Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

Há posição oficial do Espiritismo sobre a ideologia de gênero?

outubro/2018

Na atualidade, um dos assuntos mais em voga são as questões atinentes ao gênero, que nos remete a diversos assuntos (dada essa complexidade alguns se utilizam do nome ideologia de gênero – outros discordam dessa nomenclatura), que estão direta ou indiretamente relacionados, tais como, a homoafetividade, a transexualidade, a identidade de gênero etc.

É muito comum as pessoas perguntarem sobre o posicionamento do Espiritismo sobre esses assuntos.

De início, temos que pontuar quando se consolida a posição do Espiritismo sobre determinado assunto. Basta a opinião de algum espírita? É suficiente que haja uma obra mediúnica ou uma manifestação espiritual sobre a questão? A fala de algum ilustre orador ou escritor espírita é suficiente para ser aceita como sendo a visão espírita do assunto?

Para responder essas indagações temos que trazer à baila a assertiva de Allan Kardec para que determinado conceito e/ou abordagem seja considerado como parte integrante da Doutrina Espírita.

Na Revista Espírita de abril de 1864, no texto denominado Autoridade da Doutrina Espírita (ed. EDICEL), o nobre Codificador esclareceu que o controle universal dos ensinos dos Espíritos será a garantia para a futura unidade do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias.

Diz que: Ressalta, ainda, que as instruções dadas pelos Espíritos sobre pontos da doutrina ainda não elucidados, não poderia constituir lei, enquanto ficassem isoladas. Consequentemente, não devem ser aceitos senão com todas as reservas e a título de informação. (…) Em suas revelações, os Espíritos superiores procedem com extrema sabedoria; só gradativamente abordam as grandes questões da doutrina.

Diante da conceituação de Allan Kardec, podemos considerar que ainda não temos uma posição formal, definitiva e completa do Espiritismo sobre os assuntos indicados no início deste artigo.

Temos, sim, orientações de espíritas renomados, cujas folhas de serviço prestadas ao Espiritismo lhes conferem credibilidade, servindo, no momento, de lúcidas diretrizes para que possamos começar a entender essas questões complexas da ideologia de gênero e de suas ramificações.

Esses espíritas fiéis ao Espiritismo nos trouxeram até agora abordagens iniciais, mas significativas sobre os assuntos em pauta, abordagens essas que constam de palestras, entrevistas, obras psicografadas.

Infelizmente, algumas dessas abordagens foram alvos de críticas desleais, porque não se limitaram aos debates das ideias, o que é saudável, mas partiram para os ataques pessoais, violando os preceitos cristãos do respeito e da fraternidade.

Algumas dessas obras psicografadas foram ditadas por Espíritos que também ostentam relevantes serviços prestados em prol do Espiritismo, mantendo fidelidade às bases e aos fundamentos da Doutrina Espírita.

Convém registrar que as temáticas em foco são extremamente complexas, exigindo um esforço de diversos segmentos do pensamento humano, tais como a psicologia, a psiquiatria, a medicina, a sociologia, o direito, os quais, quando se alinham ao ideal espírita, conseguem trazer relevantes reflexões para que possamos começar a compreender os desafios que os conflitos de gênero ou de orientação sexual trazem para alguns indivíduos e para a sociedade.

Mostra-se oportuno dizer que o conflito de gênero se estabelece quando o indivíduo se sente totalmente diferente do gênero que possui. A mulher, embora tenha um corpo feminino, sente-se como homem. O homem, embora tenha um corpo masculino, sente-se como mulher. Surgem, portanto, as crises de identidade de gênero, que poderão em alguns casos gerar a busca pela transexualidade (mudança de sexo através de cirurgia ou tratamento hormonal), e em outras pessoas poderá gerar apenas os dramas e sofrimentos íntimos, de forma que cada um que apresente esse conflito poderá ter reações diversas de acordo com a bagagem (intelectual, emocional e moral) que o Espírito reencarnado traga de suas vidas transatas.

Alguns estudiosos não espíritas chegam a sugerir que o indivíduo não deve receber nenhum estímulo de gênero a partir do nascimento, cabendo a ele fazer a sua escolha oportunamente, quando estiver mais maduro e ciente dessas questões, o que normalmente tenderá a ocorrer na mocidade.

Naturalmente que a compreensão desse tema sobre a perspectiva espírita, por envolver a questão do planejamento reencarnatório e que o Espírito reencarna  ora em corpos masculinos, ora em corpos femininos, de acordo com as provas que deve suportar e o aprendizado que deve realizar (q. 200 a 202 de O Livro dos Espíritos), e através de outras premissas doutrinárias, sugere que essa educação e estimulação neutra é falha, até porque a maioria das pessoas está ajustada no gênero em que se encontra.

A homoafetividade, em regra, não é uma questão de identidade de gênero, porque o homossexual que está num corpo masculino sente-se homem, e aquele que está num corpo feminino sente-se mulher, mas tem seu interesse afetivo-sexual direcionado para pessoas do mesmo gênero.

Citarei alguns valiosos textos que nos ajudarão a entender, ainda que parcialmente, as questões em tela, sendo que alguns deles fazem parte daquele rol de Espíritos nobres que se manifestaram através de médiuns respeitáveis e valorosos, como, por exemplo, Emmanuel, Camilo e Philomeno de Miranda.

Mas, antes dessas citações, observo que na Revista Espírita de janeiro de 1866 (As mulheres têm alma?), Allan Kardec menciona como anomalias aparentes esses comportamentos rotulados como diferentes sob a ótica do gênero, ao afirmar que o Espírito que percorre uma série de existências no mesmo sexo conserva o caráter, os gostos e as inclinações inerentes a esse gênero e, ao reencarnar num corpo diverso desse gênero (inversão reencarnatória), pode conservar esses hábitos e tendências, a gerar a dificuldade de adaptação de gênero.

Transcrevo parcialmente esse texto: (…) Depois, pode acontecer que o Espírito percorra uma série de existências no mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa. (…) Numa nova encarnação trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito (…) Mudando de sexo, poderá então, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerente ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes, notadas no caráter de certos homens e de certas mulheres (…)

Seguindo esse mesmo raciocínio, já fazendo as citações acima referidas, temos a obra Vida e Sexo, de Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel, no capítulo Homossexualidade, ao citar a inversão reencarnatória de um Espírito após estagiar vários séculos num mesmo gênero.

No livro Sexo e Obsessão, de Divaldo Pereira Franco, o Espírito Philomeno de Miranda, no capítulo quinze, expressa menção da inversão reencarnatória como passível de gerar a  homoafetividade (no comentário do livro fala-se da inversão imposta por abuso do sexo), havendo, inclusive, a menção de que haveria um aumento dessa situação a recomendar um estudo das diversas áreas do pensamento humano.

Assim sendo, temos vigorosas informações que atendem aos requisitos da universalidade dos ensinos, até porque está em sintonia com o citado texto de Allan Kardec (As mulheres têm alma?), a nos apontar que o fator causador da dificuldade de adaptação de gênero está no Espírito que, pela visão da reencarnação, traz das suas vidas anteriores experiências, emoções e valores, que o predisporá a essas situações.

Tal raciocínio se estende à homoafetividade, e também incluímos a bissexualidade, que são questões de orientação sexual.

Todavia, na homoafetividade e na bissexualidade, será oportuno apontar que a inversão reencarnatória nos moldes elencados (após estagiar vários séculos ou diversas vidas num mesmo sexo, conjugada com outras questões emocionais, morais, psicológicas do Espírito) será talvez a principal, mas não a única causa (há diversas causas muito bem estudadas) dessas escolhas que o indivíduo poderá fazer.

Aliás, há pessoas que trazem a homoafetividade na intimidade, mas não exteriorizam, não formam parcerias amorosas, pois preferem, por variados motivos, manterem-se isentos de relacionamentos.

Apenas a título de registro, há pessoas, e muitas delas jovens e imaturas, que envergam a homoafetividade ou a bissexualidade apenas pela busca de prazeres diferenciados, tornando-se modismos para uma parte desses indivíduos.

Diante de todo o exposto, bem se vê a complexidade desses assuntos, de tal sorte que quaisquer outros aprofundamentos e variações temáticas deverão ser catalogadas como opiniões pessoais, seja do espírita ou do Espírito, merecendo todo respeito e reflexão, aguardando-se a confirmação pela universalidade dos ensinos e pelo uso da razão, do bom-senso, para que possam compor, futuramente, a diretriz do Espiritismo.

Recomendamos, a título de reforço desses temas, não propriamente como posição do Espiritismo, consoante expusemos no início deste artigo, mas como opinião avalizada e séria, os livros Minha família, o mundo e eu (cap. Filhos homossexuais) e Educação e Vivências (cap. Homossexualidade e educação), ambos do médium José Raul Teixeira, ditados pelo Espírito Camilo, que tem colaborado de forma extraordinária na compreensão desses assuntos.

Dessas duas obras de Raul Teixeira podemos extrair dos referidos capítulos que não há qualquer erro num homem amar um homem, numa mulher amar uma mulher, e que a escolha sexual não é o fator mais decisivo da reencarnação, devendo preponderar  as atitudes e as escolhas morais, que deverão estar pautadas pelos valores e virtudes ensinadas por Jesus, o Modelo e Guia de nossas vidas.

Por derradeiro, deveremos entender como perfeitamente compreensíveis as escolhas sexuais e as escolhas diversas de gênero, não devendo haver quaisquer preconceitos, animosidades e exclusões, porque a proposta do Evangelho é de compaixão, isto é, compreender as escolhas do indivíduo, sem qualquer julgamento, procurando sempre respeitá-lo e amá-lo, porque podemos até discordar de sua escolha, mas não podemos estar contra ele, assim como desejamos que as pessoas entendam as nossas escolhas e atitudes, conquanto possam delas discordar.

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