho não conseguiu atingir o campo mental do carroceiro, que estava em faixa vibratória de cólera, de violência. No caso de Cláudio, havia perfeita sintonia entre ele e os dois Espíritos que o acompanhavam, participantes de suas libações alcoólicas e de suas aventuras sexuais. Quanto à não intervenção de Félix, seu protetor espiritual, fica esclarecida na resposta dada a Neves:

– Mas… e Cláudio? – insistiu Neves.  – Não merecerá, porventura, fraterna demonstração de caridade, a fim de livrar-se de tão temíveis obsessores?

Félix sorriu francamente bem humorado e explicou:

– “Temíveis obsessores” é a definição que você dá. – E avançou: – Cláudio desfruta excelente saúde física. Cérebro claro, raciocínio seguro. É inteligente, maduro, experimentado. (…) Se elege para comensais da própria casa os companheiros que acabamos de ver, é assunto dele.  (Sexo e Destino, cap. 6)

Àqueles que argumentarem que Cláudio estaria sendo violentado no seu livre-arbítrio pelos dois Espíritos que o acompanhavam, deve ser lembrado que não houve desrespeito ao seu direito de escolha. Ele recebia a influência daqueles cuja presença – no uso do seu livre-arbítrio – escolhera como companheiros.

Diante de tantos exemplos da presença e da possibilidade de intervenção de Espíritos no mundo corpóreo, é de se perguntar: Como é que ocorrem tantos acidentes, tantas situações desagradáveis? Por que esses Espíritos não agem no sentido de proteger as pessoas?

A explicação se tem no fenômeno de sintonia, conforme se dá na radiotransmissão. Na proteção espiritual, a sintonia ou ligação mental com os trabalhadores do Bem só será efetivada por aqueles que procuram pensar, falar e agir equilibradamente. Além do mais, os Espíritos trabalhadores no Bem respeitam as nossas escolhas.

Entende-se assim a necessidade do cultivo da oração, da reflexão, a fim de termos consciência de que categoria de Espíritos estamos elegendo para nossa companhia.

Dessa presença de Espíritos, já advertia Paulo: Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas (…).  (Hb. 12:1)

O Espiritismo nos mostra que tudo começa no pensamento, por isso vai além do conhecido adágio: Dize-me com quem andas que direi quem tu és, ensinando: Dize-me em que pensas, que direi com quem andas. Daí a necessidade da observância da recomendação do Mestre: Vigiai e orai para que não entreis em tentação. (Mt. 26:41)

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