Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2019 Número 1623 Ano 87

Gravidez na adolescência – uma abordagem médico espírita

agosto/2015 - Por Edson G. Tristão

Para a Organização Mundial da Saúde – OMS, a adolescência corresponde ao período de transição entre a infância e a idade adulta, intervalo que vai dos dez aos dezenove anos de idade. Caracteriza-se por profundas alterações anatômicas e fisiológicas, como crescimento rápido, surgimento dos caracteres sexuais secundários, conscientização da sexualidade, estruturação da personalidade, adaptação ambiental e integração social. 1 Os adolescentes representam no Brasil em torno de 25% da população.2

Esse período é de extrema importância na vida futura do jovem, pois seus valores precisam ser estruturados, de forma equilibrada, através de ações direcionadas aos vários pontos do desenvolvimento e maturação da personalidade. Estímulos informativos de boa qualidade são fundamentais para que chegue à vida adulta com propostas bem estabelecidas que contemplem a afetividade, a vida profissional, os relacionamentos sociais e outros. O intenso fluxo de informações que envolvem o adolescente de fora para dentro e a eclosão dos hormônios de dentro para fora transformam, rapidamente, a fisiologia do seu corpo, refletindo também na mente, através dos sentimentos e emoções. Comportamentos irreverentes e desafiadores aparecem, de forma marcante, deixando surpresos amigos e familiares. Questionamentos religiosos, políticos e culturais sofrem uma contestação natural como se o adolescente estivesse fazendo uma revisão dos seus valores para, posteriormente, serem assentados na consciência. É nesse turbilhão de estímulos e sensações que desabrocha a sexualidade, levando-o aos primeiros ensaios dos jogos amorosos.

O cenário descrito leva a situações difíceis e inesperadas, porque o adolescente ainda está formulando seu conteúdo psíquico, através dos estímulos externos e tentando encontrar uma postura própria para a sua personalidade, em processo de afirmação. Nessa fase, as tomadas de decisões rumo à vida adulta dependem do seu livre arbítrio, que começa a ser usado com maior independência, muitas vezes podendo levá-lo a caminhos perigosos como vícios, drogas e violência. Biologicamente, a maior mudança é a transformação de um estado não reprodutivo para um estado reprodutivo, ou seja, as alterações hormonais e fisiológicas permitem que o indivíduo seja capaz de gerar descendentes.

A gravidez na adolescência transforma-se em um problema de saúde pública mundial, especialmente relevante nos países em desenvolvimento, considerando que 95% dos partos, nesse período, ocorrem nesses locais. 3 Devido ao número crescente de jovens despreparadas para a maternidade, esse acontecimento acarretará problemas para as famílias e, principalmente, para os adolescentes envolvidos, pois muitas vezes acaba prejudicando o direito das meninas grávidas à educação, à saúde e à autonomia. Uma vez que essas jovens ainda estão imaturas, emocionalmente, para assumir tamanha responsabilidade, acabam por sair de suas casas, cometer abortos, deixar os estudos ou abandonar a criança sem saber o que fazer para fugir da própria realidade.

A incidência da gravidez na adolescência varia nas mais diversas regiões do mundo. No Brasil, essa incidência foi de 19,3% em 2010, taxa duas vezes maior que as admitidas mundialmente pela OMS. 4 Cerca de 19% das mulheres jovens nos países em desenvolvimento engravidam antes dos dezoito anos.5 No Brasil, em 2010, 12% das adolescentes de quinze a dezenove anos possuíam, pelo menos, um filho (em 2000, o índice para essa faixa etária era de 15%).

Apesar das discussões a respeito da gravidez nessa faixa etária terem aumentado, nos últimos anos, pela sociedade como um todo, seus índices não têm baixado na maioria dos países. Enquanto a taxa de fecundidade geral diminuiu nas últimas quatro décadas, a gravidez na adolescente aumentou 26%%. 6

A pergunta que se faz é: Por que as adolescentes engravidam?

Atraídas pela curiosidade e por uma bem urdida estimulação constante através da mídia, que coloca como natural a precocidade dos relacionamentos, as adolescentes facilmente se entregam às experiências sexuais, sem nenhum preparo psicológico e de natureza moral. Mesmo conhecendo, superficialmente, os fatores que levam à gravidez, desenvolvem a percepção de que tal fato não vai acontecer com elas, mas apenas com as colegas. Outros fatores também concorrem para esse acontecimento: baixa autoestima, dificuldades escolares, abuso de álcool e drogas, relacionamento e comunicação familiar difícil, com ocorrência de conflitos.  Além disso, pais ausentes ou rejeitadores, separações dos genitores, amigas grávidas no mesmo período e até mães e avós que também engravidaram nessa idade, são fatores de influência.

Mesmo com um pré-natal de boa qualidade, relata-se maior ocorrência de partos prematuros, doenças hipertensivas, restrições de crescimento, infecções urinárias e hemorragias pós-parto, principalmente, nas gestantes abaixo de dezesseis anos, que faltam a muitas consultas, o que é atribuído ao grau de imaturidade. Isso dificulta o entendimento da importância das consultas médicas contínuas até o parto.

As intercorrências físicas são possíveis de ser controladas, o mesmo não se pode dizer das emocionais e sociais, pois são relacionadas a outros fatores. Em trabalho realizado no Estado de São Paulo, observou-se que, entre as adolescentes que engravidaram, apenas 53% concluíram o segundo grau, enquanto daquelas que não engravidaram, 95%  o concluíram.7 São relatados ainda diminuição da qualidade de vida, obstáculos no crescimento individual e profissional, abandono de emprego, isolamento social, depressão, suicídio, entre outros, com maior ocorrência nas classes sociais mais baixas.

A Doutrina Espírita fornece subsídios para entender melhor esse tema, começando pela avaliação do adolescente que está encarnado na família, tendo agora uma nova identidade no mundo físico, lutando pelo seu aprimoramento evolutivo. O desabrochar hormonal sinaliza a presença do amadurecimento orgânico. A partir dessa idade, passa a se comportar de maneira plena, captando, em sua totalidade, os estímulos do Espírito antigo, habitando agora um novo corpo e pode demonstrar, a partir desse momento, a sua verdadeira personalidade.

O processo de renascimento, que se iniciou com a fecundação do óvulo pelo espermatozoide no terço distal da trompa materna, permitiu que um vínculo tênue, como um fio de costura, ligasse o ovo ao Espírito. A partir daquele momento, as células foram se multiplicando, passando pela fase de mórula e completando-se com a organogênese. A forma perispiritual, elaborada com ajuda do campo mental do reencarnante, foi impregnando no corpo físico suas características, adquiridas durante o processo evolutivo, pelos erros e acertos no uso do livre arbítrio. Muitos desses arquétipos vieram agora embutidos em forma de pré-disposições, ou como um programa de computador a fazer parte do genoma, podendo ou não ser acessados durante a evolução do ser, em senha disparada pelo comportamento do próprio Espírito. Em última análise, é o próprio ser que acaba sendo o responsável pelos compromissos em sua trajetória durante a estada aqui na Terra, desde que as decisões são frutos da sua vontade.

O Espírito reencarnado não podia extravasar toda a sua personalidade através dos órgãos e glândulas imaturos da fase infantil, deixando assim um período livre para que a família pudesse atuar de forma efetiva na educação da criança, fornecendo-lhe os valores fundamentais no campo da intelectualidade, emoção e transcendência, como forma de cumprir um currículo equilibrado para o seu processo evolutivo. Na adolescência, irá ocorrer uma resultante entre o que foi fornecido pelos genitores, o meio ambiente e a bagagem espiritual que acompanha o Espírito milenar, fruto das experiências em vidas anteriores.

Todo o investimento moral e espiritual direcionado anteriormente à criança, agora adolescente, será importante diante da gravidez que não foi planejada e surpreendeu a todos. É imprescindível o jovem assumir a responsabilidade com relação ao ser que renasce, pois se existe maturidade para o ato sexual, deverá ser construída também para a maternidade e paternidade.

Sabe-se que nenhuma reencarnação é espontânea ou aleatória. A genética espiritual se efetiva pelo livre-arbítrio de cada Espírito, através das vidas sucessivas, nas quais vai estendendo suas vinculações de relacionamentos, que depois constituirão as amarras do parentesco espiritual, refletindo mais tarde nos nascimentos que formam a família terrena. As afinidades espirituais ou compromissos desenvolvidos em tantas etapas são determinantes para indicar agora o filho que vai nascer e os genitores escolhidos, pois para tudo existe uma razão, mesmo que não esteja clara no momento.

A família deve explicar ao casal a importância do renascimento para esse novo ser que está a caminho e que, desde as primeiras semanas de vida, mantém uma percepção do ambiente familiar e reage aos sentimentos de amor ou rejeição entre os que o rodeiam. A partir da oitava semana de gravidez, através do estudo da movimentação do embrião, avaliada pelo ultrassom, é possível verificar traços da personalidade do bebê e a resposta aos estímulos do meio ambiente onde se encontra. Esse comportamento continua após o nascimento, confirmando as reações da personalidade, analisados no período gestacional, conforme demonstram os estudos de Alessandra Piontelli. 8

Além da família, como célula primária no convívio com o adolescente, a sociedade e a comunidade Espírita também devem ser participativas, favorecendo discussões desse tema, como forma de educação para os jovens. Apesar de o adolescente ter vida própria, ele é fruto da educação familiar e do meio em que vive.  Abster-se dessas discussões resultará numa lacuna incompleta, no cabedal de valores que precisa ser trabalhado para melhor estruturação da personalidade do futuro adulto.

Joanna de Ângelis, Espírito, orienta: Urgem atitudes que possam despertar os adolescentes para a utilização do sexo com responsabilidade, na idade adequada, quando houver equilíbrio fisiopsíquico, amadurecimento emocional, compreensão dos efeitos que decorrem das uniões dessa natureza. Educação sexual, regime de grande urgência ao lado de um programa de dignificação da função genética, muito barateada por personagens atormentadas que se tornam “modelos” da massa juvenil, e que fugindo dos próprios conflitos perturbadores estimulam-lhes o uso desordenado. 9

A abordagem da gravidez na adolescência, sua prevenção e os valores éticos e espirituais envolvidos devem merecer uma campanha permanente para as famílias, escolas e comunidade. Não se trata de tarefa fácil, mas que deve ser proposta através de programações bem estruturadas, pois somente através da educação, e não da imposição, é que o Espírito passará a entender e acabará mudando, de forma permanente, hábitos e costumes.

 

 

Bibliografia:

1 WHO, World Health organization. Young People’s Health a Challenge for Society Report of a Who study Group of young people and health for all. Technical report series 731 Geneva; WHO, 1986.

2 YAZELE, Marta Edna Holanda Diógenes. Gravidez na Adolescência. Editorial. Rev. Bras. Ginecol. Obstet. Rio de Janeiro, v. 28, n. 8, p. 443-445, ago. 2006.

3 http://www.unfpa.org.br/Arquivos/Gravidez%20Adolescente%20no%20Brasil.pdf

4 MAGALHÃES, MLC, FURTADO, FM, NOGUEIRA, MB et al. Gestação Precoce e Tardia. Rev. Bras. de Ginecol. Obstet. Rio de Janeiro, v. 28, n. 8, p. 446-452, ago. 2006.

http://www.unfpa.org.br/Arquivos/swop2013.pdf

6 OMS – Necessidades de salud de los adolescentes. Informe de Comitê de Expertos de la  OMS, 2007.

7. SANTOS, AC; NOGUEIRA, KT. Gravidez na Adolescência: Falta informação? Adolescência e Saúde. v. 6, n. 1, p. 48-56, jan./mar. 2009.

8 PIONTELLI, Alessandra. De feto a Criança – um estudo observacional e analítico. São Paulo: Imago, 1995.

9 FRANCO, Divaldo Pereira. Adolescência e Vida. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2011. p. 11.

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