Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Há dez anos…

novembro/2013 - Por Maria Helena Marcon

Em novembro de 2003, ele partiu, adentrando a Espiritualidade. Despedira-se, dias antes, dizendo que ficaria alguns dias sem comparecer à Federação, porque iria se submeter a uma cirurgia.

Nada complicado. Logo estaria de retorno, diligenciando as questões que lhe diziam respeito enquanto Diretor do Departamento de Apoio às UREs e Expansão do Movimento Espírita e a atualização do site da FEP, sua menina dos olhos.

Nós não sabíamos, mas ele já estava de malas prontas.

Napoleão de Araujo (sem acento, frisava sempre), ou Napo, como lhe chamavam os familiares, ou Coronel, como o denominavam os carentes que compareciam à sua porta, diariamente, para tomar o café da manhã, por ele preparado, era uma figura singular.

Viagens doutrinárias com ele tinham uma nota especial. Ele se oferecia para dirigir o primeiro trecho da viagem, isto é, tomava o volante logo cedo. Pelo caminho, as notas de bom humor repontavam em um ou outro momento, envolvendo os companheiros em riso sadio e descontraído.

Quando a hora do almoço ia se aproximando, ele começava a recitar, a espaços regulares, como se fosse um mantra: Ai, que fome que eu tô! Ai, que fome que eu tô!

Ele seguia pela rodovia e escolhia o restaurante. Tinha uma peculiaridade: dizia que onde houvesse muitos caminhões, a comida era boa e não onerosa.

Caminhoneiro come bem e procura não gastar muito.

E nunca se enganava. Os lugares que selecionava para as paradas estratégicas no horário das refeições eram sempre do agrado dos que seguiam com ele.

À mesa, quando alguém reforçava um pouco mais na quantidade, ele sorria e comentava: Deus te abençoe o Espírito, porque o estômago vai bem.

E, quando saía do restaurante, lá vinha o mantra, de novo, levemente modificado: Ai, que fome que eu tinha… E o riso era geral.

Era o momento dele passar para o banco de trás, entregando a chave do carro para outro companheiro: Agora, é com você. Eu já fiz a minha parte.

Abraçava-se ao travesseiro que levava sempre consigo, recostava a cabeça, acomodava-se e dormia. Eram quinze, vinte minutos, mas que lhe eram imprescindíveis, dizia. Sua sesta era sagrada.

Era comum ele telefonar para casa, várias vezes, quando a esposa não o acompanhava. Preocupava-se com Elci e indagava se ela estava bem, se havia tomado os remédios, perguntava pelos filhos, os netos.

Era sua forma de dizer que estava distante fisicamente mas que seu pensamento estava com ela, com a família.

Verdade seja dita que Napo envelheceu, de forma gritante e rápida, após a desencarnação de sua amada Elci, que o antecedeu em dez meses. Ele vinha à FEP, realizava seu trabalho com o mesmo carinho e cuidado. Cumprimentava a todos, funcionários e voluntários, de forma polida, mas com o sorriso espontâneo mais raro.

Os ombros pareciam vergados e todo o corpo tresandava saudade. No olhar, não havia o mesmo brilho. A ausência de Elci o abatera.

Eduardo, um dos filhos, confessou, referindo-se aos pais: Eles queriam mostrar que o amor também poderia ser dividido com tudo que Deus criou. Ensinaram-nos a amar a natureza e a todos os seres vivos nos inúmeros piqueniques que fizemos na beira dos rios, cachoeiras e na mata virgem; nos ensinaram a amar e respeitar cada minúscula forma de vida pela expressão de Deus que elas representam. Afastar uma formiga com carinho, colocar uma aranha sobre o papel e levar para o jardim, cultivar uma horta, plantar uma árvore, uma roseira, uma jabuticabeira – mesmo sabendo que só dali uns quinze ou vinte anos alguém iria saborear seus frutos.

Com referência ao pai disse que: uma lição de amor maior e mais sublime, estava por vir: por mais de dez anos foi deixando a sua vida e carreira profissional de lado para cuidar de sua amada, a nossa mãe, que pouco a pouco, recebia novas provações e limitações. Primeiro a diabetes, depois a síndrome de Jogre (sem saliva e secreções no corpo todo), depois o câncer, a amputação da perna, a perda de uma vista….

Napoleão era Engenheiro e Professor da Universidade Federal do Paraná. Como trabalhador espírita, estava vinculado à Sociedade de Estudos Espíritas Francisco de Assis, em Curitiba. Na FEP, além de Conselheiro, Presidente de uma Região Federativa (1a. URE, com sede na Capital, antes do seu desdobramento, quando abrangia todas as regiões, hoje sob a responsabilidade das URE’s Metropolitanas, 1ª e 3a. Região), exerceu o cargo de Secretário Geral, Presidente, Vice-Presidente e cargos de Assessoria da Presidência.

Deixou sua marca registrada em quase todos os Departamentos e Serviços da Federação, entre os quais, na Livraria, no Jornal Mundo Espírita, nas Obras Sociais e Assistenciais mantidas pela Federação, no Programa Momento Espírita, do qual foi um dos idealizadores e coordenador.

Até os seus últimos dias no corpo físico, deu a sua grande contribuição à Liga de Historiadores e Pesquisadores Espíritas.

É desse Napo que temos saudades e, na data em que lhe recordamos os dez anos da passagem ao mundo espiritual, lhe dizemos que o desejamos feliz e lhe enviamos nossas vibrações de irmãos e amigos, agradecidos pelo tempo em que esteve conosco e que nos permitiu tanta aprendizagem.

Também dizer que temos saudades dos momentos fraternos de convivência e o lembramos trazendo o pão caseiro, de sua confecção, o suco de uva, para os lanches na Federação.

Por fim, lhe dizemos: Até breve! Oxalá, quando chegar a nossa hora da partida, possamos comparecer na aduana tranquilos como você, com a certeza dos deveres cumpridos e a mala das ações bem arrumada.
Fonte de consulta: www.feparana.com.br/biografia

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