Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Guilherme Taylor March, estranho homem esse

setembro/2021 - Por Mary Ishiyama

Estranho homem esse, que esquece a própria dor para aliviar a de outrem. Talvez seja um santo… Seus familiares, entretanto, sabiam se tratar de um simples espírita, procurando cumprir a recomendação do Divino Médico: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.1

Guilherme Taylor March era o segundo filho do casal George e Ignácia March, nascido em 21 de agosto de 1838, em Teresópolis, Rio de Janeiro.

De família abastada, teve uma infância tranquila, apesar de sua mãe ter desencarnado quando era ainda muito pequeno. Tudo mudou drasticamente, com a morte de seu pai. Seu irmão George Brittain March, estava com 18 anos e foi cuidar de seus interesses. Guilherme, com 12 anos, foi entregue a um tutor, que o colocou em internato, no Colégio dos Padres Paiva, no Rio de Janeiro. Cursou, depois, a Faculdade de Medicina da Corte, formando-se em 1859.

No último ano da Faculdade teve varíola, tratada pela senhoria do local onde morava, uma enfermeira espírita, com remédios homeopáticos, receitados mediunicamente, fato comum à época.

Concluída a Faculdade, descobriu que estava pobre. Atribuiu o ocorrido a negócios infelizes tentados pelo seu tutor. Não se preocupou em descobrir o que acontecera, nem ficou reclamando. Ele tinha uma profissão e foi em busca de trabalho.

Guilherme estudou a fundo as descobertas de Hahnemann, e trabalhou a vida toda obtendo excelentes resultados, mostrando a credibilidade da Homeopatia. Foi um dos precursores da Homeopatia no Brasil, sendo um dos fundadores do Instituto Hahnemanniano Fluminense.

No exercício da profissão, se deparou com situações tristes, pobreza sem assistência, muita miséria e sofrimento. Ele via no sofredor um irmão necessitado e nas situações com que se defrontou, descobriu um Deus diferente dAquele que conhecera no internato e, até mesmo, na família. Esse era um Deus que o convidava à ação através das pessoas.

Como entender situações como aquelas? Como entender que havia tantas pessoas sem o mínimo necessário? Como ajudá-las, quando ele mesmo tinha tão pouco? Foi então que se lembrou de duas pessoas importantes na sua vida: a enfermeira dedicada que cuidara dele, um estranho, com tanto zelo e carinho, em um momento em que ele não tinha mais ninguém; e de Nascimento, o médium receitista, que enxugava lágrimas e trazia esperança através de sua doação voluntária. Indagou-se que crença era aquela que tornava irmãos pessoas estranhas.

Passou a estudar as obras de Allan Kardec, tornou-se adepto do Espiritismo, adotando-o no coração e na ação.

Casou-se com Francisca de Paula Corrêa, que lhe foi grande companheira. Tiveram nove filhos, moravam em Niterói, na Rua Santana 51, em modesta casa. Abriu consultório homeopático, que mais lhe dava despesa do que rendimentos pois que atendia e dava os remédios, de forma gratuita, a quem não pudesse pagar. Pacientes pobres, vindos de lugares distantes, pernoitavam e se alimentavam em sua casa.

Trabalhava dia e noite. Sua casa nunca teve a porta trancada. Se estivesse doente, bastava chegar e abrir a porta porque o doutor dormia em uma rede, no consultório.

Ficou conhecido como Pai dos pobres. Coisas estranhas aconteciam em sua vida. Atacado por doença agressiva, que o deixou acamado, com severas restrições de mobilidade, seu quarto foi transformado em consultório. De sua cama, atendia a todos. Sua filha Eponina manipulava os remédios por ele receitados e ofertados.

A falta de dinheiro, que já era grave, piorou, a ponto de correrem o risco de serem despejados por não poderem pagar o aluguel. Cientes disso, pessoas, de várias localidades, levantaram o suficiente para comprar a casa e dá-la ao Pai dos pobres.

Outro fato interessante se deu quando ele entrou em coma. Um de seus filhos, ao entregar seu cartão de visitas a um cliente, ouviu dele que conhecia alguém que assinava G. March. Meu pai assinava assim, disse ele, enquanto o cliente informou que G. March havia feito uma receita homeopática.

Ante a incredulidade do filho, foi-lhe mostrada a receita, recepcionada, no dia anterior, pela psicografia de uma jovem médium sonâmbula. Dr. March, em desdobramento, atendia ao receituário mediúnico.

No dia 21 de junho de 1922, após 84 anos de vida de doação, o Pai dos pobres voltou à pátria espiritual. O povo foi às ruas. O trajeto de meia hora, da casa ao cemitério, levou mais de seis horas, porque todos queriam se despedir.

O Poder Público de Niterói pagou as despesas do enterro, em agradecimento a tantos serviços prestados à comunidade. O jornal O Fluminense publicou, no dia seguinte, um artigo intitulado O fim da existência de um benemérito da Humanidade.

Assim como Dr. Bezerra de Menezes, Dr. March com a sua vida de renúncia e sacrifício soube honrar a Medicina e a Doutrina Espírita, como verdadeiro Apóstolo do Bem.1

 

Referências:

  1. http://www.feparana.com.br/topico/?topico=627
  2. LOUREIRO, Hélio Ribeiro. Dr. March uma vida dedicada à caridade. Reformador, Brasília, ano 122, n. 2103, p. 22-23, jun. 2004.
    3. MINI-BIOGRAFIA. Presença Espírita, Salvador, ano V, n. 49, p. 22, mar. 1978.
    4. ROCHA, Alexandre. Dr. March em dois planos. Niterói: FEERJ, 2004.
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