Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2017 Número 1600 Ano 85
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Francisco de Paula Vítor

– 190 anos de nascimento

abril/2017 - Por Mary Ishiyama

Só um homem apaixonado por Deus pode viver situações que a maioria de nós veria como profunda humilhação e, ainda assim, seguir em frente, de cabeça erguida.

Esse homem venceu o preconceito de cor, de posição social e a pequenez da visão humana. Tornou-se o primeiro padre negro do Brasil. Nasceu em 12 de abril de 1827, na fazenda da senhora Mariana de Santa Bárbara Ferreira, na pequena cidade de Campanha, Minas Gerais que, à época, tinha em torno de três mil brancos e sete mil negros.

Filho da escrava Lourença Justiniana de Jesus, não foi criado como escravo, considerando que a senhora Mariana tinha ideias abolicionistas. Encantada com aquele menino tranquilo e cordato, esperto e cativante, o adotou como madrinha e educadora. Ele aprendeu a ler, escrever, tocar piano, falar latim e francês.

Seu primeiro trabalho foi como alfaiate e foi para o seu mestre que contou seu sonho de ser padre. Aproveitando a visita a sua cidade de D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana/MG, o moço foi ter com ele, confessando-lhe o desejo e a vocação religiosa.1

Impressionado pela força de vontade e determinação daquele jovem, que ousava sonhar, Dom Viçoso resolveu ajudá-lo.

Assim, Francisco foi para o seminário de Mariana, a pé. Entendendo que deveria ser um serviçal, foi convidado a entrar pela cozinha. Ao saberem seus companheiros seminaristas que ele era um estudante e candidato ao sacerdócio, com quem deveriam conviver, se sentiram humilhados. E, menosprezando-o, exigiam que limpasse o chão, as roupas, lhes escovasse as botas, arrumasse as camas.

Sem relutância, ele tudo realizava de boa vontade, com um sorriso no rosto, postura que conquistou a todos e lhe granjeou respeito e atenção. Então, passaram a ombrear com ele, fraternalmente.

Francisco de Paula Vítor foi ordenado sacerdote, por D. Viçoso, em 14 de junho de 1851, aos 24 anos. No ano seguinte, foi nomeado vigário da cidade de Três Pontas, também em Minas Gerais.

A chegada de um padre negro foi bem aceita pela classe pobre, mas não pela classe abastada dos fazendeiros que faziam sua riqueza com o trabalho escravo.

O visconde de Boa Esperança chegou a dizer: “Nós pedimos um padre sábio, um padre bom e mandam aqui um negão.” Mas, Padre Victor fora para amar o povo e perdoar os inimigos.3

Enfrentou várias dificuldades, sofreu agressões, piadas ofensivas, missas com igreja praticamente vazia.

Aos poucos, foi granjeando amigos, inclusive os fazendeiros. Dessa forma, aumentavam as doações, que eram destinadas aos mais necessitados. Sua casa era uma espécie de hotel para pobres, doentes e famintos, que nem sempre encontravam comida porque ele dava tudo que lhe chegava.

Fundou e dirigiu o Colégio Sagrada Família por mais de trinta anos. Ali, os alunos encontravam instrução, vestuário e, sobretudo, o exemplo prático das mais edificantes e sólidas virtudes.  Padre Vítor fez de muitos filhos de famílias pobres, homens de cultura que passaram a sobreviver da inteligência e da educação que ali receberam.1

Houve um momento em que Padre Vitor resolveu deixar e cidade e transferir-se para outra, no intuito de iniciar nova vida, a fim de poder pagar as tantas dívidas que contraíra, para manter o Colégio.

Quando a população soube, se mobilizou. Foram até sua casa e lhe entregaram uma salva de flores, com vários documentos. Logo, Padre Vítor descobriu que se tratava das suas dívidas, totalmente quitadas. Sem conseguir conter a emoção, chorou copiosamente.

Ele nasceu, viveu e morreu pobre, tudo o que teve nunca foi seu, sua riqueza foram os amigos conquistados e sua própria vida.

Morreu no dia 23 de setembro de 1905, devido a um Acidente Vascular Cerebral. Durante os 78 anos em que ocupou o invólucro carnal, procurou ser sempre fiel a Jesus.1

Dom Diamantino Prata de Carvalho acompanhou o processo de beatificação do padre Francisco de Paula Vítor, que se concretizou em 14 de novembro de 2015.

Ele via realmente com o olhar de Cristo, afirma dom Diamantino. Ele foi um grande ser humano, uma pessoa que tinha muita fé. Morreu tendo somente a roupa do corpo. Ele realmente foi um homem de Deus.3

Da Espiritualidade, Francisco de Paula Vítor não parou de servir ao Sol de Intensíssimo Amor. Pela mediunidade de José Raul Teixeira, nos brindou com Vida e mensagem, livro publicado em 1993 e, em 1997, ao completar 170 anos de seu nascimento, Quem é o Cristo, ambos editados pela Fráter.

 

Bibliografia:

1. TEIXEIRA, José Raul. Vida e mensagem. Pelo Espírito Francisco de Paula Vítor. Niterói: Fráter, 1993. Resumo biográfico.

2.  http://padrevictor.com.br/biografia/

3.  http://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2015/11/padre-victor-conheca-historia-do-primeiro-beato-ex-escravo-do-brasil.html

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